Polícia

Achado QG dos donos do túnel que levava à Protege

Por Ieda Rodrigues | com Vitor Oshiro
| Tempo de leitura: 6 min

Monitorados por policiais civis, dois funcionários da Protege - empresa alvo dos bandidos - entram no túnel descoberto anteontem na quadra 2 da avenida Nações Unidas, em Bauru. Ansiosos, autoridades e populares aguardam a possível descoberta do ponto de origem da escavação criminosa. Minutos se passam... e nada. Eles carregam uma fita para tentar medir a extensão da obra. Mais minutos se vão e ninguém reaparece. Somente a fita vai sendo levada por metros e metros.

Enquanto isso, a duas quadras dali, em uma residência localizada na rua Doutor Enéas de Carvalho Aguiar, 1-75, um barulho é ouvido. Ao abrir o espesso e fechado portão, os homens ressurgem cheios de lama. Pronto. Estava descoberto o "Quartel-General" (QG) dos bandidos, que obviamente, estava abandonado.

No local, a engenhosidade, que já era impressionante, ganhou ares inimagináveis. Para não levantar quaisquer suspeitas, os criminosos transformaram o antigo imóvel, que era bastante visível ao público, em um sobrado com altos muros e totalmente fechado.

Por fora, o imóvel parecia uma construção comum, mas na garagem já era possível entender o objetivo da ocupação. Vários fios "fugiam" da parede em direção a um buraco no teto.

Ao entrar no local, a noção era de um imóvel em construção. A iluminação precária dos cômodos contrastava com a moderna "tecnologia" empregada no túnel criminoso. Várias luvas e botas estavam jogadas pelo chão.

Porém, o que mais impressionava era a quantidade de sacos de terra - provavelmente retirada da escavação - guardados na propriedade. Um grande corredor e dois cômodos estavam totalmente lotados por essas dezenas de sacos.

No último cômodo estava a tão procurada entrada do túnel. Escorado por madeiras, o acesso estava a cerca de 4 metros de altura do solo. O túnel tinha 60 centímetros de diâmetro e, por meio de impressionantes cerca de 150 metros, ligava o QG dos bandidos à quadra 2 da Nações Unidas, onde os criminosos tinham livre acesso à galeria pluvial.

A quantidade de materiais e ferramentas utilizadas era imensa. Martelos, brocas, chaves de fenda de todos os tamanhos, tubos de ventilação, metros de fiação e cordas, lâmpadas, madeiras espessas e até mesmo dormentes foram encontrados. Havia ainda uma barra de ferro idêntica à utilizada para lacrar a "boca" dos dois túneis que estavam sob o canteiro central da avenida Nações Unidas.

O imóvel ainda tinha um andar superior com a mesma estrutura. Entretanto, a área foi conservada intacta e não havia quaisquer ferramentas ou materiais de construção.

A Polícia Científica esteve no local para fazer a perícia. Várias ferramentas foram apreendidas. Entre elas, havia uma máscara de solda e uma caçamba igual à localizada há 16 dias na descoberta do primeiro túnel.


Localização


Logo pela manhã, policiais e funcionários da prefeitura começaram os trabalhos. Em frente ao local onde foi descoberto o túnel anteontem, foi aberto um buraco na calçada para verificar a direção da escavação. Enquanto isso, policiais vasculhavam as residências nas proximidades em busca de pistas. Sem saber que o túnel rumava para a direita, a rua Bernardino Coelho era o principal alvo das investigações.

Por toda a extensão, os policiais solicitaram aos moradores das residências autorizações para verificar os quintais dos imóveis. Foram vistoriadas cerca de seis casas na localidade.

Entretanto, todos os imóveis daquela quadra deixaram de ser considerados suspeitos quando a direção do túnel foi revelada. Até mesmo a residência que, por apresentar a inscrição "PCC" na parede, foi amplamente investigada anteontem, saiu da pauta de averiguações.

Com funcionários da Protege por dentro do túnel, os policiais subiram a rua Timbiras e continuaram se movimentando. No caminho, uma tapeçaria abandonada também virou cenário suspeito, mas logo foi descartada. Findada a rua, ao virar à direita, escutou-se o barulho de alguém batendo em um portão. Eram os funcionários da Protege que entraram no túnel. Eles conseguiram chegar exatamente na origem da obra: uma casa localizada na quadra 1 da rua Doutor Enéas de Carvalho Aguiar.

O ponto de início foi localizado, porém, as obras não pararam. Na parte da tarde, a Secretaria Municipal de Obras abriu a pista da quadra 2 da avenida Nações Unidas, no sentido Rodoviária-Shopping. Após terem destruído a parte do túnel que passava sob a via e retirado mais madeira, fiação e até mesmo roupas, o buraco foi soterrado. Ainda ontem, a via foi liberada para o tráfego de veículos.

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Cronologia do caso


A investigação do caso começou em 3 de fevereiro. Na ocasião, funcionários da Prefeitura Municipal de Bauru, ao consertar um buraco, localizaram na quadra 3 da Nações Unidas um túnel com 30 metros de extensão. A obra foi feita por criminosos e partia da galeria pluvial abaixo do canteiro central, terminando na empresa de segurança e transporte de valores Protege.

A polícia informou que havia várias entradas públicas possíveis para a galeria, como a do próprio rio Bauru, localizada na Nuno de Assis.

Entretanto, anteontem foi descoberto um segundo túnel. Dessa vez, a obra partia de uma casa e terminava na quadra 2 da Nações Unidas, cerca de 150 metros de distância da Protege. Pelas posições das travas, foi possível saber que essa era a rota pela qual os bandidos acessavam a galeria.

Ontem, ao percorrer essa nova escavação de aproximadamente 150 metros de comprimento, foi localizada a casa utilizada pelos bandidos como ponto de origem do túnel.

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Prefeitura ainda não sabe o que fará com buraco


Por meio da assessoria de comunicação, a Secretaria Municipal de Obras informou que ainda não havia decidido o que fazer com o segundo túnel, que possui cerca de 150 metros e passa sob várias residências.

De acordo com a assessoria, assim que a área for liberada pela Polícia Civil, um profissional técnico analisará as estruturas desses imóveis e, somente após isso, será decidido o que fazer. O resultado dessa vistoria será comunicado aos proprietários.

Enquanto isso não é feito, os moradores das imediações se sentem inseguros quanto ao risco de ocorrerem desabamentos ou desmoronamentos. Gerson de Oliveira, 45 anos, é proprietário de um centro automotivo na quadra 2 da Nações Unidas e que fica bem acima da rota do túnel.

"Fora os clientes, somos em cinco trabalhando aqui. Temos muita movimentação de carros e eu tenho medo do que possa acontecer. Preciso procurar a prefeitura para saber qual a providência que vão tomar".

O aposentado Acary Nabor dos Santos, 69 anos, afirma que também sente o problema. Ele acredita até mesmo que uma rachadura em seu quarto pode ter sido motivada pela obra criminosa. "Abriu essa rachadura e até entrou água em casa. Tenho medo do imóvel ter sido comprometido".

Entretanto, para o arquiteto Emerson Crivelli, presidente da Associação dos Engenheiros, Arquitetos e Agrônomos (Assenag) de Bauru, dificilmente há este risco.

A pedido do Jornal da Cidade, ele avaliou a situação com base no diâmetro, extensão e profundidade da escavação. "O único perigo de afundamento do solo sobre o túnel é em áreas permeáveis, como jardins com grama, onde a água da chuva penetra e, aí, ocorre a compactação. Mas onde o túnel está embaixo de área construída, com piso, não há esse risco. A não ser que já exista um vazamento de água ou esgoto sob esse imóvel. Neste caso, o túnel só colaboraria, não seria a causa principal", explica.

Mas para maior segurança, é preciso tapar o túnel aberto. Crivelli recomenda que sob as casas, como não há condições de fazer compactação com máquina, usar solo/cimento. "O solo cimento é uma mistura de nove partes de terra com uma de cimento. Já nas áreas permeáveis, como canteiro central da Nações Unidas, somente terra resolve com compactação de maquinário", diz ele, ressaltando que quem planejou e executou o túnel tinha bom conhecimento de engenharia.

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