Bairros

Invasoras e forasteiras

Wanessa Ferrari
| Tempo de leitura: 4 min

Elas vieram de outros países e entraram no Brasil sem ter visto nem sequer passaporte. Depois de cruzada a fronteira, espalharam-se por terras verde-amarelas e pouco a pouco chegaram a Bauru, onde fincaram bandeira. Como se não bastasse a invasão, ainda estão destruindo a fauna e a flora nativa, espalhando doenças e deixando na cidade herdeiros indesejados.

A descrição acima pode parecer um tanto assustadora e, ao lê-la, muitas pessoas poderão imaginar que os tais forasteiros são um tipo desconhecido de monstro ou até mesmo homens com nome na lista de procurados pela polícia. Porém, a realidade é bem mais comum que se imagina: trata-se de animais e vegetais considerados pelo município espécies exóticas invasoras.

Uma lista divulgada pela prefeitura em 2009 enquadrou cerca 40 espécies nesta classificação. Entre elas, o mosquito da dengue, animais como os saguis de tufos-pretos e de tufos-brancos, as pombas, os caramujos gigantes africanos e os javalis, além de árvores como a leucena, o chapéu-de-sol e o pinheiro.

"São insetos, animais e vegetais presentes em nosso cotidiano, mas que foram introduzidos em um ecossistema do qual não fazem parte originalmente. Contudo, eles se adaptaram com facilidade e passaram a exercer sua dominância, prejudicando processos naturais e espécies nativas, além de causar prejuízos de ordem econômica, social e de saúde pública", explica Thiago Eduardo Bianconi, analista ambiental do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) de Bauru.

Uma invasora que está dando dor de cabeça para a Secretaria Municipal do Meio Ambiente (Semma) é a braquiária. A princípio, pode até ser difícil associar o nome à espécie, mas com certeza ela já te trouxe problemas ou, pelo menos, te incomodou: é um tipo de grama que tem crescimento muito acelerado e costuma invadir terrenos baldios, calçadas, beiras de estrada e lavouras. Além disso, ela sufoca a vegetação nativa, tomando seu espaço.

"É uma praga. Foi trazida da África do Sul para servir de alimento para o gado mas tornou-se um problema. Além de não ter valor paisagístico, ela representa uma grande despesa ao município. Isso porque, devido ao crescimento acelerado, é preciso fazer o dobro de podas do que seria necessário para manter uma gramínea nativa", calcula Valcirlei Gonçalves da Silva, titular da Semma.

Mas a possibilidade da cidade se ver livre da visitante indesejada é remota, já que ela se propaga rapidamente e está por todo canto. "A braquiária derrama muitas sementes no chão, que acabam germinando e dificultando seu combate. Para erradicá-la, além de podar, é preciso retirar toda a camada superficial da terra onde ela estava e que poderia abrigar sementes", detalha Valcirlei.

Embora saiba-se que não seja pouco, o município não tem uma estimativa de quanto se gasta no combate às espécies exóticas invasoras. Já em âmbito nacional, o governo federal estima que o prejuízo provocado pelas espécies forasteiras ultrapasse os R$ 100 bilhões por ano.

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Guerra declarada

Que bom seria se Bauru pudesse se ver livre dos repugnantes caramujos gigantes africanos, do temível mosquito da dengue, das ameaçadoras abelhas africanas e de muitas outras espécies invasoras que, além de serem um incômodo para a população, ainda representam risco à saúde pública.

Mas o combate a estas espécies não é tão simples quanto se imagina. Ele que esbarra em questões legais, na colaboração em massa da população e em outros fatores que geralmente fogem do controle humano, como evitar a procriação natural das invasoras.

O caminho para a erradicação do mosquito Aedes Aegypt, o transmissor da dengue, por exemplo, é conhecido e depende de ações conjuntas. É obrigação da população evitar o acúmulo de água parada e lixo em terrenos e quintais. Ao governo cabe investir em programas de conscientização e fiscalizar irregularidades.

Já o combate às espécies animais, como o javali, encontrado em Bauru nas imediações do rio Batalha, e os saguis de tufo-branco e de tufo-preto, encontrados nas matas ao redor da cidade, por exemplo, é bem mais complicado.

"Esses animais prejudicam o ecossistema e não têm predadores naturais. Para sobreviver, eles atacam espécies nativas da região, aumentando o risco de extinção delas. Mas não é porque são nocivos à fauna e flora nativa que devemos abrir a temporada de caça. É preciso ter bom senso e pensar soluções inteligentes", explica Valcirlei Gonçalves da Silva, secretário municipal do Meio Ambiente (Semma).

Parte da solução é manter quintais e terrenos baldios sempre limpos, evitando o acúmulo de lixo e água parada. A medida dificulta a aparição de insetos, animais peçonhentos e dos indesejáveis caramujos gigantes africanos.

"No caso dos caramujos, o melhor a se fazer é recolher o animal com o auxílio de uma sacola plástica e descartá-lo no lixo, evitando que ele procrie", orienta José Rodrigues Gonçalves Neto, veterinário do Centro de Controle de Zoonoses (CCZ) de Bauru.

Já os saguis, embora graciosos, também são um problema. Eles atacam ovos de aves e costumam invadir áreas urbanas em busca de comida. Para afastá-los, basta não alimentá-los.

"O mesmo serve para as maritacas e gambás. Além disso, é válido tampar bem qualquer tipo de entrada que dê acesso ao forro das residências, onde estes animais costumam buscar abrigo para procriar. Eles representam perigo porque causam estragos na fiação", alerta Luiz Antônio da Silva Pires, biólogo e diretor do Zoológico Municipal de Bauru.

Para combater espécies vegetais exóticas invasoras o ideal é buscar informação com a Semma antes de realizar o plantio da árvore.

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