Bairros

Os efeitos do problema

Wanessa Ferrari
| Tempo de leitura: 7 min

Vila Tecnológica

O sonho de ter a casa própria tornou-se um pesadelo para os moradores da Vila Tecnológica. Isto porque, tão logo foi inaugurado, em 1996, o bairro com 101 residências construídas com 12 tipos diferentes de materiais já começou a apresentar problemas.

As rachaduras foram o primeiro sintoma diagnosticado nas casas. O que, para os mutuários, era um sinal de que o material utilizado no empreendimento tinha baixa qualidade. Porém, com a constante visita de engenheiros e peritos, o real motivo do problema foi revelado: o bairro todo foi construído sobre uma antiga erosão, onde chegou a funcionar um lixão que foi desativado. Valdir Bonifácio, 52 anos, foi um dos primeiros moradores a encostar o caminhão de mudança na quadra 1 da rua Abílio Zambonato, a primeira do bairro. De lá para cá, quase 15 anos se passaram e, atualmente, ele luta na justiça para sair do local.

"Ficamos sabendo que aqui era um antigo lixão somente depois que compramos a casa e os problemas começaram a aparecer", conta, mostrando as rachaduras na parede e o desnível nas portas e janelas.

De acordo com ele, nos últimos meses a situação piorou e os problemas se tornaram ainda mais intensos. "Tem noite que a gente está dormindo e escuta um estalo. Minha esposa fica com muito medo. O pessoal da Companhia Habitacional de Bauru (Cohab) diz que é por causa do resfriamento da temperatura, que provoca dilatação, mas eu duvido", conta, desconfiado.

Para amenizar a situação, Valdir passa tinta nas paredes na tentativa de deixar as rachaduras menos aparentes. Na rua onde ele mora, casos iguais se repetem. De acordo com moradores do local, as casas de madeira, que ficavam na parte dos fundos do bairro, já foram demolidas por ordem judicial. Estavam comprometidas, correndo o risco de desabamento.

Em 2006, por meio de uma ação do Ministério Público Federal, a Justiça deferiu uma liminar que dava aos mutuários o benefício de não pagar mais as parcelas do financiamento enquanto o processo não fosse concluído. Acostumados com o fato de viverem sobre uma antiga erosão, Valdir e os vizinhos aguardam pacientemente por uma resposta.


Pousada da Esperança

Duzentos metros de comprimento, por 15 de largura, sete de profundidade e 21 mil metros cúbicos. De acordo com um relatório emitido no ano de 1993 pelo Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT), estas eram as medidas de uma erosão localizada na Pousada da Esperança 1.

Atualmente, quem passa pelo local não tem dimensão de como o tal buraco era antigamente. Isto porque a erosão foi aterrada com entulho e hoje abriga árvores e até mesmo casas no entorno.

Segundo os moradores do local, as casas não apresentam problemas de trincas e rachaduras, tanto é que cada vez mais as residências estão sendo instaladas nas proximidades da cratera.

O problema maior fica por conta da infraestrutura do bairro, já que com as chuvas os arredores da cratera também estão se rompendo.


Núcleo Edson Francisco Silva

Basta falar a palavra erosão para que Ivone Pereira, moradora da quadra 1 da rua Moacir Rodrigues Canhas, no Núcleo Edson Francisco Silva, tenha arrepios. Isto porque, desde que se mudou para o bairro, há 18 anos, ela tem tido problemas causados pelo que os vizinhos chamam de buracão.

"A primeira coisa estranha que notei foi que o piso do banheiro estava estranho. Chamei o pedreiro e ele se assustou com o que viu, estava tudo oco! Depois começaram a aparecer rachaduras nas casas, o telhado começou a dar problemas e aí não parou mais", reclama.

Ela conta que problema do tipo são frequentes também nas casas das redondezas. Por conta disso, os mutuários do local entraram com uma ação civil pública pedindo o ressarcimento das despesas e providências.

"Foi quando descobrimos que aqui era um antigo buracão e que, para construir o bairro aterraram com entulho. Mas, além disso acho que a qualidade do material usado nas casas não era lá aquelas coisas", avalia.

Alguns metros para baixo de sua casa, uma cratera denuncia o passado do bairro. O local é uma grande erosão, aterrada em parte com entulho despejado no local pelos próprios moradores.

"É uma tristeza só. Quem mora aqui em baixo sofre com essa erosão. Quando chove a terra leva tudo pra baixo, daí aparece todo tipo de bicho, inclusive cobras", conta.

Já na rua Sebastião Joaquim Sampaio, um grande buraco no asfalto dá a dimensão de como está o solo por baixo das casas do núcleo: oco.


Mary Dota

Márcia Neide Barcelos mora na quadra 2 da rua Ruth Rodrigues Maduro dos Santos, na parte baixa do Núcleo Mary Dota, há cinco anos. Escolheu viver no bairro por conta das características positivas do local, entre elas o comércio, a localização e a fama da boa vizinhança.

Na hora de comprar a casa, Márcia buscava tranquilidade. Escolheu cuidadosamente o imóvel onde viveria com suas duas filhas. Logo nos primeiros dias morando na casa nova notou que a residência apresentava alguns problemas estruturais, como uma grande rachadura no muro e o terreno bastante irregular e decidiu fazer uma pequena reforma.

"Quando o pedreiro começou a mexer aqui percebi que tinha algo errado. Ele me chamou quando estava quebrando o chão do quintal e disse que estava tudo oco debaixo da minha casa. Foi quando, por meio dos vizinhos, fiquei sabendo que o problema era comum nas casas das redondezas e era consequência dos terrenos estarem localizados em cima de uma antiga erosão, aterrada com lixo", conta ela.

A reforma foi feita, mas o problema não foi resolvido. As rachaduras voltaram a aparecer e, toda vez que dá descarga, Márcia escuta a água correndo por debaixo da terra e se recorda de que vive em um terreno impróprio.

Ela entrou com uma ação na Justiça pedindo a solução para seu problema. Seus vizinhos, um na parte de cima e outro na parte de baixo de sua casa, já foram retirados do local.


Jardim Godoy

Descobrir que a casa foi construída em cima do terreno de um antigo depósito de lixo não foi nenhuma surpresa para Rosana da Silva Godoy. Ela, que mora há um ano na quadra 7 da rua Napoleão Bianconcini, já sabia do fato antes mesmo de comprar o terreno.

"Quando eu era criança, morava algumas quadras para cima daqui e me recordo de ter frequentado o antigo lixão muitas vezes em busca de doces. Pelos meus cálculos, o buraco terminou de ser aterrado e foi desativado quando eu tinha uns 8 anos", recorda-se.

Porém, o que Rosana não desconfiava é que o passado do terreno poderia lhe trazer problemas, que apareceram logo no início da construção.

"Foram removidos quilos e mais quilos de lixo quando os pedreiros cavoucavam a terra para alicerçar a casa. Até seringa foi encontrado", conta.

Além disso, a construção levou mais tempo que o previsto. Isto porque na parte traseira da residência brotava uma mina de água, problema que os pedreiros tiveram de contornar. Depois da casa pronta, as rachaduras começaram a aparecer.

De acordo com Rosana, o fato do local ter sido um antigo lixão foi colocado como algo secundário pela imobiliária que lhe vendeu o terreno, pelo qual pagou R$ 5 mil. Benefícios como a proximidade com a Nações Norte, avenida em construção, o valor do terreno e a alegação da valorização da área foram colocados em primeiro plano.

"Tanto é que os terrenos na parte de trás da minha casa, onde ficava o centro do buraco, também estão loteados e à venda", afirma.


Referência

Em 1968 as erosões já eram um grande problema para o município e por conta disso foram objeto de estudo do primeiro Plano Diretor da cidade, realizado pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAU-USP). Devido a elas, Bauru é conhecida entre os geógrafos como a capital nacional da erosão urbana.

De acordo com pesquisadores da área, o indesejável título foi conquistado por uma combinação de fatores. Entre eles o fato do solo do município ser arenoso, o que significa que apenas a parte superficial da terra apresenta a quantidade necessária de dióxido de ferro, responsável pela boa sedimentação do terreno.

"Quando Bauru começou a ser loteada a todo vapor, na década de 50, o que imperava era a necessidade de progresso, o que descartou os cuidados necessários com o solo. A grande quantidade de vias e estradas de ferro abertas no município abalou a frágil estrutura do nosso terreno, provocando grandes erosões", explica o geógrafo José Aparecido dos Santos.

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