Nos países desenvolvidos, na Europa, morar fora das metrópoles é sinônimo de qualidade de vida. Aqui, sair ou afastar-se do perímetro urbano é deparar-se com o caos: ruas sem asfalto, esburacadas, casebres, ruínas, favelas e, o que é pior, o rosto dos moradores estampando a miséria, o abandono e a dor a que estão condenados. Não me refiro a Bauru, mas a todas as cidades. São todas iguais. Os acidentes naturais exibidos pela mídia transformam a desgraça alheia num espetáculo mostrando as chuvas, os alagamentos, desli-zamentos e soterramentos, escancarando os efeitos sem analisar as causas.É preciso analisar as causas e seus culpados. O principal deles é o poder público omisso na realização da urgente reforma urbana, na busca de soluções para as vastas extensões de terras dominadas pelo latifúndio improdutivo, na especulação imobiliária nos centros urbanos, na falta de plano diretor e de planejamento urbano. As cidades se estruturam em função do transporte individual que exige grandes investimentos em obras de vias públicas: pontes, túneis, viadutos, soterram-se córregos e mananciais, alterando o equilíbrio dos territórios urbanizados. A impermeabilização do solo para o automóvel andar mais rápido. Tudo é asfaltado e, com as chuvas, a velocidade das águas aumenta rapidamente e em grandes volumes. A população urbana também é pressionada a impermeabilizar os arredores de suas casas sacrificando jardins, pomares, hortas e áreas verdes. A especulação imobiliária, ávida de lucro, empurra os pobres para as ladeiras, margens de rios e favelas. Para fugir da miséria e do atraso, o brasileiro migra do campo para as cidades na esperança de encontrar vida melhor. Aí ocorre o que todos conhecemos: oriundas do campo, as famílias se instalam como podem, erguem seus barracos nas periferias contribuindo para o aumento das favelas. A sobrevivência difícil joga as famílias na informalidade do mundo do trabalho e acabam vítimas da contravenção, da criminalidade, do tráfico de drogas e da prostituição. Neste modelo de sociedade, vale dizer, de cidade, o círculo vicioso não terá fim e Bauru não será diferente embora acompanhemos de perto, privilegiadamente, nestes últimos anos e atualmente, o trabalho hercúleo de prefeitos, vereadores e demais autoridades públicas enfrentando demandas gigantescas, quase in-transponíveis. As tragédias ambientais e sociais infelizmente se repetirão enquanto gover-nantes e sociedade organizada não assumirem suas responsabilidades no enfrentamento das suas verdadeiras causas e, finalmente superadas, “projetar uma sociedade economicamente justa, politicamente democrática, socialmente solidária e culturalmente plural, condições básicas para o encontro do homem com a sua humanidade”.
O autor, Isaias Daibem, é professor e ex-vereador
O autor, Isaias Daibem, é professor e ex-vereador