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Eufemismo dos gastos públicos!

Alberto Consolaro
| Tempo de leitura: 3 min

Quando a professora ensinou as figuras de linguagem me diverti muito e minha preferida foi o eufemismo. O seu uso suaviza os termos desagradáveis, inconvenientes e inoportunos. Para recordar alegremente alguns: desprovido de beleza, faltou com a verdade, entregou a alma de Deus, subtraiu o bem alheio, foi para a casa de Lúcifer, foi morar com Deus, não foi feliz no concurso, enriqueceu ilicitamente e viajou fora do combinado.

Alguns políticos, economistas e comentaristas ao analisar governos ressaltam veementemente que se deve investir em saúde, educação, segurança pública, ciência, inovação, na prevenção de enchentes e outros desastres. Para a população estas palavras são compreensíveis pois remetem diretamente ao seu cotidiano e necessidades. As análises são bem fundamentadas e ressaltam que não adianta construir escolas, hospitais e os postos de saúde semter qualidade de serviços, atender bem e oferecer o melhor para o cidadão; para isto servem os impostos.

As reportagens registram hospitais terminados e não equipados. As vezes equipados, mas sem atender ninguém por falta de servidores, ou então subutilizados pela falta de recursos humanos. Outras denúncias passam por professores que faltam, profissionais de saúde atrasados e que saem mais cedo. Todos mal remunerados. Em artigos e seminários específicos reclama-se muito que a ciência e a inovação deveria ser maior, mesmo com os grandes avanços dos últimos dez anos. Reclama-se muito da falta de mão de obra qualificada para ocupar os postos de trabalhos graças ao incremento do desenvolvimento.

Outra reclamação comum pede um serviço mais "refinado" de meteorologia para antecipação de tragédias. Que os serviços de defesa civil sejam bem equipados e com recursos humanos treinados, que os bombeiros sejam valorizados. Também se proclama "aos quatro ventos" que a polícia deva ser eficiente, com policiais e militares das forças armadas bem treinados e remunerados para que não haja qualquer estímulo a "rendas paralelas" que possam conflitar com o interesse da população.

Ao ouvir tais declarações não consigo deixar de lembrar de minhas aulas sobre figuras de linguagem como o eufemismo. Os mesmos comentaristas, economistas e políticos em outros programas, com intervalos de horas ou dias, abordam outros assuntos como planejamento, taxa de inflação, índices de juros, balança comercial, bolsa de valores, câmbio e gastos públicos. E por incrível que pareça, não usam os termos: saúde melhor, educação de qualidade, segurança para todos, polícia treinada e em número adequado, fiscalização de nossas fronteiras e nem prevenção de tragédia. Eles colocam todos esses serviços prestados "dentro de um balaio" e o chamam de "gastos públicos".

Para melhorara inflação, balança comercial, taxa de juros e crescimento econômico reclamam, insistem e persistem que se deve cortar os gastos públicos, que os governos gastam muito, dizem "cortem na própria carne" e privilegiem os investimentos. Em outras palavras, sem eufemismo, estão dizendo: construam, façam rodovias e ferrovias, portos e aeroportos, usinas e outros empreendimentos, mas cortem a intensidade e qualidade dos serviços que os governos devem oferecer à população! Dane-se a educação, saúde, previdência e promoção social, ciência e inovação! Cortem o que quiserem mas não mexam nas obras, no cronograma do orçamento para os investimentos como os pagamento às empresas. Na redução dos gastos públicos, os cortes serão nos serviços prestados à população e não nos gabinetes dos dirigentes e políticos!

Deve-se aproveitar o máximo e melhor o dinheiro público, exigir quantidade e também qualidade dos serviços. Que sejam estendidos esses serviços ao maior número de brasileiros necessitados. É óbvio que os investimentos também são importantes e vitais para o futuro do país, mas sem "dourar a pílula", vamos ser explícitos, coerentes e acima de tudo honestos com nossa gente: ao falar que governos precisam cortar gastos públicos, deixem claro que estão pedindo para reduzir gastos com saúde, educação, ciência, tecnologia, inovação, previdência e promoção social. Deixem claro que quando defendem investimentos, se está defendendo o gasto do dinheiro com grandes obras e pagamento para as empresas das quais se beneficiam licitamente e sem eufemismos!


O autor, Alberto Consolaro, é professor titular da USP e colunista de Ciências do JC

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