Há alguns dias estava voltando do trabalho quando vi um cachorro andando pelo acostamento da rodovia, estava muito quente, ele andava rapidamente, com a língua de fora na tentativa de aliviar o calor. Estávamos em pista diferentes e achei que não poderia fazer nada por ele naquele momento. Então rezei a Deus para que logo ele pudesse encontrar uma boa sombra e água. Achei que não poderia encontrar nada mais triste para ver naquela estrada. Mas, talvez se tivesse parado para tentar socorrê-lo não teria visto algo tão assustador e não teria vivido momentos de tanta angustia, nem teria visto nos olhos de uma criatura de Deus tanto desespero e medo. Chegando a Bauru percebi que havia alguma coisa na pista, pensei que poderia ou deveria ser um pedaço de papelão, rezei que fosse, mas os carros estavam desviando dele e era pouco provável que o fosse. Então forcei meu olhar naquela direção não acreditando no que meus olhos viam. O asfalto escaldante queimava e desidratava. Um cachorro deitado no meio da pista, Rodovia Marechal Rondon, sentido Capital/Interior, próximo ao trevo da "Eni", o trânsito era intenso. Todos passavam e olhavam aquela cena desesperadora. Ele ainda estava vivo, com a cabeça levantada, olhando na direção dos carros, tentando se arrastar para o meio da pista, num ato desesperado de "pedir socorro", pois quem o atropelou não o fez. Não, ele estava desorientado pela dor dos ferimentos. Eu realmente não acreditava em meus olhos. Passei por ele e buzinei, queria acreditar que ele fosse "um folgado" que deitou ali ignorando o perigo e que fugiria desta forma me poupando "da responsabilidade" com aquele animal, como fiz com o primeiro que vi. Mas não foi assim, ele ficou ali parado. Esperei que alguém parasse para socorrê-lo, e mais uma vez na tentativa de "me poupar" do incômodo de parar e me sujeitar a correr pela rodovia, e se ele fugisse ou me mordesse? Como levá-lo até o carro? E muitos outros motivos passaram em minha mente naquela fração de segundos, até ter coragem de parar e sair correndo, fazendo sinal para que os carros desviassem dele, todos me olhavam com curiosidade, achando que eu o tivesse atropelado. Eu só estava fazendo o que todos deveriam fazer quando atropelam um animal na estrada ou na rua, recolhendo, socorrendo, pois acidentes acontecem. Dois rapazes que passavam em uma moto atenderam meus apelos para ajudar a socorrê-lo. Ele tentou se mover quando chegamos perto, mas seu estado era muito grave, as dores, fraturas e o sangue que saia de seu nariz. Então o peguei pelo corpo, o rapaz segurava sua cabeça, ele só conseguia dar alguns gemidos e sua respiração era muito ofegante. Abrir lugar em meu carro para colocá-lo, agradeci os rapazes e segui para onde tinha certeza que conseguiria ajuda. Cheguei à Clínica Dinda, expliquei o acontecido e logo ele estava deitado em uma mesa de atendimento, sendo atendido pela dra. Juliana, com todos os procedimentos de emergência para aquela situação tão desesperadora. Neste momento, podíamos ver a gratidão em seus olhos, em seu rabo que não parava de bater todas as vezes que falávamos com ele ou fazíamos um carinho para que sentisse mais segurança. A dra. Juliana preparou uma vasilha com água e gelo, toalhas molhadas, para que a limpeza fosse ajudando a diminuir a temperatura de seu corpo, que era de 42 graus naquele momento. Fiquei observando a delicadeza daquela moça, sua segurança e amor naquela situação tão difícil. Senti confiança e apoio naquele momento. Por quase duas horas tentamos estabilizar nosso amigo, mas o prognóstico não era bom. Ele agora estava relaxado, mas o sangue insistindo em escorrer pelo nariz, havia uma hemorragia pulmonar e abdominal, fraturas em várias partes de suas pernas e patas e seu estado piorava a cada minuto. E o sentimento de impotência diante do quadro foi aumentando. Os próximos procedimentos agora exigiam que eu tomasse uma decisão muito difícil, prolongar o sofrimento com cirurgia e tratamentos, sem garantia de sucesso ou levá-lo a um final sem dor e sofrimento? Esta decisão foi a parte mais difícil e dolorosa de todos os momentos. Ficamos por um longo tempo analisando as possibilidades e riscos. Então ele descansou de todos os sofrimentos que estava passando. Seu corpo mostrava todo o descaso que viveu desde que nasceu, com carrapatos, muita sujeira e magreza. Ele, como o primeiro que encontrei, abandonados à própria sorte, sujeitos a passar fome, frio, ser mal tratado e morrer atropelado nas ruas e estradas. E o mais triste, muitas pessoas passaram por ele antes de mim e o deixaram. Era apenas um cachorro! Mas que sente frio, fome e tem dor com qualquer ser vivo. O que falta no Ser Humano para deixar que isto aconteça? O que me dá esperança em meio a tudo isso é a certeza que não faltam para alguns o amor e a compaixão. Quero então agradecer a Deus por ter na Clínica Dinda pessoas como a dra. Juliana e a dra. Dinda neste momento, como sempre pude contar como apoio das doutoras Valeria e Carolina, dr. Gabriel e todos os funcionários, a prova de amor e dedicação aos animais, respeito aos proprietários em suas dúvidas, medos e angústias.
Rosangela Munhoz - pedagoga e proprietária do Canil Euro Brasil
Rosangela Munhoz - pedagoga e proprietária do Canil Euro Brasil