Polícia

Homicídio: maioria tem vínculo com drogas e passagem criminal

Tisa Moraes
| Tempo de leitura: 6 min

Homens entre 20 e 35 anos com antecedentes criminais, vínculo com consumo ou tráfico de drogas e oriundos de bairros periféricos são mais suscetíveis a morrer violentamente do que o restante da população de Bauru. Este é o perfil das vítimas de assassinato nos últimos dois anos e nos primeiros meses de 2011, conforme estudo realizado pelo Comitê de Controle de Homicídios da Polícia Militar (PM) e divulgado com exclusividade pelo Jornal da Cidade. A partir do levantamento, o grupo pretende desencadear ações para reduzir os índices deste tipo de crime na cidade.

Neste sentido, uma das principais preocupações é combater o tráfico de entorpecentes, já que o envolvimento das vítimas - e, na maioria das vezes, também dos autores - com o consumo ou comércio de drogas é cada vez mais frequente. Impulsionado em grande parte pela popularização do crack, esta relação se tornou intensa nos últimos anos.

Para se ter uma ideia, dos sete homicídios registrados em 2011, quatro vítimas possuíam vínculo com algum tipo de entorpecente. O número já equivale a quase metade das nove pessoas assassinadas identificadas como usuárias ou traficantes em todo ano de 2010. Em 2009, foram seis mortos nestas circunstâncias.

"Notamos um aumento proporcional deste tipo de relação entre drogas e homicídios. É um número que nos preocupa", afirma o coordenador do comitê e comandante da 3ª Companhia da PM de Bauru, capitão Renato Ramos, lembrando que, regra geral, usuários são executados por dívidas de drogas e traficantes são mortos por disputa de pontos de venda.

Segundo ele, em 2011, a única vítima que foge ao perfil traçado pelo estudo é o administrador de empresas Pedro Amaral Júnior, 27 anos, assassinado a tiros dentro da oficina mecânica de sua família, no bairro Vila Bela, em 3 de janeiro, no primeiro assassinato do ano. Até hoje, o autor dos disparos não foi identificado e não há informações concretas sobre o que teria motivado o crime.

"Este caso também é o único registrado contra uma vítima de condição social um pouco melhor. O restante são pessoas oriundas de bairros com uma série de deficiências de infraestrutura e geralmente têm baixa escolaridade. Homicídios do Centro e zona sul, nos últimos anos, é praticamente zero", analisa Ramos.


Sem perspectivas


Na avaliação do professor de psicologia da Universidade Estadual Paulista (Unesp) Celso Zonta, a falta de perspectivas, lazer e oportunidades de trabalho para os jovens de periferia os deixa mais suscetíveis aos atrativos das drogas. E, em meio a um ambiente hostil, a incursão na criminalidade acaba por ser uma consequência difícil de ser evitada.

"O sujeito precisa sustentar o vício, então acaba se submetendo a situações de risco para adquirir recursos. Desta forma, ele pode morrer porque roubou ou porque não pagou a dívida", observa, salientando que Bauru acompanha um fenômeno que vem sendo registrado no País todo. "Ainda que Bauru seja um centro rodoferroviário, o que facilita as rotas de traficantes, o Brasil como um todo tem assistido a uma escalada da violência pelo uso de drogas", diz.

Embora lembre que existam registros do uso de alucinógenos em praticamente todas as civilizações da história, Zonta ressalta que eles nunca foram tão largamente consumidos como agora. Além das falhas nas políticas públicas adotadas até agora, ele credita o uso intenso às pressões da sociedade moderna.

"Estamos em um mundo mais exigente e competitivo, onde tudo é mais efêmero e as pessoas se sentem estimuladas a buscar felicidade a qualquer custo. Neste sentido, infelizmente, a droga desempenha muito bem o seu papel", pondera.

Ainda como agravante para a alta incidência de homicídios na cidade, ele cita os complexos penitenciários construídos em Bauru ao longo das últimas décadas, de onde constantemente saem - seja em saídas temporárias, seja por meio de fuga - criminosos que ainda não pagaram sua dívida para com a sociedade. "A aplicação automática dos indultos, sem uma avaliação coerente sobre as condições do preso, acaba produzindo desvios. Há sempre uma considerável porcentagem que não volta aos presídios e estes são os mais predispostos a retornar a criminalidade", frisa.

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Bares


Entre as medidas que devem ser desencadeadas pelo Comitê de Controle de Homicídios está a parceria que deve ser estabelecida com a Secretaria Municipal de Planejamento (Seplan) para notificar todos os 102 bares que tiveram registros de criminalidade no ano passado. Como, não raro, este tipo de estabelecimento é pano de fundo para a ocorrência de assassinatos, a ideia é intensificar o policiamento ao menos nos pontos localizados em bairros periféricos. Caso não possuam alvará de funcionamento ou não estejam cumprindo à risca a Lei dos Bares, poderão ter as portas fechadas.

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Índices estão próximos do recorde de 2010


O número de homicídios registrados em Bauru de 1 de janeiro a 21 de fevereiro de 2011 praticamente se equiparou à quantidade de mortes violentas contabilizadas no mesmo período do ano passado. Até ontem, ocorreram sete assassinatos na cidade, ante os oito registros de 2010.

A estatística é preocupante porque, no ano passado, o índice de homicídios aumentou cerca de 60% em relação a 2009, segundo dados da Secretaria de Segurança Pública. De 28 mortes registradas naquele ano, o número subiu para 45 ? o terceiro pior índice dos últimos 10 anos - e extrapolou em 10 casos o patamar considerado aceitável pela Organização das Nações Unidas (ONU) para uma cidade do porte de Bauru.

Outro dado nada animador é que, dos sete assassinatos registrados em 2011, somente um foi esclarecido até o momento. No último dia 15, o pedreiro Luiz Antonio Santana Nunes, 50 anos, se apresentou à polícia e confessou ter matado Elson Ramos de Freitas, 35 anos, no início de fevereiro, no Ferradura Mirim. A vítima, além de ser usuária de drogas, tinha uma extensa ficha criminal, com tentativas de homicídios e furtos. À polícia, Nunes informou ter assassinado Freitas a facadas e com um tiro porque ele teria desrespeitado sua esposa.

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Diretrizes


A partir do mapeamento dos locais onde os crimes ocorrem, das motivações ou hipóteses cogitadas para explicar as ocorrências, a intenção da Polícia Militar (PM) é desencadear ações preventivas para evitar que sejam registrados, novamente, índices como os de 2010. "As equipes de Força Tática e Rádio Patrulha serão direcionadas aos pontos mais críticos para a ocorrência desses homicídios que poderiam ser evitados. Continuaremos a realizar nosso trabalho mas, agora, com um novo foco", frisa o coordenador do Comitê de Controle de Homicídios, capitão Renato Ramos.

Ele explica que a PM decidiu centrar esforços no combate à incidência de assassinatos porque eles se tornaram "a principal pedra no sapato" da corporação no ano passado, quando foi registrado o terceiro pior índice da última década. Para tentar reduzir o número de ocorrências ainda em 2011, o comitê pretende estabelecer parceria com outras instituições, como a Polícia Civil, conselhos comunitários de segurança, secretarias municipais, universidades e profissionais e entidades que tenham interesse em contribuir para o trabalho da PM.

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