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As melhores universidades: boa gestão ou dinheiro?

Alberto Consolaro
| Tempo de leitura: 3 min

Se dinheiro melhorasse imediatamente os indicadores de uma universidade, as melhores estariam em Dubai, Brunei e Cingapura. Das dez melhores universidades do The Higher Education, a mais nova, Imperial College de Londres, foi fundada em 1907 e a mais velha, em Oxford, nasceu no século 11. Todo processo educacional oferece resultados gradativos pois são as novas gerações, sob uma nova ótica, que mudam a sociedade. Os dados financeiros publicados ajudam a derrubar mitos e dogmas. Um mito diz que as universidades estadunidenses e britânicas são pagas e privadas e só por isso são melhores. Um mito, poisuma pessoa ou empresa não podem ser proprietárias de universidadesnestes países, mas sim comunidades, cidades e instituições. Não se tem donos de universidades, são gerenciadas pelo reitor que representa o conselho comunitário que determina as diretrizes a serem seguidas. As anuidades pagas pelos alunosnão caracteriza uma natureza privada, ela continua sendo pública. Outro mito diz respeito a quem sustenta financeiramente estas universidades: em todas, a maior parte do dinheiro que mantémo seu funcionamento tem origem no governo.

Os neoliberais, especialmente os radicais, quando tocam neste assunto evitam explicitar, mas as melhores universidades são estatais, são mantidas pelo dinheiro público. As demais fontes em ordem decrescente de valores são: doações, interface de projetos comuns com empresas e por último o valor das anuidades dos alunos. Harvard, a universidade mais considerada não informa explicitamente de onde vem a maior parte do dinheiro doorçamento, mas 17% vem do governo e apenas 1,2% tem origem nas anuidades e muito menor ainda é o valor advindo das empresas. Do total que se informa a origem do dinheiro60,5% são advindos do governo.

A maior fonte de dinheiro para pesquisas vem de solicitações de professores e alunos em projetos junto às agencias de governo para fomento da ciência e tecnologia. Em outras palavras, a maior parte do dinheiro de pesquisa também vem de dinheiro público. Os liberais ao analisarem o di-nheiro das pesquisas esquecem disto.

Ao compararmos as melhores universidades com a USP e Unicamp - em 232º e 248º lugar do ranking ? fica-se impressionado: os orçamentos são semelhantes e até maiores. A Universidade de Oxford tem orçamento menor que o da USP e 48 de seus professores ganharam o Prêmio Nobel. Na Universidade de Cambridge, o orçamento é equivalente ao da USP e apresenta 88 nobelistas. O Brasil ainda não teve sequer um ganhador.

A diferença entre os indicadores das brasileiras com as melhores universidades está na gestão dos recursos financeiros e humanos. Ainda não temos cultura e tradição esta-belecidas em séculos de funcionamento. As melhores universidades são gerenciadas com táticas e práticas de empresas. Equipes são treinadas para visitarem cidades, escolas, igrejas e colégios técnicos e divulgarem a instituição o que estimulam os melhores alunos a ingressarem em seus cursos; se comprova-damente são os destaques de suas escolas, ganham bolsas de estudo e freqüentam sem nada pagar. Os melhores professorese referências em suas áreas, com livros e artigos clássicos publicados, são contratados com sa-lários diferenciados para atrair os melhores alunos e mais dinheiro para pesquisas.

O governo, as empresas e as universidades deveriam ser colaborativas entre si. Na universidade estão os que têm maior capacidade de abstração, criação e inovação, atividades que exigem um mínimo de intelec-tualidade. A interface com o governo e com as empresas gera dinheiro para a universidade e dá sequência a um processo elementar: ideias, inovação, testes e patentes nos campi universitários. Em continuidade, nas empresas teremos produtos, mercado, lucro, tecnologia e necessidade de melhora do produto.

Estabelece-se um círculo com novos doutores, novas ideias, empregos e oportunidades e a sociedade progride beneficiando-se todos. Talvez devemos repensar, pois a falta de dinheiro parece não representar o problema para melhorar a posição de nossas universidades no ranking mundial, mas sim o tipo de mentalidade e cultura instaladas na sua gestão!


O autor, Alberto Consolaro, é professor titular da USP e colunista do Caderno Ciências do JC

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