Temperos para a vida
Sempre que o fotógrafo Marcos Leandro, 37 anos, abre a sacada de seu apartamento, localizado na Vila Altinópolis, um cheiro bom invade os cômodos. O aroma é uma mistura exalada pelos pés de manjericão, hortelã, alecrim, coentro, cebolinha e salsa, plantados por ele em nove vasos, que juntos formam uma pequena horta caseira.
"O mais cheiroso é o manjericão. Tenho quatro tipos dele. Uma delícia", explica.
Plantar, cultivar e colher os temperos que farão parte de suas refeições foi uma decisão tomada por Marcos há cerca de dois anos. Amante da culinária, ele valoriza a possibilidade de ter alimentos fresquinhos sempre à mão, porém a falta de espaço e de conhecimento sobre como cuidar da horta eram um empecilho.
"Não plantava meus temperinhos antes porque não sabia cuidar corretamente. Além disso, sempre morei em apartamento e tinha a ideia de que era preciso muito espaço para ter minha própria horta. Depois que busquei me informar, descobri que era possível, sim, desfrutar deste benefício", afirma.
O investimento e o trabalho, segundo ele, são pequenos. Gastou apenas com a terra, com as sementes e com os vasos, comprados a R$ 5,00 cada, na Companhia de Entrepostos e Armazéns Gerais de São Paulo (Ceagesp), em Bauru. Quanto à mão-de-obra, o mais trabalhoso foi a fase de plantio, pois a manutenção é simples.
"Só precisa regar um pouquinho diariamente e prestar atenção se não tem nenhum inseto nas folhas. Coloco adubo somente a cada três meses, por cima da terra, e a água se encarrega de misturá-lo", ensina.
Poucos meses após criar a própria horta de temperos, o fotógrafo já colheu os benefícios. "Além de decorar a casa e deixá-la cheirosa, dão um toque especial às minhas comidas. Vale a pena", indica.
Sabor caseiro
Ano novo, vida nova. Este é o pensamento de grande parte das pessoas quando um ano sai de cena para dar lugar a um novo período, com 365 dias repletos de expectativas e metas, às vezes, ousadas.
Mas no caso do jornalista Emerson Travaglini, 29 anos, não foi a mudança de ano que o fez tomar algumas resoluções em busca de melhorias na qualidade de vida, mas, sim, o casamento, celebrado há um ano e oito meses.
"Sabia que era uma nova fase de minha vida que estava se iniciando e decidi mudar para melhor, a começar por minha alimentação. Logo que nos mudamos para o novo lar, eu e minha esposa decidimos fazer uma horta e cultivar nossas próprias verduras, legumes e temperos", explica.
O fundo do quintal do casal foi o espaço escolhido para dar lugar à horta, que hoje tem rúcula, beterraba, brócolis, cenoura, alface, cebolinha, tomate, alecrim, manjericão e hortelã; e garante alimentos frescos na mesa diariamente.
Mas não foi só a alimentação que melhorou com a chegada da horta. Emerson notou também uma mudança em seu comportamento. "É como uma terapia. Sempre que posso passo horas cuidando das verduras e legumes", conta.
Diferentemente de grande parte das pessoas que mantém a própria horta em casa, Emerson nunca havia tido contato com o cultivo de alimentos anteriormente, na época em que morava com os pais.
"O máximo de contato que tive com a terra, antes disso, foi quando ajudei minha avó a cuidar do jardim", lembra, em tom de brincadeira.
Além de Emerson e de sua esposa, os dois cachorros do casal também são fãs da horta. "Gostam tanto que atacavam a horta e comiam tudo. Tive de botar uma cerca para impedir o estrago. Meu maior gasto com a horta foi a cerca, acredita", questiona, rindo.
Pedaço do paraíso
Quem passa pela quadra 7 da rua Doutor Silvio Luiz da Costa, na Vila Industrial, provavelmente não imagina que uma das casas do quarteirão abriga em seu quintal, cercado por muros altos, uma grande horta, com direito a diversos pés de verdura, como cebolinha, salsinha, couve, espinafre, almeirão, chicória e alface, além de pés de fruta como limão, manga, jabuticaba, pitanga, banana, amora, goiaba, entre outros.
E é neste lugar que o aposentado Luiz Firmino e sua esposa Cecília passam boa parte de seus dias, há mais de 10 anos.
"Aqui é nosso refúgio. Sempre que entro na horta para cuidar de alguma coisa acabo esquecendo do mundo lá fora. Passo horas aqui", conta Luiz.
A horta foi criada com a intenção de dar uma utilidade ao terreno baldio ao lado da casa do casal, que antes era usado como esconderijo para animais peçonhentos e usuários de droga.
"No começo, criávamos galinhas. Cheguei a ter 120 delas, mas acho que incomodavam a vizinhança e por isso decidi dar fim nos bichos. Foi quando me aposentei e transformei o espaço em horta", lembra ele.
Além de produzir frutas, legumes e verduras em fartura para a família Firmino e ainda render mimos saudáveis para a vizinhança, a horta estreita os laços de Luiz com sua origem: o sítio.
Nascido e criado na área rural, o aposentado sempre gostou da vida do campo, mas teve de vir para a cidade em busca de melhores oportunidades. A horta foi a forma que encontrou de conciliar as facilidades da vida urbana com a tranquilidade do sítio. Para orgulho de Luiz, seus netos, Pedro, Antônio e Camila seguem o mesmo caminho dos avós.
"Sempre que podem eles vêm me ajudar aqui na horta. Às vezes, fazem tudo errado. Sabe como é... são crianças. Mas estão aprendendo. E quer saber? Na horta do vovô pode tudo", orgulha-se.
É da comunidade!
Antes, um pedaço de terra abandonado, de propriedade da prefeitura. Hoje, uma grande horta, que produz verduras e legumes em fartura. Esta é a história da horta comunitária localizada na quadra 13 da rua Alziro Zarur, no Núcleo Presidente Geisel.
O projeto começou há cerca de 20 anos, quando a prefeitura buscou ajuda dos moradores do bairro para dar uma finalidade útil ao terreno de propriedade do município.
"Me lembro que o terreno baldio trazia muitos problemas, tanto com animais quanto com vândalos. Depois que a horta passou a funcionar as coisas melhoraram muito por aqui", conta Mário Gregório Garcia, 69 anos, um dos agricultores que ajudam a manter a horta ativa.
Na época, a prefeitura abriu espaço para que os interessados cuidassem do lugar. Atualmente, sete pessoas, todas com mais de 60 anos, fazem a função. "Somos todos aposentados. Cuidar da horta é uma terapia para nós", resume Mário.
Embora o terreno seja de propriedade da prefeitura, Mário e os colegas são responsáveis por comprar adubo, sementes e dar manutenção no local. Para arcar com os custos, eles vendem as verduras e legumes produzidos na horta para clientes da vila e de bairros vizinhos.
"A um preço bem baratinho", garante Lindalva Tavares Garcia, 60 anos, esposa de Mário.
As hortas comunitárias estão presentes em outros pontos de Bauru, como no Núcleo Mary Dota, no Jardim Ivone e na Vila Pousada da Esperança. De acordo com a Secretaria Municipal da Agricultura, as hortas comunitárias são uma forma inteligente de geração de renda para as comunidades.
Amor pelo cultivo
"É uma horta linda". São estas as palavras escolhidas pelo simpático aposentado Antônio Gimenes, 81 anos, para descrever o espaço localizado no fundo do quintal de sua casa, na quadra 7 da rua Paraná, na Vila Coralina, onde ele e sua esposa Rosa carinhosamente cultivam legumes e verduras.
O casal, que tem quatro filhos, decidiu ter a própria horta assim que se mudaram para a casa onde vivem atualmente. Foi uma alternativa que encontraram para economizar no supermercado, consumir alimentos saudáveis e sempre fresquinhos e, de quebra, passar o tempo.
"Fui empregado do Instituto Penal Agrícola (IPA) por 35 anos. Depois que me aposentei, trabalhei como jardineiro em cerca de 40 casas da cidade. Tive de interromper a atividade porque quebrei minha perna. Mas não conseguia ficar parado, por isso criei a horta", explica Antônio.
De lá para cá, passaram-se quase 40 anos e o espaço que antes produzia apenas salsa e cebolinha foi ampliado e hoje abriga também exemplares de rúcula, cenoura, beterraba, almeirão, couve, hortelã e até um pé de limão.
"Eu sou descendente de espanhol e minha esposa de italianos. Nós dois fomos criados no sítio, então, já viu, né? O cultivo da horta é algo que fazemos com amor. Está no sangue", orgulha-se.
Quem comemora a iniciativa do casal são os vizinhos, que sempre que precisam recorrem ao hortifruti caseiro.
"Ah, minha vizinhança é maravilhosa. Adoro quando eles vêm buscar verdura. E você, não quer levar uma cebolinha, uma salsinha? Não tem agrotóxico, viu?", oferece à reportagem, cortês.
De horta caseira à plantação
Há cerca de dez anos, Olivaldo Baio, 63 anos, recebia a primeira parcela da aposentadoria conquistada com anos de trabalho como supervisor da Ferrovia Paulista S. A (Fepasa). Mas ele não estava contente. Depois de tantos anos trabalhando, sentia-se inseguro em parar. Precisava de uma nova atividade.
"Ainda tenho medo de parar de trabalhar. Quando isso acontecer, o corpo vai padecer, vai parar junto", explica.
Foi quando os dois filhos e a esposa o incentivaram a utilizar um terreno baldio, vizinho de sua casa, que tinha 1.500 metros quadrados, como espaço para a criação de uma horta.
Olivaldo, que nunca tinha cultivado nenhum tipo de alimento, topou a ideia e dedicou seu amplo tempo de aposentado à nova atividade. Em poucos meses, a família Baio e a vizinhança já podiam desfrutar de verduras frescas, diariamente.
O sucesso da horta foi tanto que a produção superava o consumo e, para garantir uma renda extra, a família passou a vender parte do que produzia.
Depois de algum tempo, a horta precisou ser transferida para um terreno maior, com um alqueire, localizado no Jardim Marambá, perto do Residencial Flamboyant?s. Atualmente, a horta tem novo endereço e metragem, fica entre Bauru e Agudos, com um alqueire e meio.
"A vida foi tomando suas providências e o que começou como distração se tornou a fonte de renda da família. Hoje, meu pai cuida da produção e eu fico na parte de comercialização, em um ponto de venda que fica próximo do Parque das Camélias", explica Gustavo Luiz Baio, filho de Olivaldo, que deixou a antiga profissão de mecânico para se dedicar ao negócio da família.
Nas gôndolas da pequena quitanda, os pés fresquinhos de alfaces esbanjam um verde exuberante, que mesmo despertando a atenção não conseguem ofuscar a vitalidade de outras verduras como a rúcula, o almeirão, a couve, a cebolinha, a salsa, entre outras.
Olivaldo abastece a quitanda duas vezes por dia, uma no período da manhã e outra à tarde, para dar conta de atender a clientela fiel.
"Muita gente compra aqui. Penso que as pessoas preferem por conta da qualidade da verdura. Nosso negócio cresceu, mas a produção é feita com o mesmo carinho de antes, como se fosse para o consumo da família", explica Olivaldo.