Porto Alegre - O bancário Ricardo Neis, 47 anos, que atropelou dezenas de ciclistas em Porto Alegre, disse ontem à Polícia Civil que acelerou o carro contra a multidão para "evitar ser linchado". Pelo menos 16 pessoas foram atropeladas - oito delas foram parar no hospital com cortes e fraturas. O episódio aconteceu na noite da última sexta-feira.
Na versão que apresentou à Polícia Civil na tarde de ontem, o bancário alega que estava na companhia do filho de 15 anos e que os ciclistas começaram a bater no carro. "Durante todo o caminho, eles foram batendo no carro. A partir de um momento, vi uma brecha e passei um pouco de alguns deles (ultrapassou), eles se enfureceram e começaram a agredir violentamente o carro. Quebraram o espelho, deram vários socos, jogaram a bicicleta por cima", acusou.
Ele diz que arremeteu com o carro contra os ciclistas por medo. "Naquela situação, eu me desesperei e tinha que sair dali o mais rapidamente possível para evitar o linchamento", afirmou à imprensa na saída da delegacia. Após ser ouvido, na companhia de dois advogados, o atropelador foi liberado pela polícia. O delegado que investiga o caso, Gilberto Almeida Montenegro, não quis dar entrevista.
A Polícia Civil não informou como vai enquadrar criminalmente a conduta do motorista. Ele pode responder por lesão corporal ou por tentativa de homicídio contra os ciclistas.
Vídeos
Os vídeos publicados no YouTube mostram imagens captadas por um dos participantes no momento do atropelamento. No vídeo de nove minutos e cinco segundos, após atropelar as duas pessoas, que voam por cima do capô, o veículo continua acelerando, atinge várias outras e foge. A cena dura cerca de quatro segundos.
Depois dos atropelamentos, o cenário de caos: bicicletas retorcidas nas ruas, pessoas sangrando no chão e muitos gritos pedindo para chamar ambulâncias e a polícia.
Num outro vídeo de quatro minutos e 29 segundos, com legendas em inglês, além da cena captada no anterior, há imagens obtidas por um outro ângulo. Do alto de um edifício, um cinegrafista amador consegue flagrar o carro avançando contra a multidão.
Os dois vídeos reforçam a versão das vítimas segundo a qual não foi acidente, mas um atropelamento proposital.
Feridos
Os relatos dão conta de que bicicletas voaram, ciclistas se chocaram uns contra os outros e muitas pessoas caíram no chão, feridas. O motorista fugiu do local.
"Tinha muita gente, inclusive pais com crianças em cadeirinhas. O atropelamento foi proposital porque ele vinha várias quadras atrás, acelerando, xingando, buzinando. Depois que ele passou, virou um cenário de guerra, com bicicletas retorcidas e muita gente sangrando pelo chão", contou o empresário Marcelo Guidoux Kalil, 31 anos, que integrava o grupo.
Três ambulâncias estiveram no local. Dezesseis pessoas ficaram feridas, na contagem do grupo. Parte delas foi atendida no local e outras oito foram encaminhadas ao hospital com ferimentos que iam de cortes até fraturas.