Tripolí - O ditador líbio, Muammar Gaddafi, afirmou ontem em discurso transmitido pela TV estatal que não deixará o poder e que se for preciso morrerá como "mártir", qualificando rebeldes como "gente que se droga e se embebeda".
"Muammar Gaddafi é o líder da revolução. Muammar não é presidente para renunciar, Muammar é o líder da revolução para sempre", disse ele, desde 1969 no poder.
Minstro renuncia
O regime líbio, porém, voltou a dar sinais de implosão, com a renúncia do ministro do Interior, Abdul Fattah Younis, noticiada pela TV Al Jazeera, e de novos representantes diplomáticos do país.
Younis, ainda de acordo com a emissora árabe, conclamou o Exército a engrossar as fileiras da oposição.
Ontem, o ministro da Justiça já havia renunciado.
Relatos locais indicavam também que toda a região leste da Líbia, incluindo Benghazi - a segunda maior cidade do país -, está sob controle de rebeldes. A área é um tradicional bastião de opositores ao regime líbio.
Vítimas
Após uma semana de protestos antirregime, o número oficial de vítimas é de 300 - sendo 58 membros das forças de segurança. Porém, fontes não oficiais estimam mais de 400 mortes, 300 das quais apenas em Benghazi.
Gaddafi proferiu seu discurso no final da tarde (horário local), sozinho na tribuna de uma residência oficial alvo de bombardeios americanos de 1986 que mataram uma de suas filhas.
A alguns metros do local, na praça Verde, em Trípoli, um enorme monumento em formato de braço segurava um avião dos EUA em referência ao episódio, símbolo dos anos de hostilidades.
"Ficarei aqui", declarou Gaddafi, mais longevo mandatário da África, gesticulando nervosamente.
Em pouco mais de meia hora de discurso, prometeu "depurar casa por casa" o país atrás dos "ratos e mercenários" e exortou partidários a saírem em sua defesa.
"A partir de amanhã, peguem suas crianças, saiam de casa, todos vocês que amam Gaddafi, vão às ruas, não tenham medo deles."
"Persigam-nos, prendam-nos, entreguem-nos às forças de segurança. Eles são poucos, são terroristas", disse.
Na véspera, o mandatário já havia feito pronunciamento para negar que houvesse fugido para a Venezuela.
Deserções
Desde ontem, Gaddafi enfrenta uma onda de deserções no gabinete, nas Forças Armadas, na Chancelaria e na intrincada rede de tribos que constitui a base do regime mantido pelo ditador.
Na diplomacia, as deserções incluem altos membros da delegação da ONU e embaixadores pelo mundo.
Há relatos ainda da presença de mercenários contratados para atacar opositores. Segundo a rede de TV árabe Al Jazeera, seriam sobretudo dos vizinhos Chade e Sudão e da Somália.
A Liga Árabe suspendeu ontem a Líbia, que ocupa a presidência rotativa do bloco regional, devido à violência.
E a alta comissária da ONU para Direitos Humanos, Navi Pillay, disse que a repressão a opositores pode configurar crime contra a humanidade.
EUA pedem fim do banho de sangue
Washington - Os EUA reagiram rápido às declarações de Gaddafi. A secretária de Estado, Hillary Clinton, afirmou que a mensagem mundial "inequívoca" é que o "banho de sangue" deve parar já e que o governo líbio é o responsável pelo caos.
"Não há nenhuma dúvida aqui: a violência é completamente inaceitável", afirmou Hillary em um discurso organizado de última hora no Departamento de Estado.
A secretária havia dado declarações semelhantes um dia antes, mas a repetição da mensagem, com tom ainda mais crítico, é indicativa da tentativa americana de evitar polêmica semelhante à de sua resposta ao Egito, inicialmente dúbia.
Vários congressistas americanos estão sugerindo retomar sanções contra o país que foram suspensas em 2003. O governo afirmou estudar as propostas, mas ainda não anunciou nenhum passo concreto para punir ou coagir o regime líbio.
Itamaraty tenta retirar brasileiros
Brasília - O Itamaraty está tentando obter autorização da Líbia para que aviões e barcos fretados pelas empreiteiras Odebrecht e Queiroz Galvão pousem em Trípoli e atraquem no porto de Benghazi para retirar brasileiros que estão no país a trabalho.
O barco é uma espécie de "plano B" depois que a pista do aeroporto de Benghazi, cidade dominada pelas forças de oposição ao ditador Muammar Gaddafi, foi destruída durante os conflitos
Patriota reuniu-se ontem com sua colega da França, Michèle Alliot-Marie. Ela ofereceu ajuda dos franceses para o transporte dos cerca de 130 funcionários brasileiros da Queiroz Galvão retidos em Benghazi.
Em comunicados, tanto a empreiteira quanto sua rival Odebrecht, que tem 187 funcionários brasileiros na Líbia, disseram que não há registros de incidente e que todas as providências para retirar empregados em segurança estão sendo tomadas.
Em Porto Alegre, o presidente da Petrobras, José Sergio Gabrielli, disse que a estatal retirará os sete funcionários que mantém em território líbio: "Não vou revelar o plano pela imprensa. Quando executar, aviso".
O brasileiro Heron Ferreira, 52 anos, treinador do Al Ahly, principal time de futebol da Líbia, disse que esperava deixar o país ainda ontem com a mulher e a filha de seis anos.