São Paulo - Policiais civis prenderam, na manhã de ontem, um homem suspeito de manter um grupo de travestis em cárcere privado em um apartamento na rua Guaianases, no centro de São Paulo. A polícia chegou ao local após denúncia da mãe de um deles, que vive no Ceará. Ela procurou as autoridades de Fortaleza para dizer que o filho havia sido aliciado, morava em São Paulo e estava impedido de retornar à sua terra natal.
As autoridades cearenses entraram em contato, então, com o Núcleo de Enfrentamento ao Tráfico de Pessoas, da Secretaria da Justiça e da Defesa da Cidadania de São Paulo, que levou o caso à polícia.
No apartamento foram encontrados quatro travestis -dois de Fortaleza, um do Rio Grande do Norte e um de Belém (PA) - sob a guarda do "gerente" da casa, Nilton Pinto de Freitas, 27 anos, conhecido como Andressa, que foi preso em flagrante e será indiciado sob suspeita de cárcere privado, tráfico de pessoas e exploração da prostituição. Não havia menores de idade entre o grupo.
No início do mês, outro grupo de travestis foi encontrado em situação análoga também no centro de São Paulo, e entre eles havia quatro menores de idade que já foram encaminhados de volta às suas cidades.
Segundo a secretária da Justiça, Eloisa de Souza Arruda, um dos travestis teria tentado voltar a Fortaleza, mas não conseguiu deixar o local. A mãe dele teria enviado uma passagem para que regressasse, mas a organização responsável pelo aliciamento e alojamento dos jovens em São Paulo não teria deixado.
Ele já está sob proteção do Estado. Ainda de acordo com a secretária, os outros três não quiseram sair da cidade. "Alguns concordaram em permanecer nessa situação, e não podemos obrigar um maior [de idade] a voltar", disse.
Os travestis são aliciados em cidades do Nordeste, onde geralmente vivem em situação de pobreza, e trazidos para São Paulo por uma grande organização criminosa, fortemente estruturada e hierarquizada, segundo a polícia. Eles contraem dívidas com essa organização - em geral, relacionadas à viagem e a cirurgias para colocação de silicone - que são "impagáveis", segundo a polícia.
As cirurgias acontecem em clínicas de São Paulo e custam entre R$ 4 mil e R$ 6 mil. A polícia não deu informações sobre essas clínicas.
Segundo o delegado titular da Divisão de Proteção à Pessoa do DHPP (Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa), Joaquim Dias Alves, as investigações para revelar o esquema dessa organização criminosa já acontecem há mais de dois anos, em parceria com a Secretaria da Justiça.
Ele explica que os travestis sofrem ameaças físicas e psicológicas para se sujeitar a isso. "Estamos descobrindo agressões e até homicídios de dissidentes?, disse, sem dar mais detalhes. O caso de hoje está ligado ao esquema descoberto no início de fevereiro", afirma o delegado.
São Paulo tornou-se um dos principais centros receptores de travestis no país, e é a principal porta de saída para que esses jovens cheguem ao exterior. Segundo a polícia, a razão para que alguns queiram voltar e outros não é que a família de alguns os aceitam e os querem de volta, enquanto outros são renegados.
Os travestis pagam a seus superiores R$ 25 por dia -independente de terem feito "programas" ou não. Esse valor, segundo o delegado, é cumulativo, o que torna a dívida cada vez mais impagável. Além dos R$ 25, pagam uma porcentagem do total de programas feitos por dia.
O preso na operação de hoje já tem advogado constituído. A reportagem, no entanto, não conseguiu contato com a defesa do suspeito.