Emoção sem igual. Uma explosão de sentimentos que mistura as batidas do coração com o som contagiante da bateria. Para os carnavalescos e amantes da folia, é impossível falar em Carnaval sem mostrar o brilho da paixão pela maior e mais conhecida festa popular brasileira. E para o carnavalesco Pasqual Storniolo, a emoção não poderia ser menor. "Apaixonei-me pelo Carnaval assim que cheguei em Bauru e tive contato com essa festa sem igual". Por meio de Pasqual, figura querida e emblemática do Carnaval de Bauru, o Jornal da Cidade presta homenagem a todos os sambistas e carnavalescos da cidade e região.
Na diretoria da Escola de Samba Cartola desde 1982 e na presidência desde 1992, Pasqual fala sobre a emoção de entrar na avenida e ver o resultado de um ano todo de trabalho. "Este ano, vamos homenagear as mulheres em nosso enredo. Faremos um belo espetáculo".
Ao abrir sua vida ao Jornal da Cidade, ele também fala sobre as dificuldades enfrentadas pelo Carnaval de Bauru e faz um apelo ao poder público, à iniciativa privada: "O Carnaval de Bauru já foi considerado como um dos melhores do Interior e precisamos resgatar isso".
Homem de muita fé, Pasqual também revela sua admiração pelos amigos e família e fala sobre a vice-direção no Parquinho Futebol Clube e sobre sua vida profissional na política. Leia os principais trechos da entrevista.
Jornal da Cidade - Quando caiu na "folia" pela primeira vez?
Pasqual Storniolo - Foi quando vim de Ibitinga para Bauru, em janeiro de 1975. Nós frequentávamos o Bauru Atlético Clube (BAC), que tinha grandes Carnavais, e fui pegando gosto pela festa e pelo samba. Sou diretor do Parquinho Futebol Clube e, na época, em 1979, um jogador nosso e um torcedor faziam parte da Cartola e nos convidaram para desfilar como um ala. E naquele ano, o Parquinho e sua torcida sairam com 80 elementos. Foi paixão à primeira vista e, desde então, não larguei mais o Carnaval.
JC - Como chegou à presidência da Cartola?
Pasqual - Sou presidente da Escola desde 1992. Como disse, assim que conheci, apaixone-me pela Cartola e me envolvi com o pessoal. A partir de 1982, eu, Paulo Madureira e o pessoal do Parquinho entramos na diretoria. Todo esse pessoal está lá até hoje. Posso dizer que vivo o ano todo de Carnaval. Na verdade, divido meu ano entre a Cartola e o Parquinho, mas na Escola temos uma sede social, que é uma das maiores do Estado de São Paulo, não fica devendo nada para as quadras da Capital do Estado. Então, durante todo o ano a gente sempre está por lá movimentando e festejando. Acaba um Carnaval e já começamos a preparar o outro, tanto é que no último ano a festa acabou e depois de 15 dias o nosso carnavalesco, o Zé Horácio, já estava com atual enredo e desenhos prontos. Este ano, coincidentemente, a terça-feira de Carnaval também é o Dia Internacional da Mulher, então a comissão decidiu pelo enredo que já estava guardado. Seremos muito felizes ao apresentá-lo na avenida. Os 60 minutos de desfile para mim são únicos. Aquela tensão para que tudo dê certo, o corre ali, acerta aqui, os horários...O tempo que passamos na avenida é uma verdadeira explosão.
JC - É possível comparar esses sentimentos com alguma outra emoção já vivida?
Pasqual -Todo Carnaval, quando a porta da concentração é aberta e minha escola entra, eu, o Zé Horácio e o Paulo Madureira entramos saudando o público e os rojões começam a pipocar no céu. Para mim é mais um filho que está nascendo. Eu considero o resultado de nossos esforços e dedicação como o nascimento de um filho.
JC - E por falar em filhos, sua família também é apaixonada pela festa do Rei Momo?
Pasqual - Toda a minha família, tanto os de dentro de casa quanto minhas irmãs, meus irmãos, cunhados e sobrinhos. Nossa Escola é uma família, além da minha, tem outras famílias que fazem parte. É por causa dessa união que nos consideramos grandes. A gente não vai lá apenas para fazer o Carnaval, vamos também para congregar, conversar...Acredito que para uma Escola ser grande ela precisa ser muito família.
JC - De onde vem a admiração pelo seu irmão Márcio?
Pasqual - Meu irmão é o nosso ídolo, não só meu como também de meus outros irmãos. Isso por ser uma pessoa batalhadora e uma pessoa que tem a visão lá na frente. Ele é carismático, caridoso...O Márcio começou a trabalhar com 12 ou 13 anos de idade e nós, mais novos, éramos cuidados por ele. Minha primeira calça comprida foi me dada de presente por ele, entendeu? E até hoje ele é uma pessoa dedicada, tem seis filhos que também são maravilhosos. Ele é o meu maior ídolo.
JC - O que o trouxe a Bauru?
Pasqual -Vim com minha família por causa do meu irmão mais velho que já morava aqui e trouxe todos nós, meu pai, minha mãe, eu e meus irmãos. Meu irmão era funcionário de uma loja de móveis usados e poucos anos depois ele comprou a loja dos patrões e trouxe toda a nossa família. Aqui eu me casei, tive meus filhos e adotamos Bauru como nossa nova casa.
JC - Qual é a sua trajetória profissional?
Pasqual - Então, assim que cheguei a Bauru, trabalhei com meu irmão no ramo de móveis usados até 1979. Depois atuei sete anos em uma empresa de pesquisa de mercado, voltei para o ramo de móveis outra vez e mais tarde entrei para a política. Fui assessor e chefe de gabinete por dois anos. Tenho um grade irmão que é o Paulo Madureira. Os 15 anos em que trabalhei com ele na política aproximaram nossas famílias, tanto é que ele é padrinho do meu filho e em sua homenagem meu filho recebeu o nome de Paulo César. Temos uma amizade muito grande. Foi a primeira pessoa com quem tive uma amizade sólida na cidade.
JC - Durante todos esses anos como carnavalesco, quais foram as maiores dificuldades enfrentadas?
Pasqual - Dificuldades nós temos todos os anos, mas fazemos com tanto prazer e, quando vemos as escolas montadas na avenida, tudo é superado. Mas tivemos muitos problemas, como a falta de barracões, a paralisação que o Carnaval bauruense sofreu durante nove anos...Foram muitas coisas. Mas a união faz com que superemos todas as adversidades.
JC - Com você é Carnaval e futebol?
Pasqual - (Risos) O Parquinho Futebol Clube foi fundado em um parquinho de vila em 1967, por isso o nome. Ele é um dos times amadores mais tradicionais da região. Atualmente sou o vice-presidente do time. Na verdade, a maior parte da diretoria do Parquinho também faz parte da Cartola. Sempre gostei muito de futebol, tanto é que joguei em Ibitinga até os 14 anos de idade, mas depois tive um problema de visão e precisei parar, além de começar a engordar (risos). Cheguei até o Parquinho através da amizade com o Paulo Madureira.
JC - Conquistou muitas vitórias também na vida pessoal?
Pasqual - Olha, tive um problema sério de saúde. Em abril faz dois anos que passei por uma cirurgia no estômago, mas graças a Deus estou bem. Eu fui uma pessoa abençoada e hoje estou pronto para reiniciar minhas atividades profissionais. Uma das coisas que mais gosto de dizer é que a vida tem sentido e Deus abençoa a quem acredita nele.
JC - E qual é o sentido da sua vida?
Pasqual - É viver para os amigos e para minha família. Eu sou um homem apaixonado pela família, pela esposa, filhos, amigos...Acho que uma das maiores virtudes que eu tenho é saber fazer e cultivar grandes amizades.
JC - Quais são os próximos passos profissionais?
Pasqual - Volto a dizer que sou uma pessoa abençoada. Já tenho algumas propostas de trabalho, tanto na política quanto na iniciativa privada. Estou esperando acabar o Carnaval, antes ainda vou até São Paulo para assistir às campeãs na próxima sexta-feira e, quando voltar, vou dar um norte para a minha vida profissional, sempre com o pensamento de que Deus vai escolher o melhor caminho para mim. Posso deixar um recado em relação ao Carnaval?
JC - Por favor!
Pasqual - Quero dizer às pessoas que acreditem no Carnaval, tanto a inciativa privada quanto o poder público. Nossa festa ficou nove anos parada. A Cartola, por exemplo, chegou a desfilar com 1500 pessoas, 150 delas na bateria. Hoje vamos sair com 400 pessoas, ano passado foram 350, com o reinício. Não peço apenas para ajudar a minha escola, pois, como disse, a Cartola é muito família e esse fato segura as pontas. A verba da prefeitura é irrisória para a gente fazer um Carnaval. Ela vai repassar os R$ 15 mil somente após a festa e como é que vamos fazer para comprar o material? Mas reutilizamos tudo o que podemos e também temos a retaguarda de alguns parceiros. É preciso que a iniciativa privada contribua. Nosso trabalho é sério. Para as escolas de samba eu peço que se organizem mais. Acredito que a união do poder público com o privado ajudaria muito. Estamos contanto com a ajuda da Secretaria de Cultura. O Carnaval de Bauru já foi considerado com um dos melhores do Interior e precisamos resgatar isso. Quando ao público, peço que prestigiem os desfiles.