Janeiro virou sinônimo de tragédia. Foi Santa Catarina, Angra, agora a região serrana do Rio de Janeiro. Tudo vai se misturando, fazendo a gente perder a noção daquilo que é aceitável ou não. Se estes conceitos estivessem sedimentados e as certezas fossem domínio público, o próprio Poder Público (não só os promotores, em absoluto!) saberia prevenir e sanar problemas que causam tristeza e sofrimento de tempos em tempos. Não são apenas os menos favorecidos que perdem entes queridos, bens materiais e tudo o que têm. Aquela piadinha tipicamente brasileira e que já não cabe mais por ser de mau gosto e por tripudiar uma situação de catástrofe perdeu o sentido. Dizia-se do pobre, que nunca teve nada, mas que quando das enchentes, afirmava ter perdido "tudo"; mas que "tudo", se não havia nada? Além do politicamente correto nos assaltar mais uma vez, milionários estão perdendo tudo, literalmente, até a vida. São inúmeros cavalos de corrida que valem 500 mil reais que rodaram com a enxurrada até encontrar a morte na lama, ficando apenas com o pescoço de fora, em cenas dantescas. Demonstram-se felizes os tordilhos negros ou os petiços baios que apenas valem o amor de seus donos, sempre ajudando na lida nos campos. Fletes e zainos que viviam serenos até a chegada do momento final, quando viraram a cabeça para o lado dos pagos antes de morrer com galhardia. Foi enterrado junto ao lamaçal que desceu da barranca o discurso esquerdista de que as oligarquias flutuam na riqueza sobre as cabeças dos trabalhadores, em cuja sepultura estão recém-abrigados também séculos de governantes incompetentes, sem exceção. Sob a manta negra da política e da vista grossa letal, milhares de famílias desordenadas constroem suas casas em alçapões a serem desarmados oportunamente. Quem não proibiu, tem de coibir! A natureza realiza seus ciclos sem se importar com as idiotices humanas, respondendo com perfeição as agressões que sofre, com a classe de um zagueiro maldoso, que consegue agarrar o seu oponente ou mesmo fraturar sua perna sem ser expulso. Assim é a Dra. Natureza: há séculos chuvas torrenciais acontecem, barreiras deslizam, rios escapam de seus leitos. Se casas rodam, represas estouram, moradias e avenidas são invadidas por enchentes, raso seria culpá-la. Quando os milionários morrem, um sinal se acende. Todos estão perdidos, de Nova Orleans a Gaspar. De Teresópolis à Austrália. A diferença vem do relato de um brasileiro que mora na terra dos cangurus. Ele recebeu um carta, vejam bem, uma carta dias antes, avisando que sua casa iria ficar debaixo d?água e que era urgente sua remoção do local, bem como de seus bens e tudo o que ele pudesse salvar. Além de sua vida, item fundamental para prosseguir nesta Terra, levou seus pertences e estava são e salvo num abrigo, ao contrário de sua casa, cuja imagem só mostrava o telhado. Nestas férias, muito sol com chuva e chuva com sol, além de uma confusão generalizada pelas enchentes e tragédias no Brasil e no mundo, fez meu filho sentenciar: ?é casamento de viúva com espanhol, de uma vez só?. Se é verdade que tragédias precisem acontecer para que medidas sérias sejam tomadas, valha-me Deus! Tantos são os pontos nevrálgicos de nossa rotina diária que podem resultar em tais tragédias, que me gelam os nervos: lixões que podem explodir, armazenamento sofrível de drogas e armas pelas autoridades que podem cair nas mãos de bandidos, presídios que são verdadeiros paióis de pólvora, hospitais que cultivam a médio prazo bactérias hiperresisitentes, países fundamentalistas com bombas e é melhor parar por aqui. Mas não vou deixar de citar meu grande medo: um ataque terrorista a um sistema de água de abastecimento público, tipo envenenamento em massa. Está aumentada a responsabilidade de nossas autoridades. Olho vivo e faro fino...
O autor, Marcondes Serotini Filho, é ortodontista, cronista e autor dos livros "O Sonho, Crônicas Escolhidas" e "Os caçadores de tirisco", pela Editora Edicon
O autor, Marcondes Serotini Filho, é ortodontista, cronista e autor dos livros "O Sonho, Crônicas Escolhidas" e "Os caçadores de tirisco", pela Editora Edicon