Cairo - Depois de 17 dias de revolta, mais de 300 mortos e pressões internas e externas, o ditador do Egito, Hosni Mubarak, 82 anos, há 30 anos no cargo, foi à TV para dizer que fica. O discurso do ditador - que também rechaçou "pressões externas" sobre o regime, em claro recado aos EUA - foi um balde de água fria nos milhares de manifestantes que lotaram a praça Tahrir, epicentro dos protestos no Cairo, sob forte expectativa de que ele renunciasse. Repetindo o que dissera em ocasiões anteriores sobre não concorrer a um sexto mandato, o ditador afirmou que cumprirá "até o fim" o caminho da transição pacífica e que entregará o poder àquele que o povo escolher. Mubarak afirmou, ainda, que delegará alguns de seus poderes - não especificou quais - ao vice-presidente, Omar Suleiman."Começamos um diálogo nacional construtivo e isso resultou em harmonia para que avancemos a um cronograma e implementemos uma transição democrática.?? O ditador declarou também que reconhecia "erros" e disse que pretendia honrar os sacrifícios dos mortos, que classificou como "mártires"?, durante as quase três semanas de rebelião no país.
Manifestantes
No momento em que o ditador Hosni Mubarak deixou claro que não pretendia renunciar à Presidência, um grito coletivo de espanto e desapontamento ecoou na praça Tahrir, epicentro dos protestos contra o regime. O barulho foi tamanho que pôde ser ouvido um par de quilômetros em torno da praça totalmente lotada. Alguns, mais idosos, sofreram desmaios e tiveram que ser atendidos em improvisados postos médicos. Os jovens, responsáveis por deflagrar a revolta, não escondiam a raiva, prometendo uma escalada nos protestos."Mubarak despreza o povo e não nos deixa nenhuma alternativa a não ser partir para o confronto aberto", gritava o estudante Mohamad, 21 anos. Ao lado dele, dezenas de outros jovens prometiam marchar rumo ao palácio presidencial, a cerca de 15 quilômetros da praça Tahrir. A intenção, disseram, é transferir os protestos a partir de hoje para a porta do ditador e não arredar pé até que ele deixe o palácio. Dispostos a manter as manifestações, muitos dos participantes esperam agora o pior. "Teremos dias muito violentos pela frente, não tenho dúvidas", previu o empresário Mahmoud, que deixava a praça cabisbaixo após o discurso do ditador. Para ele, a transferência de alguns poderes ao vice-presidente Suleiman significa o endurecimento do regime. Há dois dias, Suleiman fez uma ameaça velada aos manifestantes, alertando que a alternativa ao diálogo era um "golpe". Nas horas que antecederam o discurso de Mubarak, surgiram novos indícios de que o regime estava perdendo a paciência, entre eles uma declaração do chanceler, Ahmed Aboul Gheit, de que o Exército interviria caso os protestos nas ruas fossem mantidos. Por enquanto, os militares que cercam a praça têm manifestado comedimento, o que conquistou a simpatia dos manifestantes. Dezenas de tanques estão espalhados pela cidade, sobretudo em locais estratégicos. O temor agora é que a transferência dos protestos para o palácio presidencial leve a uma repetição dos confrontos violentos registrados no início da revolta, que deixaram mais de 300 mortos."A guarda presidencial é uma ala separada do Exército, totalmente leal a Mubarak, e não vai tolerar protestos", disse o engenheiro Khaled, no meio da praça. "Se eles ficarem do lado do presidente, haverá um banho de sangue, porque não vejo ninguém disposto a recuar." Mesmo entre os menos exaltados, havia a clara determinação de continuar o movimento que encurralou o ditador. "Trinta anos no poder já é tempo demais??, dizia a dona de casa Minal, vestida de preto da cabeça aos pés. "Mubarak já morreu para nós, mas insiste em deixar o seu fantasma aqui.??
Papel do Exército Pouco antes do pronunciamento de Mubarak, o Exército egípcio anunciara na TV estatal que tomaria medidas para evitar o caos no país.
O porta-voz do conselho supremo das Forças Armadas, liderado pelo ministro da Defesa, Hussein Tantawi, leu na TV uma declaração em que se dizia que o Exército daria o seu apoio às "legítimas demandas do povo".
A declaração e o fato de que nem Mubarak nem Suleiman participaram da reunião do conselho estimularam, durante todo o dia, rumores de que haveria golpe militar.
Na praça Tahrir, o general Hassan al Roueini, comandante militar da capital egípcia, afirmou aos manifestantes que os pedidos deles "seriam atendidos" ontem.
Participantes do protesto carregaram Roueini nos ombros pela praça, aos gritos de "Exército e povo unidos".
Ao longo do dia, o governo procurou desmentir os boatos de que Mubarak anunciaria no discurso a saída do cargo. Ao mesmo tempo, os próprios ministros emitiam informações desencontradas.
Em entrevista à rede britânica BBC, o premiê Ahmed Shafiq afirmou que o ditador egípcio poderia deixar o cargo. Depois, porém, ele mesmo declarou que tudo estava nas mãos de Mubarak e nenhuma decisão fora tomada.
O ministro da Informação, Anas el Fiqqi, também disse à TV egípcia que não havia planos de renúncia, o que depois viria a se confirmar. Cenário incerto Nos últimos dois dias, paralisações irromperam por todo o Egito, reverberando os protestos da praça Tahrir em um cenário de crise econômica, com inflação, desemprego e baixos salários.
Após o anúncio de que Mubarak fica, é incerto o que acontecerá. Há o temor de que as greves se estendam.
Ontem, promotores do Egito acusaram de enriquecimento ilícito e mau uso de verba pública três ex-ministros de Mubarak. Os três deixaram seus cargos na primeira semana de rebelião. No esperado pronunciamento de ontem, o ditador egípcio, Hosni Mubarak, rejeitou a influência de outros países em acontecimentos políticos em seu país, e prometeu fazer uma transição democrática até setembro deste ano. Parte de seus poderes foram passados para o vice-presidente Omar Suleiman, mas Mubarak permanece no cargo até as novas eleições.
"Não vou deixar-me influenciar por demandas ou ingerências de outros países", disse. "Começamos um diálogo nacional construtivo, e isto resultou em harmonia para que consigamos avançar a um cronograma e para que implementemos uma transição democrática até setembro."
Mais cedo, vários funcionários do alto escalão no Egito afirmaram à imprensa que Mubarak, no poder há 30 anos, deve atender nas próximas horas "às exigências" dos manifestantes da oposição, que querem sua renúncia imediata. Os rumores deram a entender que ele deixaria o cargo, o que não aconteceu.
Mubarak resiste há 17 dias aos protestos que reúnem milhares de egípcios nas ruas de Cairo e de outras cidades, inspirados na revolta popular que derrubou o ditador da Tunísia no mês passado.
Manifestantes
No momento em que o ditador Hosni Mubarak deixou claro que não pretendia renunciar à Presidência, um grito coletivo de espanto e desapontamento ecoou na praça Tahrir, epicentro dos protestos contra o regime. O barulho foi tamanho que pôde ser ouvido um par de quilômetros em torno da praça totalmente lotada. Alguns, mais idosos, sofreram desmaios e tiveram que ser atendidos em improvisados postos médicos. Os jovens, responsáveis por deflagrar a revolta, não escondiam a raiva, prometendo uma escalada nos protestos."Mubarak despreza o povo e não nos deixa nenhuma alternativa a não ser partir para o confronto aberto", gritava o estudante Mohamad, 21 anos. Ao lado dele, dezenas de outros jovens prometiam marchar rumo ao palácio presidencial, a cerca de 15 quilômetros da praça Tahrir. A intenção, disseram, é transferir os protestos a partir de hoje para a porta do ditador e não arredar pé até que ele deixe o palácio. Dispostos a manter as manifestações, muitos dos participantes esperam agora o pior. "Teremos dias muito violentos pela frente, não tenho dúvidas", previu o empresário Mahmoud, que deixava a praça cabisbaixo após o discurso do ditador. Para ele, a transferência de alguns poderes ao vice-presidente Suleiman significa o endurecimento do regime. Há dois dias, Suleiman fez uma ameaça velada aos manifestantes, alertando que a alternativa ao diálogo era um "golpe". Nas horas que antecederam o discurso de Mubarak, surgiram novos indícios de que o regime estava perdendo a paciência, entre eles uma declaração do chanceler, Ahmed Aboul Gheit, de que o Exército interviria caso os protestos nas ruas fossem mantidos. Por enquanto, os militares que cercam a praça têm manifestado comedimento, o que conquistou a simpatia dos manifestantes. Dezenas de tanques estão espalhados pela cidade, sobretudo em locais estratégicos. O temor agora é que a transferência dos protestos para o palácio presidencial leve a uma repetição dos confrontos violentos registrados no início da revolta, que deixaram mais de 300 mortos."A guarda presidencial é uma ala separada do Exército, totalmente leal a Mubarak, e não vai tolerar protestos", disse o engenheiro Khaled, no meio da praça. "Se eles ficarem do lado do presidente, haverá um banho de sangue, porque não vejo ninguém disposto a recuar." Mesmo entre os menos exaltados, havia a clara determinação de continuar o movimento que encurralou o ditador. "Trinta anos no poder já é tempo demais??, dizia a dona de casa Minal, vestida de preto da cabeça aos pés. "Mubarak já morreu para nós, mas insiste em deixar o seu fantasma aqui.??
Papel do Exército Pouco antes do pronunciamento de Mubarak, o Exército egípcio anunciara na TV estatal que tomaria medidas para evitar o caos no país.
O porta-voz do conselho supremo das Forças Armadas, liderado pelo ministro da Defesa, Hussein Tantawi, leu na TV uma declaração em que se dizia que o Exército daria o seu apoio às "legítimas demandas do povo".
A declaração e o fato de que nem Mubarak nem Suleiman participaram da reunião do conselho estimularam, durante todo o dia, rumores de que haveria golpe militar.
Na praça Tahrir, o general Hassan al Roueini, comandante militar da capital egípcia, afirmou aos manifestantes que os pedidos deles "seriam atendidos" ontem.
Participantes do protesto carregaram Roueini nos ombros pela praça, aos gritos de "Exército e povo unidos".
Ao longo do dia, o governo procurou desmentir os boatos de que Mubarak anunciaria no discurso a saída do cargo. Ao mesmo tempo, os próprios ministros emitiam informações desencontradas.
Em entrevista à rede britânica BBC, o premiê Ahmed Shafiq afirmou que o ditador egípcio poderia deixar o cargo. Depois, porém, ele mesmo declarou que tudo estava nas mãos de Mubarak e nenhuma decisão fora tomada.
O ministro da Informação, Anas el Fiqqi, também disse à TV egípcia que não havia planos de renúncia, o que depois viria a se confirmar. Cenário incerto Nos últimos dois dias, paralisações irromperam por todo o Egito, reverberando os protestos da praça Tahrir em um cenário de crise econômica, com inflação, desemprego e baixos salários.
Após o anúncio de que Mubarak fica, é incerto o que acontecerá. Há o temor de que as greves se estendam.
Ontem, promotores do Egito acusaram de enriquecimento ilícito e mau uso de verba pública três ex-ministros de Mubarak. Os três deixaram seus cargos na primeira semana de rebelião. No esperado pronunciamento de ontem, o ditador egípcio, Hosni Mubarak, rejeitou a influência de outros países em acontecimentos políticos em seu país, e prometeu fazer uma transição democrática até setembro deste ano. Parte de seus poderes foram passados para o vice-presidente Omar Suleiman, mas Mubarak permanece no cargo até as novas eleições.
"Não vou deixar-me influenciar por demandas ou ingerências de outros países", disse. "Começamos um diálogo nacional construtivo, e isto resultou em harmonia para que consigamos avançar a um cronograma e para que implementemos uma transição democrática até setembro."
Mais cedo, vários funcionários do alto escalão no Egito afirmaram à imprensa que Mubarak, no poder há 30 anos, deve atender nas próximas horas "às exigências" dos manifestantes da oposição, que querem sua renúncia imediata. Os rumores deram a entender que ele deixaria o cargo, o que não aconteceu.
Mubarak resiste há 17 dias aos protestos que reúnem milhares de egípcios nas ruas de Cairo e de outras cidades, inspirados na revolta popular que derrubou o ditador da Tunísia no mês passado.