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A Revolução Clitoriana

Zarcillo Barbosa
| Tempo de leitura: 4 min

Quando vejo a Sandy na TV, menininha toda missa e comunhão no papel de devassa, loura platinada, com uma tulipa nos lábios e tentando vender cerveja para o público, penso no papel da mulher moderna que quer se libertar do jugo dos machos. A presidenta Dilma reforça essa idéia ao preparar omelete no programa da Ana Maria Braga. Confundiu bicarbonato de sódio com sal. Faz parte. Quando Dilma declarou que a "pobreza no Brasil tem cara de mulher", disse uma coisa séria. Quanto mais pobre a família, maiores as possibilidades de que seja dirigida por uma mulher. Depois do "pai dos pobres", corremos o risco de trocá-lo por uma "mãe dos pobres" que toma café da manhã com um papagaio. Muito pouco para o avanço desejado rumo a uma sociedade igualitária.

Dom Rigoberto, personagem de Vargas Llosa (Elogio da Madrasta, 1988), registrou nos seus cadernos que o feminismo se apóia na convicção de que o clitóris é moral, física, cultural e eroticamente superior ao pênis, e os ovários, mais nobres que os testículos. Quem sabe aí resida algum simbolismo no ato de quebrar os ovos para fazer a omelete. A cada dois minutos quatro mulheres são agredidas por machões no Brasil, país onde mulher ganha, quando muito, 76% do salário do homem para funções idênticas. Com estes dois singelos exemplos percebemos que a briga das fêmeas tem razões às escâncaras. "Sem a menor pirueta cínica", Dom Rigoberto afirma que falo ou clitóris são artefatos de fronteira duvidosa e, por isso mesmo, menos importantes para diferenciar um ser do outro. O que realmente interessa para estabelecer a sonhada igualdade, pela qual as mulheres lutam há um século está na eliminação de obstáculos legais e no combate intelectual e moral contra o preconceito. E, mais importante que o direito ao trabalho, à educação, à saúde, etc., está o "direito ao prazer", negado às mulheres - conclui o personagem.

A obra do escritor peruano é um exercício de erotismo literário, mas contém pontos importantes de reflexão. Esse direito ao prazer inclui o "gozo sem culpa", somente possível uma vez reconhecido os direitos reprodutivos da mulher, com a legalização do ato de aborto, por exemplo. Perceba que o país elegeu uma mulher pensando no continuísmo do governo Lula. O ex-presidente agora cobra R$200 mil para fazer palestras falando bem dele mesmo, o dobro do cachê de Bill Clinton. Somente grandes empreiteiros e banqueiros, em sinal de reconhecimento pelo muito que ganharam podem arcar com o custo astronômico de um psitacismo - o efeito retórico, repetitivo dos papagaios. Para ser eleita Dilma teve que jurar várias vezes no programa político e perante a Igreja que iria abrir mão de uma das bandeiras históricas de luta do seu próprio gênero: a legalização do aborto.

A divisão maniqueísta da humanidade em homens e mulheres é uma ilusão coletiva. Há pelo menos cinco, ou talvez mais gêneros sexuais: hétero, homo, trans, traves, bi e outros casos mais raros. Na mitologia helênica, da configuração combinada de Hermes e Afrodite surgiu Hermafrodito, o qual, ao apaixonar-se por uma ninfa, fundiu o seu corpo com o dela, tornando-se desde então homem-mulher ou mulher-homem. A ciência confirma que num único indivíduo existem distintas coligações de gônadas, hormônios e composição cromossômica. Essa mixagem evolutiva origina sexos diferentes daquela classificação simplificada homem e mulher. Os machões não devem se envergonhar de um repentino afloramento da sua porção mulher, e vice-versa. Essa inibição imposta pelos padrões morais burgueses faz mal à mente e ao corpo. Desde a antiguidade os delicados heróis intersexuais são condenados pela estupidez, pela ignorância, pelo fanatismo e pelos preconceitos, a viver no disfarce para não serem queimados, enforcados ou exorcizados como engenhos do demônio.

Qualquer que seja a classificação, o que importa no momento é a igualdade entre mulher e homem. O progresso foi grande, mas elas ainda são categorizadas no segundo sexo. Paulo Freire diria que falta "empoderamento" às mulheres. Empoderar é a capacidade das pessoas ou grupos de assumirem a responsabilidade pelo próprio destino em lugar de esperar que alguém o faça por eles. A tomada de consciência da mulher, individual e coletiva é que vai permitir a elas aumentarem sua participação nos processos de tomada de decisões e de acesso ao exercício do poder e da capacidade de influir. Já temos uma presidenta da República. Um grande passo.


O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC

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