"O regente está diluído na figura de todos os coralistas porque é a alma do coral." Essa foi a justificativa de Angelina Messenberg a Sônia Berriel por ter estampado uma tela com o Arte Viva, porém sem a regente. Hoje, os dizeres da artista podem ser usados para explicar o fim do mesmo grupo, depois de 35 anos em atividade.
À frente do coral Arte Viva desde a sua fundação, em 1975, Sônia Berriel decidiu, por motivações pessoais, desligar-se do grupo que, consequentemente, se extinguiu. O quadro dado de presente por amigos e que recepciona os visitantes da casa da regente será agora uma das muitas lembranças da história de sucesso construída pelo coro e guardadas com carinho por essa amante da música.
"Foi uma decisão bastante difícil. O coral tem uma história de grande luta e de colheitas, mas que se finda porque sua regente está em um outra fase da vida. Os coralistas, por não enxergarem o grupo sem mim, resolveram não continuar", afirma Sônia. Essa outra fase anunciada pela regente pretende ser de dedicação à vida pessoal. "O tempo passa e eu quero ter tempo para curtir mais a minha família", justifica.
Outra motivação da decisão de Sônia foi a idade. "Estou com 69 anos e pensei que essa seria uma boa hora, não gostaria de parar quando eu já estivesse mais idosa. A habilidade e independência que o regente tem de ter sempre me fizeram pensar sobre isso e como seria o dia em que eu tivesse mais idade", revela. "Além disso, queria parar em um momento que o coral estivesse no auge, para ele poder terminar com uma trajetória linda e no topo", completa.
Muito obrigado
Apesar de segura de sua decisão, Sônia comenta que este é um momento de tristeza para ela. "A música é uma paixão na minha vida, adoro os coralistas e sou muito amada por eles. Meu sentimento de perda é bem grande, apesar de firme na minha decisão, estou me sentindo bastante entristecida", revela.
Segundo Sônia, o convívio quase que diário com aqueles que se tornaram sua segunda família é o que lhe fará mais falta. "Eu vou sentir falta de tudo, mas, principalmente, das pessoas que se tornaram meus amigos de vida. Por outro lado, a minha paixão pela música continua comigo à frente do conjunto musical Sônia Berriel; não vou perder o contato com o canto coral, que é minha paixão", promete. O grupo, existente desde 2000, é formado por sete solistas e costuma apresentar-se em diversos eventos como casamentos.
Cidadã bauruense, Sônia faz questão de agradecer à cidade pelos tantos anos de carinho e reconhecimento. "Só tenho que agradecer a todos por todo apoio durante os 35 anos que doei da minha vida profissional e do meu amor a Bauru, a cidade onde eu não nasci, mas onde eu vou ficar; onde toda a minha vida, meu casamento, meus filhos, meu trabalho foi executado", agradece.
"É muito importante na vida da gente saber quando um ciclo termina e virar a página; eu estou na fase da virada da página, com muita tristeza, mas saindo para novas realizações", finaliza ao piano, tocando "Somewhere in Time" (em algum lugar do passado), de John Barry. Porque, é claro, além de com palavras, tinha de se despedir com música.
História
O Coral Arte Viva nasceu no dia 14 de outubro de 1975 como coral da Secretaria da Fazenda do Estado de São Paulo, mas, há mais de 25 anos, tornou-se independente. O grupo, comandado por Sônia Berriel desde a fundação, se consolidou em Bauru, no Brasil e até no Exterior. O coro passou por 15 Estados brasileiros e excursões na França, Espanha e Argentina.
Nos últimos 10 anos, a casa do Arte Viva - que nunca possuiu uma sede própria - foi a Oficina Cultural, onde eram realizados os ensaios e reuniões.
Coralistas lamentam perda
Os coralistas, muitos deles mais de 20 anos integrando o Arte Viva, lamentaram o fim do coro. Pressentido por Nice Gamba Rodrigues, 72 anos, o encerramento das atividades do coral representa para a integrante, assim como para Sônia Berriel, o início de uma nova fase.
"Tudo que começa um dia tem que chegar ao fim. Claro que nem tudo a gente gostaria de ver acabar, mas faz parte, embora me faça muita falta", comenta. A coralista aproveita para agradecer os muitos anos passados ao lado do coral. "Foi uma fase muito bonita, onde todos pudemos crescer muito culturalmente".
Também triste com a extinção do Arte Viva, Neusa Francisca Manso Facin, 65 anos, diz estar à espera de se acostumar com a ideia para tentar se incluir em outro coral. "Foram 23 anos de dedicação total, fazia com muito amor. Agora, é esperar para ver se vou me adaptar a cantar em outro lugar", espera.