Articulistas

Fadiga de material...

Antonio Delfim Netto
| Tempo de leitura: 3 min
Na manhã de 31 de janeiro, o melhor espaço do jornal , do qual participo todas as segundas-feiras na Rede Bandeirantes, foi tomado pelo tema atualíssimo do domínio feminino nos altos escalões do governo brasileiro, pela primeira vez  presidido por uma mulher, Dilma Rousseff. A provocação nasceu de um dos cinco marmanjos do programa, José Paulo de Andrade (os outros quatro são eu mesmo mais os jornalistas Salomão Esper, Joelmir Betting e Rafael Colombo) desafiando: “Contando a presidente, são dez mulheres chefiando a República em postos tradicionalmente ocupados por homens: será fadiga do material masculino?” Em parte pode ser mesmo esse problema de “fadiga de material”, mas a causa principal do fenômeno é que a mulher está competindo em todos os níveis de atividade que antes eram exclusividade masculina. Nos últimos anos essa realidade foi se consolidando: a presença da mulher tem crescido nos negócios, na administração pública em razão da melhor educação e da competência que elas puderam mostrar disputando com os homens. Estamos tendo essa maior visibilidade agora no setor público, mas no setor privado é uma coisa mais antiga. A ocupação de cargos de nível superior pelas mulheres vem se dando num ritmo superior à dos candidatos masculinos. O fato que a ascenção das mulheres aos postos de mando nas empresas tem sido mais rápida do que a dos homens corresponde, na realidade, a uma nova construção do mundo. Não é de hoje que a mulher vem encontrando mecanismos de se libertar daquela divisão do trabalho que os homens tinham imposto secularmente: plantar, colher, cozinhar e procriar. Ela procurou outras formas de viver, o que é muito saudável para a humanidade, embora muitas pessoas não aceitem bem essa nova realidade. Entre nós, por exemplo, vejo ainda muita manifestação preconceituosa a propósito da “posição de mando” das mulheres, a começar pela presidente. Transcorreu apenas um mês do governo e já um tipo de “perdigueiros” começa a cobrar soluções que não souberam produzir quando estiveram no comando por quase uma década, apontando “falhas” que não foram reparadas no governo Lula e que no seu entender já teriam que ser “corrigidas” pela sucessora... O alvo seguinte tem sido a ministra do Planejamento e Gestão, sobre quem se diz “não estar preparada para as funções”, quando se trata de pessoa qualificada que demonstrou alta competência em todos os cargos que exerceu. Alguns oposicionistas adotaram a tática que consiste em desqualificar a Presidente e as ministras porque “não agem com a racionalidade que delas se esperava”. Ora, a “guerra” ainda nem  começou... O que se pode dizer da presidente Dilma, a quem “acusam” de ser tecnocrata, quando ela é mesmo uma tecnocrata, com sensibilidade social? Ela demonstrou racionalidade na forma como reagiu à discussão do novo salário-mínimo, com equilíbrio e calma, desmontando a idéia de atrelar a decisão sobre o salário ao problema da tabela do Imposto de Renda. Aumentar o salário-mínimo da forma como pretendia a ala mais duvidosa do sindicalismo nacional seria aplicar um choque negativo nas expectativas da inflação, o que eliminaria rapidamente o efeito que se pretendia de melhorar o poder de compra do trabalhador. A presidente escolheu o melhor caminho, ao prestigiar o programa Bolsa Família, que é muito mais eficiente para reduzir a pobreza e prepara lentamente seus recipientes a encontrarem  mecanismos próprios de ascenção social. 
O autor, Antonio Delfim Netto, é professor emérito da FEA-USP, ex-ministro da Fazenda, da Agricultura e do Planejamento - contatodelfimnetto@terra.com.br

Comentários

Comentários