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Entrevista da Semana: José dos Santos Laranjeira

Ana Paula Pessoto
| Tempo de leitura: 8 min

O artista plástico dos cenários urbanos


Você já ouviu um bauruense legítimo com sotaque estrangeiro? O português com um fundinho de espanhol facilmente denuncia os anos em que o artista plástico José dos Santos Laranjeira viveu em seu "quase" país de origem. Quase porque ele nasceu em Bauru, mas aos 5 meses de vida ele foi viver com os pais no Uruguai.

Aos 21 anos de idade e à procura de oportunidades, Laranjeira veio passar as férias na casa de parentes brasileiros e se encantou com as possibilidades que aqui encontrou. "Como morei no Uruguai na infância e adolescência, vi boa parte das pessoas de minha geração sair de lá. A imigração foi muito intensa por questões políticas e de perspectivas econômicas. Antes eu era nato por ter nascido aqui, mas não tinha vivência. Cheguei uruguaio e há 30 anos eu comecei a ser brasileiro. Mas, na verdade, essa questão de nacionalidade é simbólica. Costumo brincar que gato que nasce no forno não é biscoito (risos). O que vale é que todos somos seres humanos".

Autor do monumento da Praça da Paz, a escultura urbana é marca registrada de seu trabalho. Além de Bauru, o artista também realiza trabalhos para muitas cidades da região. "As esculturas e monumentos são peças fundamentais na construção da identidade de qualquer povo".

Professor de artes visuais na Faculdade de Arquitetura, Artes e Comunicação (Faac) da Universidade Estadual Paulista (Unesp), Laranjeira também foi cantor da noite bauruense. Ele fala sobre problemas culturais da cidade, além de contar suas histórias de vida. Leia os principais trechos da entrevista a seguir.

Jornal da Cidade - Um bauruense com sotaque castelhano?

José dos Santos Laranjeira - (Risos) É impossível perder esse sotaque. Nasci em Bauru em 1959 e, aos 5 meses de idade, fui viver em Montevidéu, no Uruguai, onde minha família estava instalada. Quando vim definitivamente morar no Brasil eu tinha 21 anos e não falava português. Vinha para passear, visitar parentes e compreendia tudo, logicamente. Dos meus quatro avós, três eram portugueses. Então nunca foi uma língua estranha, embora tenha sido alfabetizado em castelhano. Apenas comecei a falar português quando retornei ao Brasil e por isso o sotaque.

JC - O que o trouxe ao Brasil?

Laranjeira - Vim de férias em janeiro de 1980 depois de concluir o ensino médio e já estar habilitado para o ensino superior. Minha ideia era conhecer o Brasil e rever meus parentes, mas fiquei totalmente apaixonado pelo País. Fiquei muito entusiasmado com as possibilidades que o Brasil poderia me oferecer. Como eu morei no Uruguai na infância e adolescência, vi boa parte das pessoas de minha geração sair de lá. A imigração foi muito intensa para a Europa, Canadá, Austrália e Brasil, isso por questões políticas no princípio, mas depois por uma questão de perspectivas econômicas mesmo. As pessoas saíram em busca de estudos e trabalho para depois consolidarem famílias e terem condições de viver com um pouco mais de qualidade de vida.

JC - Como foi viver no Uruguai?

Laranjeira - Apesar de ter morado na capital, o Uruguai se mostrava um país muito restrito em termos de oportunidades. Na época, as condições eram muito difíceis e a ditadura militar também destruiu muito do que o Uruguai tinha de bom, como o ensino, por exemplo. Foi por isso que boa parte da minha geração saiu de lá. E como eu já tinha nascido no Brasil, não tive dificuldades para aqui ficar.

JC - Qual foi seu primeiro passo ao chegar em Bauru?

Laranjeira - Na verdade meu primeiro passo foi conhecer um pouco mais do Brasil. Eu aproveitei que tinha um tio que viajava muito por ser representantes de firmas. Aproveitei e peguei carona com ele para conhecer um pouco de Minas Gerais, Goiás, Interior de São Paulo... Aproveitei todas as oportunidades que tive de vivenciar no Brasil e comecei a ser brasileiro plenamente depois de 1980. Antes eu era nato por ter nascido aqui, mas não tinha vivência. Cheguei uruguaio e há 30 anos eu comecei a ser brasileiro. Na verdade, essa questão de nacionalidade é simbólica. Costumo brincar que "gato que nasce no forno não é biscoito" (risos). Acima de tudo somos seres humanos e, muitas vezes, precisamos mudar de país.

JC - Estudar também foi um de seus objetivos aqui?

Laranjeira - Estudei artes no Uruguai e fiz bacharelado em arquitetura, uma espécie de curso técnico. Sou formado pela antiga Universidade de Bauru e, desde 1988, eu sou professor de artes visuais na Faculdade de Arquitetura, Artes e Comunicação (Faac) da Universidade Estadual Paulista (Unesp). A minha intenção era dar continuidade aos estudos em arquitetura e também avançar minha produção artística que já havia iniciado, profissionalmente, em 1978.

JC - Data da sua primeira exposição?

Laranjeira - Isso. Foi uma exposição muito significativa na minha história e também uma das mais importantes exposições que aconteceram em 1978 no Uruguai, já que reuniu toda a produção dos principais artistas que estavam produzindo escultura em madeira naquele momento. Eu era aluno da Escola de Belas Artes e meus professores me incentivaram muito. Meu trabalho foi colocado ao lado dos nomes mais importantes que a produção artística do Uruguai tinha naquele momento.

JC - E depois não parou mais (risos)...

Laranjeira - Não mesmo (risos). Inclusive eu cheguei em Bauru e a primeira coisa que eu fiz foi procurar atividades culturais na cidade e, naquele momento, o representante da cultura a nível de Estado, digamos assim, era a Delegacia Regional de Cultura e eu encontrei Nidoval Reis, um poeta maravilhoso que me abriu as portas da delegacia e, a partir disso, eu ficava informado de todos os acontecimentos culturais da cidade, região e Estado. Com isso, eu passei a participar de muitos salões e meus trabalhos foram selecionados e, algumas vezes, premiados. Isso também me aproximou dos outros artistas que representavam Bauru. E desde 1980 eu represento oficialmente a cidade em salões.

JC - A escultura da Praça da Paz tem sua assinatura!

Laranjeira - Cheguei no início da década de 80 e no fim eu estava começando a colher tudo o que havia semeado quando cheguei. Tive algumas oportunidades de trabalho de natureza pública. O leão do Lions Clube na Nações Unidas foi meu primeiro trabalho nesse sentido. Depois vieram muitos outros, como o painel que fica em frente ao Cemitério da Saudade, porém, o mais significativo foi, sem dúvida, o monumento da Praça da Paz. As esculturas e monumentos são peças fundamentais na construção da identidade de qualquer povo. A partir de 1988, quando fiz o trabalho para o ex-prefeito Tuga, acabei me tornando, de certa forma, um artista que serviu as administrações públicas de outros prefeitos.

JC - Tem novos projetos idealizados para a cidade?

Laranjeira - Nesses últimos anos eu tenho feito muitos trabalhos importantes em várias cidades da região. Para Bauru eu também tenho várias ideias. O problema é que parece que a cidade ainda não entendeu a importância da cultura. Eu apoiei no que pude o Rodrigo na eleição, mas depois fiquei um pouco decepcionado com os rumos da cultura, já que ela não seguiu o padrão de outras áreas. Por sorte, hoje tem uma pessoa que é de carreira na Secretaria da Cultura e acredito que fará um bom trabalho.

JC - De onde vem a sua inspiração?

Laranjeira - Da vida. Na minha concepção, a arte é uma forma de a gente procurar expressão enquanto pensamos, observamos e temos vontade de registrar isso. A escultura talvez seja das artes que mais tenham a preocupação com a permanência. Na escultura, cada material tem sua própria linguagem e particularidade. Ao longo desses 30 anos de dedicação à escultura, eu sempre tentei explorar essas qualidades intrínsecas dos materiais, como madeira e bronze, entre outros.

JC - Você também escreveu para o JC?

Laranjeira - Sempre escrevi artigos de cultura. A maior experiência foi quando fui fazer doutorado em Barcelona e fui uma espécie de correspondente de cultura do Jornal da Cidade. Isso foi de 1998 a 2000. Hoje um de meus projetos é concluir esse doutorado.

JC - Como é sua relação com a docência?

Laranjeira - Ser professor requer a mesma disposição e a mesma sensibilidade que a arte. Ser professor também foi muito importante na minha história de vida. Para ser professor é preciso estar sempre disposto a entender que a gente precisa aprender sempre para poder ensinar, além de ter amor pelo trabalho e pelas pessoas. Boa parte dos meus alunos são meus amigos. Para me construir professor, eu sempre me lembro dos meus bons professores.

JC - Sua família tem outros artistas?

Laranjeira - A música sempre foi uma arte permanente na minha família, desde sua origem na Ilha da Madeira, em Portugal. Eu tive formação acadêmica de música no Uruguai, mas preferi me dedicar mais à arte. Em Bauru, toquei violão na noite como músico profissional, e com isso paguei meus estudos.

JC - Qual é a história do seu filme preferido subentendida no Perfil (risos)?

Laranjeira - Ah (risos), eu e Carmem viajamos à Bienal, em São Paulo, quando ainda éramos colegas e alunos da antiga Universidade de Bauru. Nessa viagem vimos o filme juntos e começamos a namorar. Comecei a me amarrar muito com a Carmem a partir de então (risos).

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Perfil


Nome: José dos Santos Laranjeira

Idade: 52 anos

Local de Nascimento: Bauru/SP

Signo: Aquário

Esposa: Carmem

Filhos: Mariana e Carolina

Hobby: Não tenho hobby, minhas profissões me dão o prazer proporcionado pelo lazer

Livro de cabeceira: Minhas leituras giram em torno da preparação para as aulas e pesquisas

Filme preferido: "A Rosa Púrpura do Cairo", pela paixão por minha esposa

Estilo musical predileto: Gosto de música de qualidade, como a étnica

Time: Seleção Brasileira e São Paulo

Para quem dá nota 10: Às pessoas honestas e verdadeiras

Para quem dá nota 0: Aos falsos e mentirosos

E-mail: laranjeira.jose@gmail.com

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