Recentemente, foi publicado na coluna Opinião (pág.2) uma matéria que, já pelo título, tinha a intenção de esclarecer o porquê da atual situação financeira deficitárias da entidade "Lar Escola Rafael Maurício", fundada há mais de 40 anos em nossa cidade. O artigo muito me chamou a atenção, por fazer parte da equipe técnica da entidade e, assim, conhecer um pouco mais "de perto" a realidade do que se vive ali, diariamente, há três anos. Assim, divirjo de algumas informações ali publicadas e gostaria de expor aos leitores.
Nesses últimos anos, pude observar uma grande melhoria na qualidade de todos os serviços oferecidos na entidade. Foram construídos muros ao redor do espaço externo, manutenção constante das casas (como sofás, colchões, geladeiras, banheiros), construída uma horta, uma biblioteca, reformados o consultório odontológico e a enfermaria (que funciona 24 horas por dia), realizada adaptação às normas da Vigilância Sanitária em todo Lar, dedetização semestral, coleta de lixo hospitalar, troca de equipamentos e manutenção da cozinha (freezer, fogão, utensílios), realizada assistência médica muitas vezes por serviço particular (exames, consultas), implementação de uma Brigada de Incêndio, colocação de hidrantes, extintores, normas de segurança do trabalho, telas para proteção dos vidros (que eram constantemente quebrados pelos próprios usuários/abrigados os ferindo, serviço de podologia por voluntários (Senac), corte de cabelo, passarela com cobertura entre os prédios para os dias de chuva, criação de um pomar, construção de domus nos corredores para aproveitamento da luz solar afim de economizar com energia elétrica.
Foram realizadas diversas parcerias com a Secretaria do Bem-Estar Social, a fim de implementar projetos sócio-educativos (como: PTR, CCI, CCIJ, Brinquedoteca, Melhor Idade), ampliando sua atuação em nossa sociedade e passando assim a ser não somente um simples "Lar" ou "Escola" de ensino especial (como era anteriormente), mas a ser também uma entidade que presta atendimento especializado à crianças, adolescentes e idosos que estão às margens da inclusão social, promovendo a melhoria da qualidade de vida dessas pessoas, em nossa cidade. Assim, houve um sólido crescimento da importância dessa entidade. O Lar Escola Rafael Maurício hoje conta com uma Equipe Técnica Multidisciplinar que presta assistência a cerca de 450 pessoas (de diferentes idades), das quais 49 vivem ali abrigadas. Formou-se, assim, uma grande família, que protege, defende, fornece alimento, segurança, conforto, recreação, carinho e também saúde a estes e dá a possibilidade de trabalho aos pais daqueles que deixam seus filhos em período integral. Deste modo, seria um equívoco acreditarmos que o quadro atual da entidade seja motivado pelo desinteresse ou falta de organização dos antigos responsáveis do Lar, como citado no texto publicado. Posso assegurar que, por lei, toda entidade não sobrevive exclusivamente de verbas. Explico: O governo, em suas três esferas, garante 70% de todo a despesa de uma entidade, porém, os 30% restantes devem derivar de recursos próprios. Esta é a difícil "contrapartida" (válido também para verba oriunda da Secretaria Estadual de Educação). Ou seja, doações em dinheiro de colaboradores (empresas, cidadãos comuns, doadores associados ou "beneméritos"), dinheiro arrecadado através de eventos (como foi, por exemplo, a realização do Almoço Fraternal, do jantar realizado no Santa Madalena, participação em Festas Juninas com barracas ? como a participação no Bauru Tênis Clube, Nelson Paschoaloto, Boliche BeHappy, arrecadação de alimentos nos Supermercados Confiança, feijoadas beneficentes, Almoço Beneficente "Nosso Lar", na própria entidade) ou bazar beneficente. Assim, o problema é muito mais complexo para um administrador de uma entidade, pois não basta ter verba sem ter também dinheiro (leia-se "contrapartida").
O verdadeiro "rombo financeiro" foi criado pela suspensão judicial, a pedido de outros órgãos, das atividades do Ambulatório de Audiologia do Lar Escola Rafael Maurício, o qual provia o total necessário da "contrapartida". Esse ambulatório prestava serviços de audiologia ao Sistema Único de Saúde ? SUS (assim à população em geral) e, por isso, revertia recursos à entidade. Desse modo, a dificuldade recente passou a ser a de encontrar outras fontes capazes de prover a "contrapartida".
Ainda assim, muitos dos funcionários que ali trabalham doaram muito mais do que "um mês de seus salários" e continuaram trabalhando, se dedicando, mesmo com remuneração às vezes atrasadas. Me pergunto às vezes por que empresas como a CPFL, por exemplo, não poderiam isentar a conta de energia elétrica do Lar (mensalmente em torno de R$ 5.000,00)?
Mesmo frente a todo esse cenário, em momento algum os abrigados passam por dificuldades. Sempre são feitas festas em todas as datas comemorativas significativas para uma criança/adolescente (Natal, Ano Novo, Páscoa, Dia das Crianças, Carnaval, aniversariantes do mês), realizadas palestras motivacionais aos funcionários e passeios periódicos (visita ao zoológico, cinema, shopping center, pizzaria, sorveteria, horto florestal, jardim botânico, Alameda Quality Center, Feira do Livro, churrasco e um dia na piscina). Como cidadã, minha preocupação é "quem vai colaborar para que essa grande família não se separe?"
Ana Maria Donnini Fraile Barros - Nutricionista