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E a cultura, como vai?

Fausi dos Santos
| Tempo de leitura: 4 min

Passados os festejos de carnaval, mensuramos a dimensão e a grandiosidade que esta festa alcança a cada ano em todo o Brasil, com a organização de bailes nos clubes, blocos e desfiles pelas ruas que arrastam multidões, escolas de samba esbanjando grandiosidade nas avenidas, um verdadeiro espetáculo de criatividade em torno de uma das mais significativas festas da cultura brasileira. No entanto, agora que os foliões retornam às atividades cotidianas, há quem diga até que no Brasil o ano começa de fato após o car-naval, retornamos também à triste constatação do descaso que a cultura popular e seus vários segmentos sofrem cotidianamente em nossos municípios.

Quem faz a cultura de uma nação? Qual a importância da cultura no estrato social? Em que consiste a responsabilidade do poder público na fomentação e promoção das várias manifestações culturais? Antes de qualquer coisa é preciso afirmar que a cultura nasce da pura expressão popular, raramente da indústria do entretenimento ou da propaganda patrocinada por grandes corporações financeiras que visam o lucro e promovem, quase sempre, a banalização e a relativização dos valores sociais. É na simplicidade da vida cotidiana que nascem as grandes manifestações de nossa cultura, seja o samba gerado no morro como denúncia da situação de miséria, ou o futebol que busca no lúdico o alívio das dores cotidianas.

Daí a constatação: a cultura é a alma e a identidade de um povo, é a síntese de seus costumes e a plenificação de seus anseios, sonhos e necessidades. Por isto, não pode estar a reboque de interesses políticos ou empresariais, relegada a segundo plano, como perfumaria. A responsabilidade do poder público repousa em preservar e fomentar os celeiros da produção cultural, que devem ser estimulados e propagados. Isto não significa medidas imediatistas, como a doação de dinheiro dias antes das grandes festas, mas sim, o investimento planejado a longo prazo em infraestrutura e na formação humana. Iniciativas como, na construção e manutenção de teatros; auditórios; centros culturais; salas de oficinas para música, canto, pintura; praças temáticas com programações culturais; bibliotecas móveis que possam adentrar os bairros; o estímulo aos pequenos grupos de teatro, dança de rua, grafitagem, agremiações de samba. Temos que abandonar a ideia de que se deve ensinar a cultura ao povo, na verdade, temos que criar oportunidades para que a cultura popular se manifeste ao grande público, por que ela já existe em pequenos nichos, porém ainda, de forma marginal.

Não se engane leitor, faz tempo que as grandes festas, seja o carnaval ou o futebol, excluiram seu principal protagonista, o povo. O cidadão paga caro para participar num bloco de carnaval, numa grande escola de samba, ou ainda, para assistir a uma partida de futebol. Estas festas, antes populares, hoje se tornaram altamente lucrativas, por isso, foram institucionalizadas pelo mercado; vitrines, no qual a cultura é puramente mercadoria. Resultado, para estas manifestações nunca faltará dinheiro, enquanto quem realmente milita na base, promovendo a cultura popular, vive de esmolas, contando com pouco apoio e o amadorismo das políticas culturais do poder público. Pense na luta árdua das pequenas agremiações das escolas de samba ou nas pequenas companhias de teatro para conseguir apoio e se manterem atuantes, tendo muitas vezes, espaços deteriorados e mal conservados para suas apresentações e atividades. Chega de olhar a cultura como amadorismo e passa tempo, cultura é coisa séria, pois mexe com as tradições de um povo e lida com a subjetividade humana. Ao promover a cultura promovemos o homem, contribuímos no processo de humanização dos indivíduos e desenvolvemos neles o sentimento de pertença, tão importante na formação do senso de cidadania. O combate à violência e as drogas, por exemplo, passa pela promoção humana e só se promove o homem quando inserimos em sua vida os valores e estímulos que somente a educação e a cultura podem proporcionar.

Como fazer isto? Um bom conselho é olhar para seu bairro, valorizar o que está ao seu redor, há coisas boas desde a literatura até música e artes plásticas acontecendo ao seu lado. Depois, a tarefa mais difícil: saber o quanto nossos representantes políticos se engajam e se envolvem na promoção cultural e, caso não encontre muita coisa, que tal no próximo pleito escolher candidatos que tenham essa convicção?

O autor, Fausi dos Santos, é filósofo, professor e pesquisador da História da Filosofia Contemporânea. fausifilo@hotmail.com

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