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Ronaldo

Zarcillo Barbosa
| Tempo de leitura: 4 min

A despedida de Ronaldo deveria ter sido num estádio de futebol, com volta olímpica, aplaudido de pé pela torcida. O que vimos pela televisão foi o homem comum confessar as dores que o atormentam e sua dificuldade para subir as escadas da própria casa. O "Fenômeno" abatido disse ter experimentado "uma primeira morte" quando o corpo já não era mais capaz de executar as jogadas criadas pelo cérebro. Esse futebol hemiplégico havia dado sinais de morbidez na véspera da final da Copa do Mundo da França. Foi quando sofreu uma convulsão no quarto do hotel. O mistério continua, mas foi emocional. Resultado da pressão do momento. Uma das marcas da sociedade contemporânea é justamente a tensão entre seres ordinários ? a massa ? e singulares ? os ídolos. A narrativa clássica do herói fala da superação de obstáculos, redenção e glória. Até a Copa de 1998, a trajetória do atleta tinha sido traçada como a de um mito. Ronaldo era jovem, rico, foi eleito três vezes o melhor jogador do mundo (96-97 e 2002), o atleta mais festejado pela mídia internacional. Em plena forma física Ronaldo não necessitava de nenhum companheiro para marcar gol. Tomava a bola no meio do campo, focava a meta e ninguém conseguia pará-lo. Não havia zagueiro nem obstáculo capazes de detê-lo. Atacava como um miúra pela sua aceleração, velocidade e potência. Essa "explosão" era assegurada pelas pernas e joelhos acionados por músculos poderosos. Tostão, hoje craque da crônica esportiva, explicava numa das suas crônicas a receita para ser um atacante fenomenal como foi Ronaldo: "(...) é preciso, além de excepcionais qualidades técnicas, mapear em um piscar de olhos tudo o que está a sua volta, perceber os movimentos dos companheiros e adversários e calcular a velocidade da bola e dos marcadores." É a chamada inteligência cinestésica: sensibilidade ao movimento, velocidade e aceleração. Também noção de postura e posição.

Ronaldo não era jogador. Era um goleador. Até os seus gols eram comemorados com a marca do patrocinador. Nunca foi um jogador de equipe. Seu repertório era pessoal e adstrito à frente de ataque. Diferente de Pelé que jogava em qualquer parte do campo, inclusive no gol; de Cruyff, de Maradona, de Di Stéfano. Tampouco era o seu objetivo mostrar talento na defesa ou no ataque. A Ronaldo só interessava o gol e aí foi sim, o número 1. A massa não perdoa os ídolos caídos de joelhos. A fúria da torcida corintiana ignorou o passado, obrigou Roberto Carlos a tomar uma rota de fuga e, Ronaldo, a se aposentar. Essa volta dos velhos craques ao Brasil lembra muito a história da velha prostituta, já sem o brilho que a fez disputada pelos homens ricos e que decide voltar para sua aldeia onde tenta ganhar a vida nos mesmos afazeres. Rejeitada, percebe que não tem mais a bunda empinada e nem os seios durinhos da mocidade. O Brasil virou essa aldeia do "amargo regresso". Ronaldo jogou abaixo do normal. Roberto Carlos foi apenas um jogador mediano. Rivaldo, no São Paulo, marcou um belíssimo gol e recolheu-se às suas dores. Felipe joga atualmente no Vasco da Gama e tem demonstrado não só falta de preparo físico como ter desaprendido a técnica. O Fluminense trouxe Deco, que ainda não jogou uma partida completa. Vagner Love, Denílson e Adriano nem mostraram a que vieram. A exceção é Liédson, fazendo gols no Corinthians. Na maioria dos casos, o Brasil é hoje o asilo daqueles que pensam em passar o chapéu para faturar os últimos reais, depois dos euros esbanjados. Romário arrumou um jeito de se eleger deputado. Opera a mágica de estar presente à sessão e na praia do futevôlei ao mesmo tempo. A contratação dos ex-ídolos se deve à incompetência de dirigentes que tentam esconder os fracassos do clube, como se isso fosse resolver a ausência de títulos. Esses ex-atletas ainda servem de desestimulo aos jovens promissores que se constrangem em ganhar a décima parte do que recebem essas sombras do passado, com o agravante de terem que correr três vezes mais para superar a carência dos ex-fenômenos.

Infelizmente, o eleitor não é tão exigente como o torcedor a ponto de forçar velhos políticos carcomidos a se aposentarem. O Brasil, como ensina Ronaldo Luís Nazário de Lima, precisa aprender mais com os seus erros do que com os seus acertos.


O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC

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