Se faltava alguma coisa para o Sambódromo de Bauru esquentar ontem à noite, esse algo mais era a chuva. Ninguém arredou pé do local onde estava, seja na arquibancada ou na concentração só porque alguns abençoados milímetros de água insistiam em encharcar almas.
A promessa dos sambistas foi cumprida. Foram para a avenida com garra, graça e, acima de tudo, com muito samba no pé, a alma de um desfile de carnaval. Mesmo porque ainda não revivemos por completo o auge financeiro das escolas dos anos 90, mas nem por isso carros alegóricos, fantasias e adereços deixaram de exibir a beleza plástica construída por mãos hábeis e incansáveis de carnavalescos das escolas Tradição da Zona Leste, Acadêmicos do Cartola e Coroa Imperial e dos blocos Estrela do Samba, É Isso Mesmo, Unidos do Samba, Beija-Flor/Periferia Legal/Bauru Pela Diversidade.
Os gostosos e fáceis de assimilar sambas de enredo embalaram mentes e corações que esperaram um ano inteiro para vibrar com o ritmo marcado e contagiante das baterias e seus mestres impecáveis. As letras falaram da vida e da natureza, da mulher, de orixás, de água (acertaram em cheio), de Lampião, do arco-íris, boemia, enfim, do cotidiano de um povo que vai buscando seu futuro, aos trancos e barrancos, chorando às vezes, mas se divertindo quase sempre.
Coreografadas cada qual à sintonia com seu enredo, comissões de frente pediram passagem à frente de carros abre-alas; mestres-salas e porta-bandeiras reverenciaram o público ? o maior destinatário da festa. Passistas deslizando no asfalto, com corpos desnudos, eram a própria fantasia do samba e o retrato mais íntimo da beleza da mulher brasileira. Puseram o público a sambar, pular, dançar, festejar, seja lá em que canto do Sambódromo. Enfim, uma festa que celebrou o samba e resgatou a magia dos desfiles, sem dinheiro de bicheiros, sem muitos recursos públicos, sem grande apoio material, apenas feita de suor, lágrimas e um incrível gingado. Foi de tirar a cartola! Hoje tem mais.