Articulistas

A cara do tio Oscar

Zarcillo Barbosa
| Tempo de leitura: 3 min

Quem tiver paciência para esperar até depois do Big Brother vai ver um show típico das circunstâncias de Hollywood. A Academia de Artes e Ciências Cinematográficas realiza na noite de hoje a entrega do Oscar aos melhores filmes, diretores, artistas e pessoal técnico, versão 2011. A cerimônia de premiação no Teatro Kodak, em Los Angeles, tem todo um glamour, com as artistas desfilando sobre o tapete vermelho da entrada, exibindo roupas e jóias emprestadas dos grandes estilistas. A transmissão via tevê é feita para 200 países. Assistida por um público calculado em 1 bilhão de pessoas. Rivaliza-se com uma final da Copa do Mundo de Futebol. Na Mongólia, na China, na Papua Ocidental, em qualquer parte do mundo existe uma expectativa em torno dos ganhadores e do próprio show, embora muitas vezes as piadas, "tiradas" e trocadilhos dos apresentadores sejam intraduzíveis por criticar o modo de vida da sociedade norte-americana.

Em qualquer parte do mundo, sob qualquer cultura, para as pessoas o cinema é mais importante que a realidade próxima. Afirmava Pedro Almodóvar que "o mundo ficaria louco sem a ficção". É um fato necessário à vida. Quando essa ficção é ilustrada com sons e imagens, atingindo vários sentidos de uma só vez, possibilita uma catarse e a purgação dos males que afligem os humanos. A vida vivida não é suficiente. A realidade é incompleta. As telenovelas fazem sucesso em todo o mundo porque preenchem uma necessidade do público faminto de ficção. Isto talvez explique por que Hollywood continua imperando no mundo da ficção e a Academia cumpra a 83º edição da festa de premiação. O prêmio foi criado em 1929 por Louis B. Mayer, chefe dos estúdios da Metro-Goldwyn-Mayer. Ele que inventou o "sistema estrelar" que apresentava os artistas de Hollywood como uma espécie de semi-deuses. Graças a toda uma estrutura de marketing eram dadas respostas às cartas e encaminhadas fotos autografadas para os fãs. As colunas de fofocas dos grandes jornais eram municiadas com factóides sobre os artistas. Quem juntou e quem separou as escovas de dente. Quando Mayer encomendou o troféu da premiação alguém achou que a estatueta dourada tinha saído com a cara do tio Oscar. Daí o nome. Até 1940 os jornais divulgavam com antecedência os premiados. Depois é que os envelopes passaram a ser abertos durante a cerimônia. Quando Marlon Brando ganhou o Oscar pela sua interpretação em O Poderoso Chefão (1973), mandou uma índia para receber o prêmio em seu lugar e fazer um discurso criticando a maneira como os Estados Unidos e Hollywood discriminavam os nativos. Nos filmes, quando o índio ganha, o fato é chamado de "massacre". Quando o branco ganha, "grande batalha". Descobriu-se, depois, que a "índia" era uma atriz, mas o impacto foi conseguido.

Desta vez não vamos ter as câmeras focalizando Robert de Niro e Meryl Streep em suas poltronas, à espera de mais um Oscar. Colin Firth, desconhecido para nós e Natalie Portman são os preferidos, disparados. O primeiro fez o papel principal em O Discurso do Rei, de Tom Hooper, uma resposta dos conservadores ao avanço da influência da crítica às hordas da Academia. Avatar e Bastardos Inglórios, do ano passado, eram muito libertinos. Infelizmente, a história do rei da Inglaterra e sua luta contra a gagueira ainda não foi exibido em Bauru. Por ser virtual ganhador do Oscar o aluguel do filme é mais caro e, com isso vamos ficando para trás. Há quem pense que Bauru é ainda uma província. Exibam coisas boas que o povo vai. Natalie Portman teve uma atuação incrível e ousada em Cisne Negro - é favorita.

O Brasil não conseguiu colocar Tropa de Elite 2 entre os candidatos de Melhor Filme Estrangeiro, mas pode ganhar com o documentário Lixo Extraordinário, realizado durante dois anos no maior aterro sanitário do mundo: Gramacho, na periferia do Rio de Janeiro. O artista plástico Vik Muniz fotografa catadores de materiais recicláveis e traz à tona a dignidade e o desespero desses miseráveis quando convidados a reimaginar suas vidas fora daquele ambiente.

Para os pobres, a ficção é uma forma de sobreviver.


O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista colaborador do JC

Comentários

Comentários