Trípoli - As forças de segurança da Líbia abriram fogo contra os manifestantes na segunda cidade do país, Benghazi, ontem, disse uma testemunha, depois de muitas mortes em um dos dias de protestos mais sangrentos que assolam o mundo árabe.
Moradores disseram que dezenas, talvez centenas de milhares de manifestantes tomaram as ruas da cidade para enterrar os muitos mortos das últimas 24 horas.
Os manifestantes, inspirados pela agitação na vizinha Tunísia e no Egito, exigem o fim da ditadura de Muammar Gaddafi, que já dura 41 anos. Suas forças de segurança responderam com violência. As comunicações estão sendo controladas, e o acesso de jornalistas internacionais a Benghazi não é permitido.
O grupo Human Rights Watch disse que 84 pessoas foram mortas na cidade no sábado, elevando o número de vítimas fatais nos confrontos que ocorrem principalmente no leste do país para 173 em quatro dias de distúrbios.
"Houve um massacre aqui", disse por telefone um morador que não quis se identificar. Mais tarde, onrem, um dos principais líderes tribais, que pediu anonimato, disse que as forças de segurança, que estavam confinadas, deixaram os alojamentos nos quartéis e atiravam nos manifestantes nas ruas, como "uma perseguição de gato e rato."
Os confrontos aconteceram em uma estrada que leva a um cemitério, onde milhares de pessoas foram enterrar seus mortos. "A situação é muito tensa e vários incêndios irromperam no quartel general do comitê revolucionário e em outros edifícios", disse.
Informações fragmentadas indicam que as ruas de Benghazi, cerca de 1.000 km ao leste da capital, Trípoli, estão agora sob o controle dos manifestantes antigoverno, sofrendo ataques periódicos das forças de segurança, que atiram de dentro do seu quartel murado.
Um morador disse que cerca de 100 mil manifestantes dirigiram-se ao cemitério "para enterrar dezenas de mártires".
Outra testemunha disse que milhares de pessoas realizaram rituais de orações em frente aos 60 corpos expostos na cidade. Mulheres e crianças estavam entre a multidão de centenas de milhares de manifestantes que foram até a orla marítima mediterrânea e à área ao redor do porto.
Um médico de um hospital de Benghazi disse que as vítimas sofreram ferimentos graves causados por armas de longo alcance.
Mortos podem passar de 200
Trípoli - Manifestantes antigoverno se aproximaram ainda mais da capital líbia ontem, enquanto violentos confrontos voltaram a ocorrer na cidade de Benghazi, numa escalada que, de acordo com a organização Human Rights Watch, pode terminar em massacre, com mais de 100 pessoas mortas pelas forças de segurança até agora.
Testemunhas relataram à France Presse por telefone que as forças do governo atacaram os manifestantes na cidade de Misrata, no Mediterrâneo, a 200 quilômetros da capital Trípoli. Os manifestantes também voltaram a ocupar as ruas de Benghazi, a 1.000 quilômetros da capital, onde a repressão - apoiada por "mercenários africanos", segundo as testemunhas - atira contra a multidão "indiscriminadamente".
"Os advogados estão protestando em frente ao tribunal de Benghazi, há milhares de pessoas lá. Estamos chamando (o local) de Praça Tahrir 2", disse o advogado Mohammed al-Mughrabi, referindo-se à praça onde os manifestantes se concentraram no Egito por 18 dias para derrubar o presidente Hosni Mubarak.
Também em Benghazi, manifestantes "atacaram uma guarnição" da polícia e "estão sendo atacados por franco-atiradores", acrescentou al-Mughrabi, sem dar mais detalhes. O balanço de mortos nos protestos desde terça-feira já alcança 104, segundo a HRW, que cita médicos e testemunhas.
Um médico na cidade de Benghazi afirmou à Associated Press, porém, que viu pelo menos 200 corpos de manifestantes mortos pelas forças de segurança de Gaddafi nos últimos dias. O oficial falou em condição de anonimato por medo de represálias.
Em entrevista à rede Al-Jazeera, um morador alertou que Benghazi está se transformando em palco de "massacres escondidos". "Parece uma zona de guerra entre manifestantes e as forças de segurança", denunciou Fathi Terbeel, um dos organizadores dos protestos. "Nossos números mostram que mais de 200 pessoas já foram assassindas", acrescentou.