Cultura

Artigo: Que cisne dança em nós?


| Tempo de leitura: 3 min

Há relação entre arte e vida. Dizem alguns que a arte imita a vida, ou seria a vida que imita a arte? Em ?Cisne Negro?, filme dirigido por Darren Aronofsky, vida e arte estão entrelaçadas na alma da protagonista, magistralmente interpretada por Natalie Portman. Ela já conquistou o Globo de Ouro pelo papel e é indicada ao Oscar.

Filha de Érica (Barbara Hershey), bailarina aposentada, Nina (Portman) faz parte de uma companhia novaiorquina de balé. Sua vida é a dança e seu sonho é ocupar o lugar da primeira bailarina, Beth (Winona Ryder), prestes a ser substituída. Nina consegue o papel principal para uma nova montagem de ?O Lago dos Cisnes?, de Tchaikovsky. A novidade é que o diretor artístico, Thomas (Vicent Cassel), quer uma mesma bailarina interpretando o Cisne Branco e o Cisne Negro. A elegante, contida e dócil Nina parece perfeita para o primeiro, mas sem a têmpera necessária para a versão sombria do segundo. Surpreendente engano. A trama mostra, com requintes simbólicos, a transformação da jovem, obcecada por sustentar o papel e nele atingir a perfeição.

Criada por uma mãe frustrada, enrustida, assustadoramente dedicada e controladora, Nina é infantilizada e submissa, condenada a ser uma "doce menina": assim lhe chama a mãe. A busca de perfeição na dança é o que proporciona frágil coesão à sua persona e será também o fermento da sua transformação. Ela apropria-se, com aparente inocência, de objetos pessoais de Beth (Winona Ryder), a então primeira bailarina. A ação deixa nítida a tênue fronteira entre admiração e inveja, entre aspectos luminosos e sombrios da personagem. Suas posteriores alucinações com a antiga musa revelam a intensidade passional da sua admiração.

O filme aborda, em vários planos, questões de luz e sombra. Mistura vivências objetivas e subjetivas, realidade e fantasia. Mostra os movimentos de uma jovem fragmentada entre o que aparenta ser e aspectos ignorados de si, mas que vazam, sangram e buscam passagem por seus poros. A pele é nosso maior órgão, fronteira e contato com mundo, ponte para o externo. Nela podem aparecer segredos viscerais, irritações abafadas, sinais de transformações internas. A pele de Nina dialoga com o público.

Quando uma nova bailarina, Lily (Mila Kunis), integra-se à companhia, a turbulência psicológica de Nina vai roubando a cena. Significativa é a primeira vez em que ela vê a futura rival. Estão no metrô e pelo ângulo da filmagem, parecem a mesma pessoa. É como se Nina enxergasse na outra um reflexo de si. Lily representa aquilo que lhe falta: é solta, irreverente, sensual, intensa, misteriosa. Ela incorpora o lado não vivido e ameaçador da protagonista. Fosse uma apresentação usual de ?O Lago dos Cisnes?, Nina interpretaria o cisne branco e Lily o negro. A questão é como integrar ambos.

É primorosa a forma como Darren Aronofsky conduz a ação. Simbolismo e ambiguidade encontram-se nos detalhes. Imaginação e realidade não obedecem fronteiras. O corpo de Nina é onde dançam com intensidade as forças contrárias de sua alma. Essa luta entre luzes e sombras espelha-se na batalha entre o cisne branco e o negro. Tal como na arte, na vida de Nina não há lugar para os dois.


Cristina Rodrigues Franciscato

Comentários

Comentários