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Ainda demora

Antonio Delfim Netto
| Tempo de leitura: 3 min

Apesar do grande volume de investimentos e dos esforços mundiais em pesquisas, infelizmente é preciso aceitar o fato que ainda vai demorar a substituição do petróleo como principal fonte da energia para a produção e o transporte dos bens que a maioria da humanidade utiliza para sua sobrevivência. Lidar com as turbulências geradas pelos problemas do petróleo como as que assistimos atualmente será, portanto, algo que teremos de aceitar por mais um bom tempo.

Isso porque o mundo não aceita parar de crescer e o desenvolvimento, antes de ser um problema econômico, é um problema termodinâmico. Qualquer sociedade (não importa se tribal ou altamente tecnológica) precisa capturar a energia dispersa em seu habitat (na forma de madeira, grãos, frutas, animais, vento, água, carvão ou petróleo) e encontrar formas tecnológicas de dissipá-la na produção dos bens e serviços para sua sobrevivência. Para o nômade, até há pouco mais de 10.000 anos, a energia era basicamente a sua caça e a madeira e o fogo para cozinhá-la e torná-la mais palatável e digerível. O homem moderno, concentrado em aglomerações urbanas, tem como sua maior fonte de energia o petróleo.

O problema é que "descobrimos" que essa mesma energia que nos deu tanta abundância desde meados do século 18 (a partir de quando a população mundial foi multiplicada por 6; os bens e serviços "per-capita" por 7 e a esperança de vida ao nascer passou de 35 para 70 anos desde 1750) é a mesma que pode tornar nossa vida insuportável na face da Terra, pelos efeitos que estão produzindo no aquecimento do planeta os gases de efeito "estufa", principalmente o dióxido de carbono, CO2.

Estamos diante de um impasse, porque a produção de bens e serviços (o PIB) gera, simultaneamente, CO2-eq, todos os gases de efeito estufa medidos como equivalentes de CO2. O PIB e CO2-eq são irmãos siameses. São produção conjunta! Da mesma forma que não se pode produzir carne bovina sem produzir couro! Logo, o que importa para reduzir o aquecimento global é reduzir a relação CO2-eq/PIB, ou seja, a quantidade de CO2 por unidade do PIB produzido.

É o reconhecimento desse fato que está levando à corrida dos biocombustíveis para a descoberta de tecnologias que, paradoxalmente, serão a volta às energias que usamos ao longo da nossa história: a madeira, a água e o vento. A batalha é dura. O petróleo que a Natureza produziu em bilhões de anos tem uma concentração de energia ainda insuperável: há 100 anos, a relação entre energia gerada de petróleo e energia gasta para produzi-la era da ordem de 80 para 1. Hoje, devido aos aumentos de custos e riscos é ainda de 15 para 1. No etanol da cana de açúcar é de 8 para 1.

A substituição será lenta. A não ser por uma descoberta revolucionária, mesmo com grande esforço de pesquisa, os biocombustíveis não serão mais de 15% a 20% da energia em 2050. É por isso que o petróleo, provavelmente, será ainda a maior fonte de energia. A sua exploração, entretanto (além dos problemas geopolíticos) encontra cada vez maiores obstáculos.

Apenas para dar um exemplo: a exploração de petróleo no arquipélago de Abrolhos, no litoral da Bahia, foi suspensa por uma liminar obtida pelo Ministério Público em 2003. Ela só foi cassada em dezembro de 2010!


O autor, Antonio Delfim Netto, é professor emérito da FEA-USP, ex-ministro da Fazenda, da Agricultura e do Planejamento - contatodelfimnetto@terra.com.br

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