Na opinião de diretores e secretários de saúde de cinco municípios da região de Bauru consultados pelo Jornal da Cidade, o fim da ?ambulancioterapia? - expressão utilizada para definir a movimentação de pacientes por longos percursos, entre diferentes regiões do Estado - está longe de se tornar realidade. A proposta foi defendida ontem pela Secretaria de Estado da Saúde em reunião na capital.
Entre as principais sugestões apresentadas pelas prefeituras para que seus pacientes deixem de se deslocar por longos trechos em busca de atendimentos de média e alta complexidade, estão o investimento em microrregiões, com o fortalecimento desses serviços em cidades-polos; e a reformulação do atual sistema de saúde, com a oferta de atendimento especializado por parte da rede básica de cada município.
As prefeituras admitem que os serviços especializados são disponibilizados pelo Estado, mas de uma forma centralizada, que privilegia os grandes centros. Além disso, as vagas disponíveis são insuficientes, o que acaba sendo prejudicial para quem precisa do atendimento diferenciado - mas tem que buscá-lo em outra cidade - e para quem absorve essa demanda reprimida, deixando de atender seus próprios pacientes.
]Agudos (13 quilômetros de Bauru), que possui sete ambulâncias, três veículos Gol, uma perua Kombi e um micro-ônibus, realiza, em média, 453 viagens por mês para levar cerca de 1.900 pacientes até cidades como São Paulo, Jaú, Botucatu, Campinas, Ribeirão Preto, Pompeia, Assis, Avaré, Bragança Paulista, Sorocaba e Presidente Prudente, além de Bauru, que absorve a grande maioria dessas pessoas.
De acordo com o secretário de Saúde de Agudos, Altair Francisco Silva, em razão do município não contar com serviços de alta complexidade, a prefeitura tem que gastar aproximadamente R$ 45 mil por mês com transporte para garantir atendimento especializado aos seus pacientes. Entre os serviços mais procurados nos grandes centros estão os de oftalmologia, no caso de transplante de córnea, cardiologia, e atendimento para pacientes com transplante de rim e fígado e renais crônicos.
Na opinião do secretário, acabar com a "ambulancioterapia" é uma tarefa impossível nos casos em que o paciente necessita de uma estrutura extremamente cara e complexa como a AACD, em São Paulo e Osasco, e o Hospital Albert Einstein, também na capital. "Mas amenizaria bastante se o Estado investisse mais recursos em microrregiões, fortalecendo o município-polo, que, em nossa região, é Bauru", diz.
Um dos pontos mais problemáticos, segundo ele, refere-se à insuficiência de leitos de UTIs neonatal e adulto. "Outro ponto importante é que os grandes hospitais se conversem, pois um paciente que é transplantado em São Paulo, por exemplo, deve frequentemente retornar para realização de exames, que poderiam ser feitos em hospitais próximo", sugere.
Nesses casos, Altair propõe que os resultados dos exames sejam enviados pela Internet ou levados pelo próprio paciente no retorno médico.
Perspectiva ruim
Em Piratininga (13 quilômetros de Bauru), a Coordenadoria Municipal de Saúde informa que seis ambulâncias realizam, em média, entre 1.300 e 1.400 viagens por trimestre. Por mês, cerca de 300 pacientes fazem aproximadamente 495 viagens para municípios como Bauru, Botucatu, Jaú, São Paulo, Ribeirão Preto, Marília e Jacareí. A demanda maior de atendimentos é absorvida pelo Ambulatório Médico de Especialidades (AME) e pelo Hospital Estadual (HE), ambos de Bauru.
"O custo com essa prática é realmente bem alto para o município, não só pelo fato do deslocamento, desgaste dos veículos e combustível, mas também o material humano, pois alguns motoristas são designados somente para realizar este tipo de serviço", revela.
De acordo com a pasta de saúde, entre os serviços que precisam ser buscados junto a centros de referência na região estão cirurgias complexas envolvendo várias especialidades, tratamento oncológico e hemodiálises.
Em Pederneiras (26 quilômetros de Bauru), onde 12 ambulâncias levam, em média, 2.300 pacientes por mês para cidades como Bauru, Jaú, Botucatu, Sorocaba, Ribeirão Preto e São Paulo, a prefeitura chega a gastar algo em torno de R$ 20 mil em recursos próprios somente com transporte. "Não está incluso neste valor as despesas com funcionários e manutenção das ambulâncias que, se somarmos junto, ultrapassa R$ 40 mil", aponta a diretora do Departamento de Saúde Pública, Adriana Leandrin.
De acordo com ela, todos os exames, consultas e cirurgias de alta complexidade têm que ser buscados em outras cidades, o que faz com que o fim da "ambulancioterapia" esteja longe de ser uma realidade. "O município, sozinho, jamais teria como atender toda a população, pois não possui recursos suficientes para manter um centro de alta complexidade", avalia. "O Estado também não teria como acabar com a ?ambulancioterapia? pois não consegue criar um centro de atendimento em cada município".
Em Presidente Alves (56 quilômetros de Bauru), cinco ambulâncias, uma van, um carro e dois micro-ônibus são utilizados no transporte de cerca de 900 pacientes por mês, entre primeira consulta e retorno, para as cidades de Bauru, Pirajuí, Jaú, Botucatu, Marília e São Paulo. Em média, segundo a prefeitura, duas viagens são programadas por dia com o micro-ônibus, além das que são realizadas pela ambulância, o que dá uma média de 60 viagens programadas e de 300 viagens de ambulâncias por mês.
Somente com o transporte de pacientes para municípios que possuem serviços de média e alta complexidade, são dispendidos mais de R$ 18 mil por mês, gasto suprido, em 90% dos casos, com recursos próprios.
A prefeitura diz que, sozinha, não teria condições de oferecer atendimento de alta complexidade para a população.
Em Arealva (41 quilômetros de Bauru), a coordenadora municipal da Saúde, Sandra de Fátima Menegueti, conta que em torno de mil pacientes por mês são transportados para consultas e exames especializados na região. Na maioria das vezes, as viagens são feitas para hospitais de referência, que contam com exames específicos como tomografia e ressonância magnética. "O transporte é pago com verba municipal", diz. "Em alguns casos especiais, a prefeitura paga passagem para outras localidades".
Remodelação do sistema
O secretário de Estado da Saúde, Giovanni Guido Cerri, quer que os 17 Departamentos Regionais de Saúde (DRSs) de São Paulo tenham serviços e equipamentos suficientes para atender a população usuária do Sistema Único de Saúde (SUS), evitando que pacientes tenham que viajar pelo Estado para serem atendidos.
A proposta de regionalização da saúde pública foi discutida ontem com secretários municipais de Saúde e representantes de 417 cidades durante a abertura do Seminário sobre Gestão Regional do SUS/SP.
Para que isso ocorra, ele propõe aperfeiçoar a estrutura das regionais, criando a carreira de gestor da saúde e elaborando planos regionais de saúde para definir prioridades e melhorar a integração dos AMEs (Ambulatórios Médicos de Especialidades) com os hospitais de cada região.
Ele defendeu que as ações sejam integradas, com participação ativa dos municípios e diretores regionais de Saúde. "É o sistema que deve dar alternativas de qualidade e próximas da residência dos pacientes", afirmou Cerri.