Relato aqui uma das melhores pescarias que realizei no Pantanal mato-grossense. Foi em março de 2008. Chegamos a Corumbá e fomos direto para o barco onde passaríamos os próximos seis dias sem colocar os pés em terra.
Partimos no início da noite do porto de Corumbá. Após horas de navegação pelo Rio Paraguai, aportamos, pela manhã, no primeiro ponto de pesca, conhecido como Porto Lacerda, onde entramos em uma fazenda particular, atrás dos tucunarés. No local, fisgamos uma grande quantidade de tucunarés azuis na faixa de um a dois quilos.
No segundo dia, optamos pela pesca de peixe de couro. Pescamos apoitados (parado) e conseguimos fisgar várias cacharas dentro e fora da medida, todos devolvidos ao rio.
No terceiro dia, pela manhã, optamos por realizar a pescaria de rodada, que consiste em soltar o barco no meio do rio. O piloteiro controla o barco apenas com o remo. Usamos como isca a tuvira, na tentativa de fisgar o pintado. Pegamos alguns e, à tarde, fomos atrás dos famosos pacus do Pantanal.
Optamos pela pescaria de batida, onde usamos uma vara de bambu. Previamente, tinha levado uns coquinhos como isca. A pescaria consiste em ir batendo a vara com o coquinho como isca, imitando a fruta caindo no rio. Inúmeros pacus foram fisgados. Chegou a dar dor nos braços.
No quarto dia, havíamos chegado à confluência do Rio São Lourenço com o Rio Piquiri. Lá, optamos, novamente, pela pescaria de rodada. Consegui fisgar nesse dia um jaú de 25 quilos. Foi o maior peixe da pescaria.
Depois, subimos o Rio Piquiri, encontramos uma corredeira que se formava após uma curva. Lá, decidimos pescar com tuvira (peixe muito utilizado como isca). Tivemos sorte. Encontramos um cardume de dourado. Conseguimos fisgar vários, na medida e fora da medida, todos devolvidos ao rio.
No anoitecer desse dia, o piloteiro decidiu realizar uma pescaria diferente. Era noite de lua cheia. Ele disse que se tivéssemos sorte poderíamos fisgar peixe de couro no meio do rio. A pescaria consistia em bater a chumbada no fundo e ir arrastando o anzol sem isca, o enrosco era inevitável.
Em um certo momento, senti um tranco na vara. Parecia mais um daqueles enroscos, mas era um peixe que havia fisgado. Ele tomava linha, num certo momento, senti a linha trepidar e o peixe parou de correr, mas fui puxando assim mesmo. Quando chegou na beira do barco vi que era uma cachara. O anzol fisgou nas costas e, com o ferimento, as piranhas atacaram o peixe. Foi o tempo de fisgar o peixe e trazer até o barco. Só veio a cabeça e a carcaça do peixe. O resto tinha sido devorado pelas piranhas.
Já no último dia, na descida pelo Rio Paraguai, decidimos sair para uma pescaria de pouco mais de duas horas, já que, estávamos bem perto de Corumbá. Apoitamos e lá foi a tuvira para o rio. Senti a linha correr, o anzol estava no fundo. Fisguei. Recolhi a linha e, quando o peixe estava bem perto do barco, o nosso piloteiro começou a rir. O peixe começou a roncar. Era o peixe mais odiado pelos pescadores. Um armau. E esse pesava cerca de seis quilos. O piloteiro nunca tinha visto um armau daquele tamanho.
Oscar Kiyoshi Mitiue é produtor rural, funcionário do INSS de Bauru, e é pescador e contador de histórias.