Regional

Goiabada Cascão de D. Córregos é também apreciada no Exterior

Rita de Cássia Cornélio
| Tempo de leitura: 8 min
O sítio Santa Teresa, em Dois Córregos (73 quilômetros de Bauru), é um ponto turístico dos aficionados em doces. Já foi visitado por gente famosa, dentre eles o cantor sertanejo Daniel, que teve direito a foto com as doceiras. O retrato ainda está pendurado na sala da casa. Emissoras de televisão não se cansam de garantir boas pautas no local que se tornou referência quando o assunto é goiabada cascão. A casa é modesta e foi construída no topo de um morro, nem alicerce tem, foi levantada sobre um pedra. Mas é no quintal, em meio a inúmeras árvores que se tem uma visão extraordinária do rio Tietê. Visto de longe lembra um quadro pendurado nos fundos da residência. Poucos cômodos divididos em quartos, sala, banheiros, um imóvel comum não fosse o cheiro do doce. Na chegada, enquanto a goiaba é mexida no fogão de lenha é possível sentir um ?perfume? inigualável da fruta que fica cerca de quatro horas no fogo para se transformar no doce. O sucesso da goiabada cascão de Dois Córregos está guardado a sete chaves, comenta Maria de Lourdes de Paulo que com seus 83 anos faz questão de dar o ponto no doce. "Não tem como explicar. É prática mesmo. Se o doce não ficar no ponto certo, ele fica mole demais ou duro o tanto que perde o sabor." Descendente de escravos, ela e a irmão, Geralda de Paulo, 76 anos, são as doceiras do sítio Santa Teresa. Na redondeza não há quem não as conheça ou não tenha pelo menos ouvido falar da goiabada cascão fabricada há mais de 50 anos no mesmo local. Para chegar lá é só perguntar para qualquer morador de Dois Córregos que ele logo indica o endereço. O trajeto, meio complicado, por estrada de terra, apresenta algumas placas com setas. "Antigamente a gente vendia de porta em porta em Dois Córregos. Na época que ainda estávamos pagando as terras. Atualmente, levo o doce para alguns clientes mais antigos, mas a maioria da clientela vem buscar aqui", comenta Geralda a porta voz da família.É ela que ousa na hora de mostrar, vender e falar da goiabada. "Participamos de várias feiras em São Paulo e na região. Aos poucos a goiabada cascão está se tornando conhecida. Somos convidadas e não rejeitamos. A confecção do doce sustentou toda a família. Éramos em 35 pessoas. Hoje, as crianças cresceram e alguns dos meus irmãos morreram. Somos em 12 pessoas." As irmãs comentam que nem todos os integrantes da família levam jeito para passar horas mexendo doce, mas na hora do aperto não tem conversa, a família inteira vai para a cozinha. "Minha cunhada e meus sobrinhos sabem fazer. Quando estamos em feiras e precisamos fabricar mais, como já aconteceu, eles entram na correria." As doceiras comemoram. "Foi a goiabada que sustentou a família toda durante todos esses anos. Estamos vencendo a barreira e conseguindo passar o prazer de fazer doces para os nossos descendentes. Da última vez, estávamos em São Paulo e precisamos de mais doces. Eles fizeram e mandaram para nós. Tudo foi vendido rapidamente."
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Romeu e Julieta tupiniquim
Willian Shakespeare, com toda certeza, não imaginou que o título da tragédia escrita por ele um dia se tornaria uma iguaria tão conhecida como a história que teve cenário na cidade de Verona. A combinação de goiabada cascão com queijo branco batizada de "Romeu e Julieta" é uma sobremesa brasileira que ganhou o mundo. Já o doce feito a partir da goiaba é uma guloseima caipira que surgiu no Brasil graças aos colonos portugueses. Um dia, eles usaram a fruta para fazer marmelada. O resultado foi tão bom que o doce ganhou status e espaço em livro de receitas. Em Dois Córregos, a fabricação de goiabada das irmãs Maria de Lourdes e Geralda de Paulo também aderiu à combinação do queijo com o doce. Para não decepcionar os clientes que compravam a guloseima e não tinham um queijo branco para acompanhar, elas passaram a fabricar queijo com o leite das seis vacas que mantém no sítio."Todos os dias meu irmão tira uma média de 40 litros de leite. É com ele que fazemos o queijo que acompanha a goiabada, tudo muito caseiro." As irmãs não param por aí, aproveitam tudo o que a terra e os animais podem dar. " Além do queijo fazemos doce de leite, paçoquinha e doce de banana. Os motoqueiros que fazem trilha vêem aqui para tomar café da manhã em alguns domingos. Nessa oportunidade, fazemos bolos de cerveja e pão feito em casa."
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Sucesso viaja o País
Foi através da telinha que a goiabada cascão das irmãs Geralda e Maria de Lourdes ganhou o Estado de São Paulo, comenta a mais nova. "Um repórter da região resolveu filmar a gente e depois disso outras emissoras vieram também." As visitas da imprensa no sítio é sempre bem-vinda, afinal, depois delas as irmãs contabilizam lucros, pois a divulgação faz com que a venda aumente. Mas não é só a venda dos doces que faz com que a família receba bem a equipe de reportagem. As experiências anteriores foram muito satisfatórias. Dona Geralda e Maria de Lourdes guardam com carinho no livro de memórias, o tempo que ficaram hospedadas em um hotel em Barra Bonita, enquanto uma rede de televisão dava outro layout para o sítio. "Quando chegamos aqui, eles tinham plantado bananeiras na frente da casa, arrumado o jardim e implantado um contêiner. Dentro dele tinha uma geladeira, um freezer, um micro-ondas. Do lado de fora, havia lenha, uma minicaldeira e a entrada toda forrada com pedra para facilitar o acesso das pessoas em dia de chuva", comenta. O fato aconteceu há três anos, mas parece que foi ontem para as irmãs. "Depois disso fomos convidadas a participar de eventos e mais pessoas conheceram o nosso doce", conta orgulhosa.
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Café no bule
O café feito no fogão de lenha das irmãs Maria de Lourdes e Geraldo é famoso. Ninguém sai do sítio Santa Teresa sem experimentar um gole. É plantado, colhido, moído e feito no mesmo local. O sabor somado ao aroma torna o simples café uma bebida dos deuses e faz com que a gente nem repare que cada xícara é de um modelo, dada a simplicidade. Se o visitante tiver um ?bocadinho? de sorte, vai tomar o café e saborear uma boa fatia de queijo branco. Mas se o tempo permitir, as irmãs vão para o fogão e preparam uma boa comida caipira, um franguinho no ponto, o detalhe é que elas almoçam por volta das 11h, como antigamente. Com orgulho, Geralda conta que não raras vezes, estrangeiros que visitam Brotas vão conhecer seu sítio e suas iguarias. "Eles avisam e chegam para comer. Recentemente recebemos pessoal da Itália, Austrália e dos Estados Unidos." Maria de Lourdes acha graça dos estrangeiros e comenta. "Eles olham tudo, dão muita risada e tentam falar com a gente ao mesmo tempo que fotografam e filmam. Tentam se fazer entender, mas não conseguem. Eles falam para outros sobre a goiabada e cada vez recebemos mais visitantes", comemora.
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Adoçando a boca na roça
Há 60 anos que a família Paulo mora no mesmo sítio, o Santa Teresa. Mudaram-se para lá para trabalhar no café. O trabalho árduo exigia uma alimentação farta e um doce fazia toda a diferença no café da tarde. Para isso, todos os dias, dona Geralda que à época era uma adolescente começou a levar um pedaço de goiabada para adoçar a boca por volta das 13h. O doce era feito em casa pela mãe que aproveitava as frutas que tinha na propriedade para fazer a alegria da filha. A receita ela é que tinha e passou para as filhas. "Eu levava junto com a marmita. Todo mundo queria um pedaço e sobrava muito pouco para mim. Minha mãe começou a fazer uma quantia a mais para eu vender aos pedaços. Em pouco tempo, o pacote da goiabada pesava mais que a marmita." Um dia, o patrão da família chegou com a notícia de que iria vender a fazenda. A informação era sinal de que os 35 integrantes teriam que sair dali. "Não sei porque ele resolveu picar a fazenda e vendeu 10 alqueires e 85 metros para nós. Tivemos três anos para pagar o correspondente a R$ 620,00. Tivemos que trabalhar muito, quitamos até o último centavo." O doce feito a partir da goiaba foi a saída mais rápida encontrada pela família para garantir o leite das crianças, comenta Geralda de Paulo. "Eu e a Maria de Lourdes não casamos, mas cuidamos de todos os sobrinhos. O dinheiro do doce era para comprar o leite das crianças. Plantamos e colhemos várias culturas para conseguir pagar o sítio."
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Alumínio ainda é limpo com areia
Tudo no sítio Santa Teresa é feito como antigamente. As lições dos pais, embora eles não estejam presentes há muito tempo, estão frescas na mente das irmãs que conduzem a família. Na simplicidade de quem teve a avó como ama dos barões do café, Geralda e Maria de Lourdes mantêm a casa. Os móveis são de madeira embora careçam de uns retoques, as máquinas de costura ainda são de pedais, mas todas servem para remendos e consertos de roupas. Os guarda-comidas e a cristaleira estão ocupados com louças e copos. Mas é nas prateleiras da cozinha, onde são feitos os doces, que se tem uma surpresa. Mais de 100 peças em alumínio brilham a ponto de poder se ver nelas. Maria de Lourdes, apesar dos seus mais de 80 anos, faz questão de frisar que aprendeu com a mãe a ?arte? de areiar panelas com areia mesmo. "Na época minha mãe fazia pão e usava bacia de folha de zinco para deixá-los crescer. Após o uso, as bacias tinham que ser lavadas. O serviço era dividido entre eu e uma irmã que já morreu. Como ela não sabia fazer bem e eu não queria que minha mãe ficasse brava, mesmo quando era a vez dela, eu ia, escondido, ajudar minha irmã. A bacia ficava tão brilhante que podia ser usada como espelho."

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