Tóquio - Cinquenta funcionários da usina de Fukushima passaram o dia de ontem tentando desesperadamente evitar o derretimento de combustível nuclear após duas explosões e um incêndio que provocaram vazamento nos reatores. O acidente já é considerado o pior com energia atômica desde o de Tchernobil, que matou 50 na Ucrânia (então União Soviética) em 1986. Ontem à noite (início da manhã de quarta no Japão), havia relatos sobre um novo incêndio no reator 4 da usina.
Fukushima fica no nordeste do Japão, a região mais afetada pela combinação de terremoto e tsunami que atingiu o país na sexta e deixou ao menos 3.373 mortos, conforme os dados oficiais.
Até a noite de ontem no Japão, a ação dos "50 de Fukushima", como vêm sendo chamados pela imprensa, parecia surtir efeito - medição da AIEA (Agência Internacional de Energia Atômica) mostrava que a radiação no portão principal da usina diminuíra de 11,9 milissieverts por hora para 0,6 em um período de seis horas.
O sievert é uma unidade que mede a quantidade de radiação absorvida pelos seres humanos. A exposição a mais de 100 milissieverts por ano pode provocar câncer.
A AIEA diz estar preocupada com o desenrolar dos acontecimentos na usina e vê possibilidade de dano na capa do núcleo do reator 2, um dos que explodiram em Fukushima. Porém, segundo seu diretor-geral, Yukiya Amano, a situação não chegou ao nível de Tchernobil.
A ação dos 50
A usina de Fukushima tem cerca de 800 funcionários, e 750 foram retirados do local depois da explosão de hidrogênio no reator 2 e do incêndio no reator 4. Antes disso, os reatores 1 e 3 já haviam sofrido explosões que, segundo as autoridades, não afetaram o revestimento do núcleo.
Sob sério risco de contaminação, os 50 restantes, usando roupas especiais e se abrigando sempre que possível na sala de controle (protegida contra a radiação), passaram o dia bombeando, com mangueiras, água do mar para conter o superaquecimento.
Segundo especialistas, os técnicos que ficaram na usina estarão cada vez mais expostos à radiação e terão de ser substituídos se a luta para evitar um desastre maior durar muitos dias. "Não será exagero chamá-los de heróis??, disse David Brenner, da Universidade Columbia, em entrevista à rede CNN.
Críticas ao governo
Ontem, durante todo o dia, cresceram as críticas da imprensa japonesa à atuação do premiê Naoto Kan durante a crise nuclear e à Tepco (Tokyo Electric Power Co.), que administra Fukushima.
Segundo a agência de notícias Kyodo, o próprio Kan atacou a empresa por demorar uma hora até enviar ao governo dados sobre a explosão no reator 2 -tida como a potencialmente mais grave até agora, pela suspeita de rachadura na contenção.
Meteorologia prevê chuva
Tóquio - Sites internacionais de meteorologia indicam previsão de neve e de chuva na região de Fukushima nos próximos dias.
As condições climáticas pioram os riscos de contaminação radioativa.
Isso porque as partículas radioativas que foram expelidas para a atmosfera após as explosões das estruturas de três reatores da usina Fukushima 1, com neve e chuva, irão diretamente para o solo.
"Neve e chuva lavam a atmosfera e levam as partículas radioativas para o chão", explica Hilton Silveira, diretor-associado do Cepagri (Centro de Pesquisas Meteorológicas Aplicadas à Agricultura) da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas).
"O ideal seria que o tempo se mantivesse limpo, sem chuvas e com ventos para o Pacífico", explica.
Por enquanto, os ventos sopram em direção ao Pacífico e não há risco de contaminação radioativa nos países vizinhos - nem nos Estados Unidos. "Mas a direção dos ventos muda o tempo todo", completa Silveira.
Medo da radiação provoca fuga de Tóquio
Tóquio - Apesar dos pedidos de calma, em Tóquio era possível ver ontem mais máscaras do que o habitual. O medo da radiação da usina nuclear de Fukushima 1, provocou a fuga de várias pessoas da capital Tóquio ontem. Outros moradores permaneceram dentro de suas casas em meio a temores. Além disso, alguns habitantes decidiram se afastar da cidade por alguns dias até que a situação em Fukushima se torne menos alarmante.
Ao longo do dia de hoje, muitos estrangeiros pegaram o "shinkansen" - o trem bala-japonês - para se deslocar a cidades mais ao sul, como Osaka, a mais de 500 quilômetros da capital, onde a ameaça de fuga de radiação soa mais distante.
Desde o início dessa semana, várias legações diplomáticas aconselharam àqueles que se sentissem temerosos e não tivessem assuntos "essenciais" em Tóquio que deixassem a cidade. Ontem, a embaixada da Áustria decidiu transferir sua missão temporariamente a Osaka.
Enquanto as notícias sobre Fukushima são recebidas com inquietação crescente entre a comunidade estrangeira, onde se sucedem rumores e desmentidos sobre evacuações, os japoneses seguem com surpreendente tranquilidade, atentos pela televisão às instruções das autoridades locais.
O governo mantém os pedidos de calma, de racionamento de energia - o terremoto paralisou 11 usinas nucleares- e de prudência ao fazer compras nos supermercados para evitar a escassez de produtos, tal como já noticiam os meios de comunicação.