Referência nacional no tratamento de fissura labiopalatal, Bauru tem à disposição um protocolo científico para, eventualmente, reforçar seu pioneirismo na recuperação de pacientes com este tipo de má formação, popularmente conhecida como lábio leporino. O Instituto de Pesquisa de Células-Tronco (IPCTron), sediado em São Paulo, manifestou interesse em iniciar testes com células-tronco em pacientes que sofram da anomalia.
A fissura labiopalatal faz com que bebês nasçam com uma abertura no lábio e no céu da boca. Com o uso de células-tronco, o promessa é de que a regeneração estética e funcional do paciente ocorra em um período de tempo infinitamente menor, com ganhos significativos em termos de qualidade de vida.
"Para uma criança ou mesmo um adolescente, passar por uma série de cirurgias ao longo de anos e por todo o constrangimento diante dos colegas de escola é uma situação dificílima que pode interferir, inclusive, na formação de sua personalidade", salienta a presidente do instituto, a biomédica Lilian Piñero Eça, PHd em biologia molecular pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).
Entre 2005 e 2007, ela orientou um estudo na Universidade do Sagrado Coração (USC), em Bauru, que foi o primeiro desenvolvido no Brasil a partir do uso de células terapêuticas para tratamento de fissura labiopalatal. Em um experimento realizado com coelhos, foram retiradas células-tronco da medula óssea dos animais, posteriormente implantadas em uma abertura feita em seus crânios.
"Não podíamos fazer o experimento no palato (céu da boca), porque o coelho pararia de comer e morreria. Então, retiramos um pedaço do osso da cabeça, que é muito semelhante ao do palato, e implantamos as células retiradas da medula", detalha Lilian.
Segundo a biomédica, o material injetado conseguiu reconstruir as fendas e o estudo serviu de base para um novo projeto experimental, desta vez com a aplicação do método em crianças recém-nascidas com a má formação. Toda esta etapa do trabalho foi desenvolvida na Capital, em parceria com o cirurgião plástico e atual vice-presidente do IPCTron Marcelo Vaccari, especializado em anomalias crânio-faciais.
"Coletamos as células-tronco do cordão umbilical de oito bebês oriundos de famílias de baixa renda e armazenamos. Quando as crianças atingiram os sete meses de idade, iniciamos a implantação das células terapêuticas em três delas. Os resultados iniciais foram excelentes", comenta.
Recuperação
Para desenvolver a pesquisa, a biomédica contava com a parceira de um banco de cordão umbilical e de um hospital privado. Mas, no meio do processo, perdeu o apoio da instituição de saúde que dava toda a retaguarda de internação e, por este motivo, o projeto teve de ser interrompido.
"Nosso objetivo era implantar as células-tronco aos sete meses no lábio das crianças e, aos 18 meses, no palato. Mas, por problemas políticos, infelizmente não concluímos o estudo", pontua a biomédica.
Segundo ela, uma das crianças que tiveram células implantadas no lábio quando a fissura foi suturada apresentou recuperação surpreendente.
"A pele ficou perfeita, lisa, sem sinais de fibrose (cicatriz), como geralmente fica quando são feitos procedimentos convencionais. Em três dias, a área da cirurgia já estava praticamente recomposta", aponta.
Desde a interrupção do projeto, o IPCTron se voltou a outras áreas de pesquisa, mas agora pretende retomar o tratamento com células-tronco em crianças com a anomalia congênita. Lilian, que esteve ontem em Bauru para ministrar uma palestra a convite do escritório do Banco de Cordão Umbilical (BCU) na cidade, manifestou a vontade de voltar a atuar em Bauru, seis anos depois de sua primeira pesquisa na área.
"Normalmente, as crianças podem ficar até os 15 anos tratando da fissura labiopalatal. Com o uso de células-tronco, este problema pode ser corrigido depois de meses de tratamento. É uma inovação que não pode ser desperdiçada", frisa.
Em busca de parceiros
Para retomar o projeto experimental que deu início ao tratamento de recém-nascidos portadores de fissura labiopalatal, o Instituto de Pesquisa de Células-Tronco (IPCTron) está buscando parceiros na em Bauru. Além de um médico cirurgião que atue na área, é necessário que um hospital ? seja ele público ou particular ? ofereça condições para que os enxertos de células-tronco ocorram com segurança.
"É preciso ter a garantia de uma Unidade de Terapia Intensiva (UTI), por exemplo, porque os enxertos ocorrem simultaneamente às cirurgias. Esperamos conseguir este espaço em Bauru. Toda vez que venho para cá, sinto nostalgia, porque foi aqui que tudo começou. Seria um sonho realizado", observa.
Reconstrução de osso
Chamado de osso alveolar, a estrutura que dá sustentação aos dentes também é afetada pela fissura lábio palatal. Por meio de métodos convencionais, o cirurgião plástico retira parte do osso da perna e o enxerta no espaço existente na boca do paciente, mas o processo de regeneração nem sempre é bem sucedido.
Com o uso de células-tronco, no entanto, em 15 dias já é possível observar a regeneração de praticamente metade da área, segundo experimento realizado pela biomédica Lilian Piñero Eça. "A (espinha) ilíaca (localizada na região da bacia) já tem que ser normalmente aberta para a retirada de material ósseo para enxerto. Então, aproveitamos para retirar medula de lá para implantar também células-tronco. Foi uma descoberta ao acaso, mas que teve excelentes resultados", comenta.
Incidência
A fissura labiopalatal ocorre em uma criança em cada 350 nascimentos, uma incidência considerada altíssima. A anomalia pode causar problemas de alimentação, fala e doenças no ouvido.
Segundo a biomédica Lilian Piñero Eça, um dos principais fatores para o desenvolvimento da anomalia congênita é a má alimentação da mãe, durante o período de gravidez. "A insuficiência de ingestão de ácido fólico aumenta muito a probabilidade de anomalias. Além de fissura labiopalatal, as crianças podem nascer ainda com má formação craniana ou com espinha bífida (espinha bifurcada)", aponta, destacando que a maioria destes bebês são oriundos de famílias de baixa renda.
Translacional
A biomédica Lilian Piñero Eça explica que, o tratamento e recuperação de pacientes portadores de doenças incuráveis até um passado recente só tem sido possível através de uma nova vertente da medicina, chamada de translacional. Trata-se da junção de esforços de pesquisadores como biomédicos, em suas diversas áreas, e de médicos, como cirurgiões plásticos, que atuam em sua prática cotidiana.
"Muitos pesquisadores básicos passam a vida toda em laboratório sem ter a oportunidade de ver o resultado concreto de seu trabalho. Eu me considero uma pessoa de sorte por poder ver a medicina translacional acontecer", argumenta.
Banco de cordão umbilical: parceria
O Instituto de Pesquisa de Células-Tronco (IPCTron) já possui parceria firmada com o escritório do Banco de Cordão Umbilical (BCU) em Bauru. Caso se concretizar a intenção de iniciar o tratamento com células-tronco em pacientes com fissura labiopalatal, o material retirado dos cordões dos recém-nascidos será armazenado em São Paulo, por intermédio do escritório.
"Nós coletamos o sangue do cordão umbilical, fazemos o tratamento para que ele possa ser transportado para um laboratório do BCU na Capital e lá ele permanece, até quando for utilizado. Neste intervalo, damos toda orientação e suporte técnico aos familiares e ao próprio paciente", frisa o sócio regional Ricardo Viegas.
Segundo ele, ainda não existe, no Brasil, uma cultura de medicina preventiva bem desenvolvida e, por este motivo, ainda é mínimo o número de famílias que preservam o cordão umbilical de seus filhos para eventuais problemas de saúde futuros. "Temos 95% da clientela da cidade mas isso representa apenas 0,5% do potencial de mercado. E o valor cobrado é ínfimo, se pensarmos que estamos tratando de vidas", aponta.
Para realizar a coleta do sangue do cordão e tranportá-lo adequadamente ao laboratório em São Paulo, o BCU cobra R$ 3,5 mil, incluindo o primeiro ano de armazenamento. Depois disso, a taxa anual de manutenção é de R$ 600,00. "Mas a tendência é que, daqui a cinco anos, à medida em que o número de clientes forem aumentando no País, os bancos deixem de cobrar pelo serviço de coleta", assegura.