Houve tempo, e não vai distante, em que pescar no Pantanal era o sonho dos bons pescadores ou de todo "papudo". Ainda não havia limite de quantidade nem tamanho mínimo para os peixes apanhados e a fiscalização era esporádica. Ou seja, valia tudo, o que acabou tornando difíceis, nos dias de hoje, as grandes pescarias no Pantanal.
No início da tarde de uma quarta-feira de setembro de 1980, eu e meu filho Mário, o sogro Sebastião e meu irmão José, saímos de Campo Grande em dois carros, pensando nos grandes pintados, dourados e pacus que pegaríamos.
Depois de termos conseguido sair com dificuldade de dois grandes atoleiros no meio do caminho, chegamos, enfim, ao rio Paraguai. Na arrumação da "traia" de pesca, cada um falava com seu molinete: "Êta bicharedo, vai buscar um daqueles "pintadão", dizia um. "Esse aqui vai trazer o maior", rebatia outro. Às 4 da manhã, o José atendeu o telefone e já gritou batendo palmas: "Acorda ?negada?, que Pintado tá chamando!".
Subimos o rio Paraguai em dois barcos e duas horas depois "apoitamos", o que significa prender o barco à margem do rio. Era um poço fundo, com uma leve corredeira e um rebojo. Antes que o sol esquentasse, apareceu uma nuvem de mosquito borrachudo, zunindo e atacando. Peixe que é bom, nada! Mas, de repente, "seu" Sebastião começou uma "briga" com um deles e a gente gritava: "Segura, Bastião! Segura, Bastião!". Era um armau, peixe que, no Pantanal pelo menos, quase ninguém quer. Um pouco depois alguém fisgou outro e o piloteiro foi logo dizendo "é piranha!" Também ninguém quis. Mudamos de lugar, meia hora acima. Vento forte, água fria e, nada! E assim foi a tarde e a manhã do dia primeiro e do dia segundo.
Só tínhamos agora o domingo. Eu, meu irmão e meu filho já estávamos meio desanimados, mas "seu" Sebastião, não: "Vamos lá, gente! Hoje é o dia!" Esperança de pescador só morre na próxima pescaria e os piloteiros nos diziam que no Paraguai Mirim - um grande braço do próprio rio - onde um bom trecho permitia a "rodada", certamente nos daríamos bem. Rodamos uma, duas, dez vezes e... nada!
Pareceu-nos boa ideia voltar ao ponto da sexta-feira, no poço fundo, mas mesmo ali só vinha piranha miúda, armau roncador, uns bagrinhos e muito enrosco. O José e o Mário desistiram, recostaram na beira do barco, chapéu na cara, e ali ficaram, mudos. "Seu" Sebastião, eu e os piloteiros - que nunca desistimos - continuamos tentando.
Já quase na hora de ir embora, o Bastião deu uma fisgada dura, firme e gritou "êta bichão...!" A linha retesou e "a coisa" pesou. Quando vi a minha linha também tinha afundado. Ferrei o "baita" com gosto. Nessa hora meu sogro disse, ofegante: "É grande e tá brigando!". "O meu também", repiquei.
A luta era cada vez mais feroz e os piloteiros, que haviam recolhido suas linhas para não atrapalhar, recomendavam: "Segura firme senão escapa! Não dá linha! Segura! Não dá linha...!" A coisa já ia longe quando resolvi soltar um pouco a linha e ela correu para o lado do Sebastião. Aí ele gritou: "Tá vindo, tá vindo e é grande!" Puxei de novo e a linha dele afundou. Ele puxou com força e a minha esticou. Achei, então, que deveria ser um enrosco e deixei livre. Ele continuou puxando e via-se que tinha peixe. Puxa daqui, segura dali e... uma piranha! Até parece mentira: uma enorme Piranha, com os dois anzóis, um de cada lado da boca, bem fisgada!
O José, o Mário e os piloteiros caíram na risada. O Bastião soltou um palavrão e ainda hoje, já com 91 anos de idade, costuma repetir: "O meu eu tenho certeza que era um pintado dos grandes e a ?sua? piranha atrapalhou tudo!"
Pedro Pereira Dobes é pescador e contador de histórias.