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Ex-hippie viaja mundo pregando a Bíblia

Vinícius Lousada
| Tempo de leitura: 4 min

12 de dezembro de 1974. Essa é a data apontada por José Antônio de Souza Filho, 60 anos, como o marco que divide uma revolução em sua vida. Engajado no movimento hippie e usuário de drogas, ele chegou a pensar em cometer suicídio no auge de sua crise, após ter sido internado no hospital psiquiátrico Pinel, em São Paulo. Hoje, viaja pelo mundo levando pregações da Bíblia Sagrada, que para o missionário, foi a responsável pelo maior milagre já visto por ele: a transformação de sua vida.

Nascido em Belo Horizonte, criado e residente na capital do Estado, José Antônio esteve em Bauru na última semana ministrando sobre a palavra de Deus em três igrejas e levando ensinamentos da Bíblia a pacientes internados no Hospital de Base, e contou sua história para o Jornal da Cidade.

"Eu usava cabelo black power, vivia nas baladas, era hippie, mantinha relações sexuais promíscuas e usava vários tipos de drogas sintéticas, além da maconha. Em 1974, sofri overdose e fui internado. Foi lá que, espontaneamente, comecei a ler e procurar sentir as escrituras da Bíblia e minha vida começou a mudar", relata.

José Antônio afirma que, após um mês de internação, teve recaídas e pensou em se matar por não se sentir compreendido pelos que o rodeavam. A situação era ainda mais difícil por conta da rigidez e da intolerância dos anos de chumbo da Ditadura Militar no Brasil.

"Era uma sensação terrível. Foi um período de seis meses de adaptação, sentindo a palavra de Deus, até que deixei tudo aquilo tomar cuida de mim e resolvi dedicar minha vida a isso", conta.

Solteiro e sem filhos por opção, o missionário chegou a ficar noivo na década de 1980, mas desmanchou o compromisso porque sua companheira sentia vergonha por José Antônio fazer pregações em praças públicas. "Eu precisava sobreviver, então tinha que trabalhar, mas se eu tinha duas horas de almoço: uma eu dedicava às pregações, principalmente nas praças. Comecei a fazê-las na década de 1970 e continuo com elas", afirma.


Ibope


José Antônio trabalhou por 12 anos no Instituto Brasileiro de Opinião e Estatística (Ibope) e, mesmo tendo estudado apenas por quatro anos, chegou ao cargo de chefe de operações de pesquisa, mas no ano 2000 largou tudo para se dedicar exclusivamente ao trabalho missionário. Atualmente, vive de contribuições de colaboradores que acreditam e confiam em seu trabalho e da infraestrutura oferecida em suas viagens por uma entidade missionária de Portugal.

"Posso fazer isso também por conta da estabilidade que construí durante anos de trabalho. Tenho casa própria, onde moro com a minha mãe, e não tenho gastos com mulher e filhos. Meu trabalho é voluntário, mas muitas pessoas desejam colaborar e fazem isso de coração", explica.

As praças, onde já pregou e continua pregando, ainda são cenários para as atividades missionárias de José Antônio. No entanto, seu trabalho já ultrapassou fronteiras internacionais e chegou a vários países, especialmente na Europa, onde morou entre 2004 e 2006.

"Trabalhei em diversos países, como França, Itália, Alemanha e Holanda. Fizemos um trabalho na Suíça, onde há alto índice de jovens suicidas. Na Europa, cheguei a trabalhar como ajudante de cozinha para ajudar nas finanças, mas nada é mais recompensador do que ouvir das pessoas que a palavra de Deus, com a minha ajuda como instrumento, mudou suas vidas, da mesma forma como mudou a minha", garante o missionário.

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Sem igreja


Apesar do trabalho missionário levando os ensinamentos da Bíblia Sagrado para pessoas de todo o mundo, José Antônio afirma que não é ligado a qualquer instituição religiosa. "Simpatizo com todas as igrejas que têm como principal objetivo levar a palavra de Deus e não fazer de si um verdadeiro comércio. Já dei palestras em várias, inclusive na Católica, mas não dependo de nenhuma", garante.

Ele lamenta que algumas organizações religiosas não coloquem Deus em primeiro plano e façam de seus fiéis apenas massa de manobra para garantir a manutenção de interesses políticos e econômicos. "Devemos nos comprometer unicamente com o Evangelho de Jesus Cristo. Precisamos combater o clima de leviandade que contamina algumas igrejas", aponta.

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Cura pela fé


José Antônio admite que o vício em drogas é uma doença, o que não acontecia na época em que precisou ser internado por conta do uso de substâncias ilícitas. "Atualmente está sendo propagada a questão da dependência como doença. No meu tempo, quem usava drogas era vagabundo", lembra o missionário.

Ele acredita, porém, que a fé e a palavra de Deus podem salvar dependentes químicos. "A cura só vem com a presença de Jesus Cristo em nossas vidas", diz, afirmando que já ouviu vários testemunhos. "Nós fazemos trabalhos com dependentes, levando alimento aos que vivem nas ruas, mas levando também a palavra de Deus e desenvolvendo atividades de socialização entre eles. Isso é fundamental para o processo de cura", afirma.

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