Diariamente, Adriano (nome fictício) se via em meio a um círculo vicioso. De casa para o escritório e de volta para casa, sempre carregava a mesma "mochila de pedra" nas costas, que acusava o peso de infelicidade acumulada por se sentir obrigado a trabalhar com o que não gostava mais. Foi assim durante anos, até descobrir um dia que a chave para a "libertação" estava dentro de si mesmo: atitude.
Adriano mudou de emprego e trocou a tranquilidade financeira que a sociedade em empresa sólida no ramo de comunicação lhe propiciava pela incerteza de um novo empreendimento.
Confiante, apostou. Foi chamado de maluco (até dentro de casa), sentiu a angústia de trocar o aconchego do hábito (por mais que nos queremos nos livrar da rotina, nos escoramos nela também) e hoje comemora o fato de aliar o mesmo sucesso profissional com "essa tal felicidade" que todos procuram.
Foi somente com iniciativa que Adriano, cuja verdadeira identidade é resguardada a pedido dele, abriu um novo leque de possibilidades na vida que, até então, para ele, parecia emparedada numa rotina de dissabores e reclamações. "Chegava em casa infeliz, todos os dias. Ia conversar com a esposa e era só queixa, lamentação", recorda. "Eu ficava transtornado, não estava bem", reconhece.
Ousadia (não confundir com inconsequência) é fundamental para a vida, em qualquer campo, atesta a psicologia. Contudo, desviar a rota não é simples e requer preparo emocional.
Antes de rumar para o desconhecido, alertam especialistas, por mais paradoxal que possa parecer, é preciso conhecer a si próprio. "Tomar iniciativa é fundamental, mas alguns fatores precisam ser considerados. Situações precisam ser muito bem avaliadas", pondera Arnaldo Vicente, psicanalista cognitivo.
Especialista no ramo que, em termos gerais, estuda os processos mentais inerentes ao comportamento, o terapeuta arrola dois principais propulsores de mudanças bruscas na vida de um indivíduo: se livrar de algum tipo de desconforto e busca por melhora, independentemente se o cenário é positivo ou negativo.
Angústia
Em ambos os casos, a angústia é inevitável. A sensação, acompanhada pelo medo, é inerente às mudanças, observa o psicoterapeuta, do Centro de Terapia Cognitiva (CTC) de Bauru. Contudo, ressalva Vicente, o "monstro" não pode ficar maior do que é e as ferramentas para superá-lo devem sempre ser priorizadas. "O medo é importante, desde que a análise leve em conta os recursos que o indivíduo dispõe para enfrentar as situações", pontua.
Colocar medo, dúvida, mas sobretudo a certeza da vontade de mudança, ciente de que dispõe de ferramentas racionais para isso, numa mesma balança. Esta é a chave recomendada pela psicologia e colocada em prática por pessoas iguais à hoje cabeleireira e maquiadora Vilma Chicoti de Souza Posse.
Professora da rede estadual por 13 anos, ela deu novo rumo à vida profissional ao admitir para si mesma que não estava feliz. Correu atrás do sonho e hoje encontrou a realização como maquiadora e cabeleireira. "Não sentia o meu valor reconhecido, aquilo não convinha com meu estado de espírito", classifica.
Após despertar para a necessidade de agir contra a própria insatisfação, ela seguiu com a rotina dentro das salas de aula, mas consciente de que a situação, a partir de então, era transitória. "Enquanto trabalhava como professora, nas horas vagas, saía com a maleta na mão e corria atrás da clientela", conta ela, que, no início e, de porta em porta, chegou a fazer unhas de graça, para cativar freguesia.
A coragem refletiu-se em crescimento no novo ramo e consequente abandono da carreira pública. "Me chamaram de doida. Troquei um quadro estável para correr riscos. Não me arrependo", orgulha-se Vilma, que descarta voltar para frente da lousa. "A não ser para ensinar sobre técnicas de embelezamento. Por que não?", projeta.
Racionalidade
Tomar ciência que a situação precisa mudar e agir não implica em jogar tudo para o alto sem medir as consequências. Adriano, personagem que abre esta matéria, estava descontente com o trabalho, tinha ideias de como repaginar a vida profissional. No entanto, sabia que não poderia simplesmente abandonar a rotina sem antes preparar o terreno.
Divorciado, mas com dois filhos pequenos para sustentar, ele então começou a traçar as metas da virada com cautela e planejamento. "Antes de tudo, me conheci melhor para buscar o que realmente fazia sentido na minha vida", relata. "Tenho fascínio por conhecimento e no meu trabalho antigo era tudo ?para ontem?, sem pensamento de longo prazo", detalha ele, afirmando que se encontrou com suporte psicológico.
Desde o segundo semestre do ano passado, Adriano se empenhou numa nova empresa. Após sair de uma bem sucedida sociedade no ramo da publicidade, entrou de cabeça no projeto de gestão da comunicação, ramo em que se especializou antes da grande decisão. "Toda a confiança surgiu no processo de análise, foi fundamental", credita. "Confiei nas ferramentas que eu tinha, meu conhecimento, para dar certo", completa.
Hoje, ele celebra o bom começo da nova empresa, com contratos firmados a importantes empreendimentos comerciais do Estado. "Tudo aquilo em que eu acreditava começa a se confirmar. As empresas perceberam o valor da gestão da comunicação", comemora o profissional do ramo que, em miúdos, elabora estratégias de identificação entre determinada empresa ou marca com o público.
Recentemente, a área ganhou na Universidade de São Paulo (USP) o primeiro curso de pós-graduação aberto no País. "Luzes foram jogadas sobre as possibilidades que eu tinha", reforça.