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?Mesa para um? vira fenômeno social

Adilson Camargo
| Tempo de leitura: 8 min

Enfim, livre. Morar sozinho é uma decisão de uma parcela cada vez maior da população. Em dez anos, houve um aumento de 3 milhões no número de domicílios com apenas um morador. Atualmente, são 7 milhões de pessoas vivendo desta forma, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

As razões para o fenômeno são várias. Entre elas, estão a melhoria da condição econômica, que facilita aos estudantes o custeio das despesas sem a necessidade de dividi-las com outros, o aumento dos pedidos de divórcio, que aumentaram mais de 100% no ano passado no Estado de São Paulo, a morte de um dos cônjuges e o adiamento da decisão de casar, principalmente entre os jovens.

Atento a essa reconfiguração social, os setores imobiliário e alimentício se movimentam para atender a demanda. Mesmo com essas facilidades, a transição entre a casa dos pais e a residência própria nem sempre é tranquila. Morar sozinho exige sacrifícios, planejamento e cuidados para não extrapolar os limites.

Há vantagens e desvantagens em ser dono de todo o espaço dentro de uma casa. A liberdade é um aspecto muito apreciado. Viver de forma a não precisar dar satisfação de nada a ninguém. Fazer o que bem entende dentro da residência é o sonho de qualquer um.

No entanto, a solidão pode ser um preço alto demais para algumas pessoas. Estar só o tempo todo, pelo menos o tempo que se passa em casa, é uma possibilidade que não agrada a todos.

O estudante de gastronomia Nelson Osório Pinto Neto vivenciou as duas realidades. Ele nasceu e cresceu em Botucatu e, aos 17 anos, deixou a casa dos pais para morar e fazer faculdade em Santos. Permaneceu lá por quatro meses, morando sozinho.

Embora longe de casa, vivendo em uma cidade estranha, cheia de pessoas desconhecidas, Nelson não teve grandes dificuldades para se adaptar. "Eu morava perto de todos os meus colegas da faculdade. Então, a gente se encontrava direto. Estávamos sempre juntos. Morar sozinho não foi problema", conta.

Depois de permanecer quatro meses no Litoral, o estudante decidiu mudar de faculdade e foi fazer hotelaria em Águas de São Pedro. Permaneceu lá durante dois anos. Nesse tempo, dividiu uma casa com mais 15 pessoas. Segundo ele, foi uma experiência muito agradável.

"Eu chegava em casa e sempre tinham várias pessoas para conversar. Quando queria privacidade, entrava no meu quarto e ninguém me incomodava", relata. Este ano, Nelson veio para Bauru fazer curso de gastronomia. E novamente vai morar sozinho.

Ele disse ter procurado alguém para dividir o apartamento, mas sem sucesso. De acordo com ele, não ter com quem sair nem conversar é a pior parte da vida solitária. "Até fazer amizade na faculdade e encontrar pessoas com as mesmas afinidades, a ponto de sair juntos, leva tempo", frisa.

Para a jornalista Rosane Queiroz, autora do livro "Só: Dores e Delícias de Morar Sozinha", sair de casa e cuidar da própria vida faz a pessoa crescer pessoalmente. "Acho que é uma escala necessária. As pessoas ficam mais preparadas para tudo. Isso dá confiança. É um exercício de autoconhecimento. Aprendemos a suportar nossa própria companhia", aponta.

Na opinião dela, o senso de responsabilidade de quem mora sozinho costuma ficar mais apurado, uma vez que a pessoa não tem mais o pai e a mãe por perto para ficar lembrando o tempo todo o que deve ser feito e como deve ser feito.

De acordo com o IBGE, há dez anos, existiam, em Bauru, 8.838 domicílios com apenas um morador. Isso representava 9,75% do total de 90.600 domicílios ocupados. Segundo a assessoria do órgão, os números referentes ao censo de 2010 ainda não foram divulgados.

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Estar só não significa ser solitário


Estar só não significa estar solitário. A solidão e o isolamento devem ser evitados a todo custo. Essa é a recomendação da psicóloga Marta Alice Nelli Bahia para aqueles que vão morar sozinho ou que já vivem essa situação.

"Morar sozinho traz esse sentimento de solidão, mas a pessoa não pode se isolar. É importante manter uma vida social ativa", avisa. Segundo ela, quem não se envolve não se desenvolve. A psicóloga lembra que algumas pessoas vão morar sozinhas por outras circunstâncias que não a de estudar em outra cidade. Tem aqueles que se separam do cônjuge, outros passam a morar sozinhos em decorrência da morte do companheiro ou da companheira e outros por questões profissionais.

Mas, independentemente do motivo, a recomendação é a mesma. "Nunca se isole. Busque sempre novas relações sociais." De acordo com Marta, esse envolvimento com outros ajuda a reconquistar o que foi perdido. Entre outros quesitos, está o afeto, por exemplo. "E isso só se consegue no contato com o outro", diz.

Superado o isolamento, a convivência diária consigo mesma dá à pessoa uma boa oportunidade para momentos de reflexão e de correção de eventual desvio de comportamento, segundo a psicóloga.

Como disse a jornalista Rosane Queiroz, autora do livro "Só: Dores e Delícias de Morar Sozinha", morar sozinho é um exercício de autoconhecimento. Durante os 11 anos que esteve só dentro de uma residência, ela lembra que teve muito tempo para refletir sobre a vida ao seu redor.

Com base em sua experiência, Rosane também sustenta que estar só não significa estar solitário. "Solidão é um estado de espírito não um estado físico", compara.

Na opinião da psicopedagoga Rozana Dias Garcia, morar sozinho é uma experiência tão enriquecedora que todos deveriam passar por isso. Ela própria está há 12 anos nessa vida. Durante esse tempo, revela ter amadurecido muito como pessoa.

"Quem me conheceu há 12 anos, nota que a mudança foi grande", relata. Ela deixou a casa dos pais, em Jacareí, para fazer mestrado, mas não conseguiu concretizar seu desejo logo de início. Antes de pensar em voltar para casa, arrumou emprego em Bauru e por aqui ficou. No ano seguinte, conseguiu ingressar na pós-graduação.

Rozana conta que nos dois primeiros anos foi bem complicado dar conta de tudo sozinha. Em Jacareí, tinha os pais e duas irmãs para auxiliá-la no que fosse preciso. Em Bauru, não tinha ninguém, além dela. "Foi um verdadeiro desafio, mas gostei da experiência", revela.

Hoje, ela diz lidar muito bem com a rotina de dona do próprio pedaço. Nesse tempo, desenvolveu novos hábitos, como ler bastante, ouvir música. Aos poucos foi se adaptando à nova realidade.

Se Rozana já está adaptada, a relações pública Ana Amélia Pereira Brega está tentando. Faz dez anos que ela deixou a casa dos pais, em Macatuba, e veio morar em Bauru. Mas sempre dividiu apartamento com outra pessoa. Há dois meses, passou a morar sozinha.

"Estou achando ótimo. É uma sensação de liberdade muito grande. Quando volto para casa, está tudo do jeito que eu deixei", comemora.

Poder decidir a decoração do apartamento e a disposição dos móveis de acordo com sua vontade é outro ponto positivo apontado por ela. "Outra vantagem é poder investir em um sofá melhor, em um eletroeletrônico novo e de qualidade", argumenta. Afinal de contas, a preservação ficará por conta única e exclusivamente dela.

"Por enquanto, não tenho nenhuma reclamação a fazer por morar sozinha", comenta. Ana Amélia diz que passa pouco tempo no apartamento. Por isso, não sente tanta falta de uma companhia. "Saio cedo e só volto à noite. Quando estou em casa é para descansar", revela. Quando não está dormindo, Ana Amélia está na frente do computador ou da TV ou dos dois ao mesmo tempo. Ela também gosta de ler. Silêncio, agora, ela tem de sobra.

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Com aumento da renda,
pais pagam privacidade


Há dez anos, pouco antes de começar as aulas nas faculdades, pais percorriam as imobiliárias à procura de casas e apartamentos onde os filhos e filhas pudessem dividir o espaço com colegas. O objetivo era repartir as despesas com moradia e alimentação.

Com o aumento do poder aquisitivo do brasileiro desde então, os pais passaram a ter condições financeiras de custear a privacidade dos filhos. Com isso, houve um aumento na procura de apartamentos com apenas um quarto.

Vera Michelão, gerente do setor de locação de uma imobiliária de Bauru, conta que, em uma semana e meia, ela alugou um prédio inteiro, com 12 apartamentos de um quarto para estudantes. E tem fila de espera aguardando eventuais desistências. Segundo ela, investidores do setor imobiliário estão de olho nesse nicho de mercado.

A gerente comenta ainda que muitos proprietários de casas e apartamentos maiores estão evitando alugar os imóveis para estudantes por causa de reclamações quanto a barulho e o entra e sai constante de pessoas estranhas nos prédios. Como os apartamentos de um quarto, geralmente, são pequenos, fazer festa dentro deles é mais difícil.

Vera revela ainda que os estudantes, ou os pais deles, são bons pagadores. Essa seria uma outra boa razão para os investidores estarem com suas atenções voltadas para esse público.

Além do aumento do poder aquisitivo do brasileiro, a corretora de imóveis Maria Luísa Siqueira Moreno cita ainda a expansão dos trabalhos feitos por meio da Internet como uma fonte de renda a mais para os estudantes, o que facilita o custeio das despesas para quem mora sozinho.

"(Diante dessas possibilidades) os estudantes passam a querer privacidade, porque estão acostumados com isso. E nem sempre é fácil dividir o mesmo espaço com pessoas que possuem valores e comportamentos diferentes do seu", alega a corretora.

Segundo ela, a prioridade não é mais dividir despesas, mas preservar o conforto e a privacidade. "Isso facilita a visita dos pais e deixa os jovens mais perto da qualidade de vida a que ele estava habituado", argumenta.

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