Se você esquecesse em algum lugar sua carteira com todos os seus documentos, cheia de dinheiro, gostaria que a primeira pessoa que achasse fosse capaz de lhe devolver, certo? Mas será que você teria a mesma atitude ou optaria pelo benefício próprio, ainda mais se estivesse precisando muito daquele dinheiro?
Nessas horas, infelizmente, em um mundo onde hábitos individualistas e egoístas são mais valorizados em detrimento de uma conduta e comportamento éticos em sociedade, muitas pessoas concordam com o pensamento que diz "achado não é roubado".
Contudo, anteontem, um exemplo de gentileza e honestidade mostrou que também há muitas pessoas que prezam os valores éticos. Apesar de estar desempregado no momento, o auxiliar de produção Luiz Henrique Oliveira Dias, de 21 anos, encontrou 11 folhas de cheque assinadas e entregou à polícia, conforme noticiado na edição de ontem do JC. O valor total das folhas era de pouco mais de R$ 4 mil, e pertenciam a correntistas diferentes.
O bloco com as folhas de cheque foi encontrado na quadra 25 da rua Araújo Leite, nas proximidades da Maternidade Santa Isabel. "Eu estava caminhando quando me deparei com as folhas caídas na beira da calçada. Eu as recolhi e resolvi entregar à polícia no dia seguinte", relata o jovem, morador do Parque Santa Terezinha.
Consciência
O rapaz disse que não ficou com os cheques de alto valor, mesmo estando desempregado, pois já passou por uma situação semelhante e pensou que o melhor seria pensar na necessidade das pessoas que precisavam do dinheiro.
"Eu já perdi, uma vez, meu salário todo e sei que é ruim passar por isso. Só contei para minha esposa que havia achado as folhas de cheque, e ela também me apoiou entregar todas elas à polícia", contou.
"Eu penso que a maioria das outras pessoas teria uma atitude contrária à minha, mas se todos fossem mais honestos, viveríamos melhor", alegou.
Sendo assim, Luiz Henrique recorreu ao Plantão Policial e registrou boletim de ocorrência (BO) para comunicar a perda dos cheques.
O delegado Milton Bassoto Júnior, do 3º Distrito Policial, alegou que, nesses casos, o primeiro passo é iniciar uma investigação para apurar, entre outras coisas, se serão registrados boletins de ocorrência de perda dos respectivos cheques.
"Como são várias folhas de cheque, provavelmente caíram de um malote de alguma empresa. Tudo indica que os correntistas não vão saber do ocorrido, pois os cheques devem ter sido recebidos por alguém como forma de pagamento. Se as investigações policiais não apontarem os donos dos cheques, aí nós entraremos em contato com os respectivos bancos para que eles acionem os correntistas", explica Bassoto.
As 11 folhas de cheque eram de bancos variados, como Santander, Banco Real, Bradesco, entre outros.
Individualismo se tornou regra, analisa antropólogo
Conforme examina o antropólogo e professor da Universidade Estadual Paulista (Unesp), Cláudio Bertolli Filho, a tendência de um pensamento individualista, que já se tornou comum entre as relações, independe de classe social ou de País.
"Esse tipo de comportamento, no qual as atitudes se valem de vantagens sobre outras pessoas, já faz parte de uma cultura mundial", opina Bertolli.
Segundo ele, a atitude de Luiz Henrique Oliveira Dias é uma exceção numa cultura que estimula cada vez mais posturas individualistas e egocêntricas, que já se tornaram regras.
"Especificamente no Brasil, a partir dos anos 70, principalmente, se expandiu um comportamento individualista, que considera que o ato de ?levar vantagem? seria muito melhor ao invés de praticar uma atitude honesta", explicou.
O hábito ganancioso, de acordo com o pesquisador, infelizmente, já está sendo considerado "normal" para viver em sociedade. E o ambiente político seria uma referência para que as pessoas agissem de maneira mais egoísta.
"O próprio ambiente político é cheio de práticas corruptas. Aí o cidadão se questiona: ?se os próprios políticos não respeitam as leis, roubam e não são punidos, por que um cidadão comum precisa seguir uma conduta correta, respeitar as leis e ser honesto?", expõe o especialista.
Entretanto, Bertolli sublinha que, apesar de grande parte da sociedade estar submetida a uma cultura que facilita o desenvolvimento de posturas egoístas, por outro lado, algumas reações individuais se destacam por fugir do que já se tornou um costume ganancioso.
"Na verdade, agir honestamente deveria ser regra, mas é o contrário que acontece. Assim, o que deveria ser um comportamento correto se torna uma exceção", diz.