Na tarde de 31 de julho de 1954, uma imensa bola de fogo tomou conta de oito vagões de combustível. O incêndio começou por volta das 15h, depois do choque entre um caminhão e um dos vagões-tanque. Houve explosão. Três pessoas morreram carbonizadas. O fogo colocou em risco um depósito de combustível perto da antiga fábrica de óleo da Sociedade Algodoeira Brasileira (Sanbra), na cidade de Ourinhos (120 quilômetros de Bauru). Minutos depois do trágico acidente, um vento forte soprou as chamas para o lado contrário dos tanques de gasolina, evitando que as labaredas chegassem a um conjunto de casas e o depósito.
Após ajuda de voluntários e de uma guarnição do Corpo de Bombeiros, deslocada de São Paulo em avião da Força Aérea Brasileira (FAB), controlou o fogo em dois dias. Na operação de rescaldo foi encontrada no meio dos escombros de um dos vagões a imagem de Nossa Senhora da Aparecida intacta dentro de uma caixa de madeira. Na época, a população viu o caso como um milagre divino. A Igreja católica ignorou.
Daí se iniciou o culto a Nossa Senhora do Vagão Queimado, que demorou 50 anos para ser aceita pela alta cúpula eclesiástica católica. Um livro do professor de história Maurício de Aquino baseia o estudo na sua dissertação de mestrado apresentada na Unesp de Assis, publicado pela Edusc, da Universidade Sagrado Coração (USC) de Bauru, com apoio inédito de lei de incentivo de fomento da cultura da prefeitura ourinhense.
A história é recheada de como o misticismo se mistura à teologia. O pano de fundo da devoção tem raiz na reformulação da liturgia da Igreja Católica no Concílio Vaticano II em 1962 e da Conferência de Medellín, em 1968 na Colômbia, quando os bispos definiram um documento de uma igreja mais flexível às devoções populares na América Latina.
O culto à Santa do Vagão Queimado é uma história rica de como interfere a crendice popular com política, religião e negócio. Após o incêndio, a imagem foi retirada dos escombros, "entronizada" em um hospital como santa protetora com interferência do então prefeito de Ourinhos Domingos Camerlingo Caló.
A santa também "sumiu" durante um período, na década de 1960, quando o pároco da Matriz remaneja do altar todas as imagens de santos católicos. A imagem é doada a um fiel que ajudou financeiramente nas despesas para a troca do forro da igreja. A santa é levada para uma fazenda de Ipaussu. Na década de 90, após ampla campanha na imprensa ela, é devolvida a Ourinhos. O assunto volta à baila, quando a prefeitura decide investir no "turismo religioso" em 1995. A chegada da Diocese a Ourinhos facilita o apoio do Vaticano para "oficializar" a devoção à santa. O mito está agora consolidado sob as bênçãos da Igreja Católica.