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Gaddafi, a cara da Líbia

Luís Paulo Domingues
| Tempo de leitura: 4 min

A Líbia é um país surrealista. Ela foi colônia da Itália até a Segunda Guerra Mundial. Na época, os italianos quiseram formar um "portão" no Mar Mediterrâneo - a Líbia de um lado e a Itália do outro. Um lugar coberto por desertos seria, então, usado para dominar o mar. Assim que se tornou independente, a Líbia foi governada pelo Rei Idris I, que não fez muita coisa. O povo se revoltou e colocou o Muammar Gaddafi no lugar do rei. Só que isso foi em 1969 e ele está lá até hoje. Veio pra ficar. Tanto isso é verdade, que Gaddafi não é o presidente do país (lá não tem presidente) e sim o "Líder Fraternal e Guia da Revolução".

Um dos problemas de Gaddafi é o estético. Nos anos 1970, ele aderiu ao visual da década e nunca mais o abandonou. Gaddafi se veste, até hoje, com ternos e uniformes cortados no estilo da década de 70. Parece o professor Girafális, no tamanho, no físico e nas roupas. Suas fotos em uniforme militar de gala são impagáveis. Tem uniforme verde claro, cor de vinho, azul calcinha... tudo adornado com aqueles galardões e medalhas imensas, com um quepe igualmente gigante, que fica por cima de uma cabeleira rebelde, semelhante às da dupla sertaneja "Leo Canhoto e Robertinho". E de Ray Ban.

Ultimamente, deu pra se vestir com roupas de beduíno do Saara. Também de Ray Ban. Dizem que se retira para sua tenda no deserto e fica orando, por dias. Agora, pense bem: Dá pra acreditar num cara desses? Porém, mesmo com todo esse comportamento de Didi dos Trapalhões, Gaddafi colou sua imagem na de seu país de tal forma, que agora o povo da Líbia tem um grande problema nas mão. Se o Gaddafi não cair, a Líbia não é mais a Líbia. Terão que mudar o nome do país.

Fico imaginando se foi a mente brilhante de Gaddafi que escolheu a bandeira da Líbia. A bandeira da Líbia é só um pano verde. Não tem uma listra, um símbolo, uma estrela, nada. Nem mesmo uma galinha, como tem a de Uganda. A bandeira da Líbia é só verde e pronto. Coisa de ditador decidido. "Líder Fraternal, como será nossa bandeira?", pergunta um escravo. "Verde", diz Gaddafi. "Sim, mas verde com quê? Uma estrela, um símbolo, um..." Não. "Só verde."

Derrubar Hosni Mubarak tudo bem, o Egito existirá sem ele. Derrubar Gaddafi é acabar com a Líbia - pelo menos com "esta Líbia" que está aí. Quem olharia para ela se não fosse Gaddafi? Seria como os Estados Unidos sem a estátua da liberdade, uma França sem Paris, Portugal sem bacalhau, um Brasil sem Sarney. Não existe.

Na página da Líbia na Wikipédia tem uma foto do país sendo bombardeado por zepelins italianos. Imagine a cena: "Fujam! Os zepelins italianos estão chegando!" Não tem o mesmo peso que: "Fujam! Os bárbaros estão chegando!" Ou: "Fujam! Os russos estão vindo!"

O que é "menos pior"? Enfrentar um russo, um ostrogodo ou um italiano? Um italiano, é claro. Imagine, então, ser colonizado por italianos, com aquelas cantorias e aquele jeito de falar. O torturador vai te espancar e fica gritando: "Mamma Mia! Ma quê? Porca Miséria!"

Nestas alturas do campeonato, o melhor que os líbios poderiam fazer é arrumar um lugar para o Gaddafi no meio artístico. Seria um bom apresentador de programas no estilo Silvio Santos. Mas engana-se, contudo, quem acha que Muammar está lá de brincadeira, com esse comportamento freak. Ele sabe exatamente o que faz. Domingo, seu filho, apareceu em pronunciamento na TV falando (não em árabe, mas no dialeto líbio) que os inimigos da revolução querem derrubar o governo e que, se eles saírem, o país entra em guerra civil.

E é verdade. Se Gaddafi sair, há grandes possibilidades de a Líbia entrar em guerra civil e se esfacelar em pequenas regiões feudais, voltando a ser o que era antes de 1952. Eles não têm outro líder. Ou melhor, Muamar Gaddafi construiu com maestria a imagem de líder único. Nem é bom dizer isto aqui, porque jornalismo é coisa de democracia e etc, mas talvez a Líbia seja ruim com Gaddafi, e pior sem ele. Igual ao Iraque sem Saddam.


O autor, Luís Paulo Domingues, é colaborador do Opinião

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