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Brinquedos assassinos?

Marcelo Gonçalves Rodrigues
| Tempo de leitura: 4 min

É fato e não se pode negar que as brincadeiras estimulam consideravelmente as crianças. Na amarga época da escravidão, as cri-anças negras brincavam com os filhos dos senhores de engenhos, servindo-se como objetos para distraí-los. Um pouco mais adiante, no século XX, as crianças usavam sua criatividade e inventavam brincadeiras e jogos. Elas eram manufatureiras de seus brinquedos, além disso, encontravam para tudo isso um sentido mais importante, ou seja, o lúdico.

Carrinhos de lata. Jogos de botão com tampinhas de garrafas. Bolas de meia. Bonecas de pano, de caroços de manga ou até mesmo com espigas de milho eram engenhocas das férteis ideias infantis. A escassez era amiga da criatividade. Gerava riqueza de sentidos. Somente os pais mais abastados tinham condições de importar bonecas e velocípedes aos seus filhos. E é aí que começou o estado de alerta. O personagem mexicano Chaves, amplamente difundido no Brasil, já evidenciava isso. Para quem não se lembra Chaves sem recursos inventava seus brinquedos com produtos recicláveis, entretanto, o outro famigerado personagem do seriado, o Kiko fazia o contraponto. Provocava e se exibia com seus belos brinquedos industriais. Desestimulava, assim, o menino pobre.

Se cavoucarmos um pouco nossas lembranças, virão à tona as mais diversas propagandas. Por exemplo, quem nunca ouviu "Eu tenho, você não tem" tesourinhas Mickey e Minnie? Inclusive foi retirada do ar, qualquer semelhança com o personagem Kiko é mera coincidência. Há, certamente, uma imensa estimulação negativa no público infantil. E os resultados não são nada amistosos. Primeiro o que testemunhamos são os pais com o sentimento de obrigação em adquirir aos menores o produto. Em seguida o que se descortina nos pequenos são comportamentos antissociais, inferioridade perante os amigos, incentivo à competição e egoísmo do tipo: "É só meu, não empresto; não deixo você brincar".

No comercial, as crianças possuem todos os acessórios e brinquedos, um verdadeiro "Neverland". Só que no mundo real, são vendidos de forma separada. E esquece-se de avisar que as crianças não aceitam isso, querem tudo o que aparece na publicidade. Muitas vezes, desejam ser como os personagens dos brinquedos. É justamente no período em que as crianças começam a experimentar tendências irrealizáveis, desejos impossíveis que os brinquedos e as brincadeiras passam a fazer sentido maior em suas vidas.

Quando o mês de outubro se aproxima, é rotineiro, observarmos em supermercados, brinquedos descaradamente fora dos setores que lhes correspondem. Surpreendentemente aparecem perdidos em corredores que nada tem a ver com ele. A dona de casa que evita passar na parte de brinquedos para não despertar o desejo do filho, é feita de trouxa, pois na área destinada a produtos de limpeza, por exemplo, há brinquedos, propositadamente, espalhados lá. Quanto sadismo mercantil!

Parece mesmo que a infância, fase imprescindível de toda criança, foi desmontada como um brinquedo e jogadas as peças num velho baú nos fundos da casa. Assim como afirma a professora da escola médica de Harvard, Susan Linn, diz ela que é difícil para uma família sozinha proteger seus filhos de uma indústria que gasta US$ 15 bilhões anualmente só para manipulá-los, é uma luta desigual, pois as técnicas primárias que os profissionais de marketing usam para manipular as crianças são: denegrir os adultos e enfraquecer a autoridade dos pais.

Nesse admirável mundo novo é preconizado um estúpido modelo infantil. A ciranda capitalista engendra o público infantil num verdadeiro campo minado com bombardeios publicitários ditando o país das maravilhas. A linguagem é altamente apelativa e sedutora, chega a ser covarde. Os slogans transformam as crianças em cães salivadores e a TV em verdadeiros açougues propagandísticos.

As crianças desde cedo são convocadas a participarem da lógica de mercado. As babás eletrônicas (TVs) tem sido as suas educadoras. À mídia só interessa vendas, a educação fica de lado. Em prol de uma vida agitada e competitiva que tem como meta primeira o sucesso, pais afogados, descuidaram de educar. Nesse mundo, a imagem vale mais que mil palavras. O presentear é mais valorizado que o afeto. O lúdico e a criação são trocados pelo produto pronto (eletrônico). E o pior, a criança é vista como cliente mirim.

Que crianças têm sido construídas nos últimos anos? A chantagista e manipuladora? Talvez. E os resultados já estão aí: vaidade precoce; glamour ao requinte; fase adulta precipitada; erotização acelerada; anorexia e bulimia. Afinal, o que mais é preciso para acabarmos com a infância? Pensemos nisso.


O autor, Marcelo Gonçalves Rodrigues, é estudante de Psicologia na Unesp - Bauru e educador social no Lar Escola Rafael Maurício

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