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Tenri não sofreu com os terremotos

Por Vitor Oshiro | Colaborou Bruna Dias e Mariana Cerigatto
| Tempo de leitura: 7 min

Nem todos sabem, porém, Bauru tem uma cidade-irmã localizada no sul do Japão e que recebe vários bauruenses por meio de intercâmbios. Felizmente, por conta da distância em relação ao epicentro do grande terremoto (veja o mapa) que atingiu o país, a cidade não foi atingida. O mesmo ocorre em relação à preocupação com o vazamento radioativo de muitos centros urbanos (leia mais abaixo), cujas usinas nucleares mais preocupantes também ficam em localidades longínquas da irmã baurense.

Tenri está localizada na província de Nara e passou a ser considerada cidade-irmã de Bauru por meio da lei municipal n.º 1.462, de 23 de dezembro de 1969, assinada pelo então prefeito municipal da cidade, Alcides Franciscato.

O autor da proposta foi o ex-vereador de Bauru Giro Ichicawa. Hoje, 41 anos após a assinatura, ele relembra de onde surgiu a ideia. "Eu havia ficado cerca de seis meses em Tenri. Percebi que havia um fluxo grande de japoneses que vinham para Bauru, justamente pela cidade ter a igreja Tenrikyo por aqui, que inclusive, é a sede da América Latina dessa religião".

O coordenador e diretor do Clube Cultural Nipo-Brasileiro de Bauru, Shozo Nakamine, possui familiares em Tenri e explica que, em relação à tragédia que atingiu o Japão, a situação no local é mais tranquila. "Eu tenho um irmão e um cunhado lá (em Tenri). Conversei bastante com eles e disseram que o quadro lá é bem mais sossegado. Tenri fica a aproximadamente 700 quilômetros do epicentro do terremoto. Eles só sentiram um leve tremor".

A nora de Nakamine também está na cidade irmã de Bauru. De acordo com ele, a jovem confirmou que os abalos não foram de grandes dimensões. "Ela estava no metrô na hora em que o terremoto aconteceu e disse que só sentiu tremer bem pouco. Ninguém tinha ideia da proporção da tragédia que atingiu os outros centros urbanos", conta.

A ampla distância também coloca uma relativa tranquilidade em relação a ameaça nuclear que preocupa grande parte do país oriental. "As usinas nucleares que estão apresentando todos os problemas estão bem longe de Tenri. Meus familiares falam que isso não está preocupando muito os moradores da cidade. Felizmente, tudo que está acontecendo no Japão não está afetando muito Tenri", completa.

Um outro ponto que pode ter ajudado Tenri a não ter grandes estragos é exatamente o fato de a cidade não possuir prédios. Segundo Shozo Nakamine, não são permitidas tais construções, exatamente para manter a tradição da cidade. "É para deixar a cidade com cara de tradicional. Esta proibição é para preservar exatamente a cultura de Tenri".

O atual presidente do Clube Nipo Brasileiro de Bauru, Nélson Sonoda, relata que também já visitou a cidade e que realmente ainda existem muitos bauruenses lá por conta do intercâmbio. No entanto, como a cidade fica ao sul do Japão, ele também aponta que os estragos não os afetaram.


Tenri


Apesar de irmã de Bauru, a cidade é muito menor. Além do pequeno espaço territorial, a população é de cerca de 80 mil habitantes. Com o convênio firmado em 1969, intensificou-se uma política de intercâmbios entre as duas localidades.

O ex-vereador bauruense Futaro Sato já visitou a cidade japonesa e confirma o fluxo migartório. "Todos os anos ocorre esse intercâmbio. O pessoal de Bauru vai para Tenri e os de Tenri vêm a Bauru para fazer um curso na Unesp (Universidade Estadual Paulista). Antigamente, a tradição era mais divulgada".

Shozo Nakamine explica que Tenri não concentra grandes indústrias e que, por isso, o principal objetivo dos brasileiros - especialmente os bauruenses - são os estudos. "A Universidade de Tenri é muito boa. E não precisa ser da religião Tenrikyo. Ela é aberta a todos. Por isso, muita gente vai e muitos estudantes vêm para Bauru".

Nakamine já abrigou vários desses japoneses em Bauru e explica que são muito educados. "Os jovens são extremamente disciplinados e respeitosos. A única coisa é que eles não têm muito medo de acontecer algo. Não têm medo de andar de madrugada".

O conselheiro do Clube Cultural Nipo-Brasileiro de Bauru, Júlio Kosaka, também já foi a Tenri e explica que essa "falta de medo" é justamente pela realidade diferente em que vivem. "Lá, não há a violência que existe por aqui. Quando fui visitar a cidade, andava de noite com dinheiro, passaporte e compras e nada acontecia. É bastante diferente do que vivemos no Brasil", explica.

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Igreja Tenrikyo


Sede da religião na América Latina, a Igreja Tenrikyo de Bauru, situada na Vila Independência, foi inaugurada em 1951 e atrai grande parte de adeptos da crença e até mesmo pessoas curiosas com a arquitetura do local.

O prédio foi tombado em 2003 pelo Conselho de Defesa do Patrimônio Cultural (Codepac) de Bauru como patrimônio histórico e cultural da cidade.

Por ser a sede latina, a igreja abriga em suas dependências, além do templo, toda a infraestrutura necessária para acolher visitantes, como dormitórios, quadra poliesportiva e refeitório.

Além da parte religiosa, o local oferece cursos de origem japonesa, como o que ensina a língua do país, atividades culturais orientais eo intercâmbio com uma universidade do Japão.

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Parque Bauru e Praça Tenri


Tanto em Bauru quanto em Tenri foram reservados espaços para homenagear o convênio e afirmar os laços de irmandade das duas cidades. Aqui, foi construída na década de 90 a Praça Tenri, localizada em frente ao Zoológico Municipal.

O local é relativamente pequeno se comparado ao Parque Bauru, construído na cidade japonesa. Lá, o espaço é amplo e muito bem cuidado. "Eles fizeram a praça bem no alto. Por todo o caminho que você percorre é possível ver cerejeiras. É um lugar muito bonito", explica o coordenador e diretor do Clube Cultural Nipo-Brasileiro de Bauru, Shozo Nakamine.

O Parque Bauru fica a 200 metros acima do nível do mar e ocupa uma área de cinco alqueires. A inauguração do espaço foi feita em 1980, exatamente para comemorar os 10 anos da assinatura do convênio entre as duas cidades. Uma comitiva bauruense foi até o local para prestigiar a inauguração.

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Bauruense relata medo de contaminação radioativa


Ao contrário da tranquilidade vivida em Tenri, o publicitário bauruense Mario Makuda, que vive há 20 anos no Japão, relata um pouco do drama vivido no País após um dos terremotos mais graves de sua história. Ele, que reside em Oizumi, no Estado de Gunma, a aproximadamente 400 quilômetros do epicentro do tremor, afirma que uma das principais preocupações da população no momento são os riscos após o vazamento da radioatividade da central nuclear de Fukushima.

"Nós estamos a 200 quilômetros de Fukushima. O medo é que o ar se contamine. Num raio de 30 quilômetros de Fukushima, o nível de radioatividade já está acima do normal", relata. Segundo Mario, o governo japonês, diante disso, já alerta a população para usar máscaras, evitar tomar chuvas e manter janelas fechadas. "Já estamos sendo orientados a tomar esses cuidados", alegou.

Após outros terremotos desencadeados, Makuda diz que sua rotina foi radicalmente quebrada. Ele, que edita uma revista para o público brasileiro que mora no Japão, relata que a população naquela localidade está enfrentando enormes filas nos supermercados e postos de combustíveis. "Estou sem combustível para andar de carro", relatou. A maioria das empresas estão paradas e escolas têm aulas de maneira parcial frente ao racionamento de energia.

O cenário é desestimulante: as prateleiras dos supermercados das cidades estão se esvaziando rapidamente. "Os alimentos estão cada vez mais limitados. Estamos tendo dificuldade em encontrar comida instantânea e industrializada. Daqui a pouco, creio que não será possível encontrar nem arroz", lamentou.

Outro problema enfrentado é o racionamento de energia. "O governo está precisando racionar a energia, distribuindo-a nas regiões em intervalos de 4 em 4 horas, já que a capacidade de produção diminuiu em 50%", informou. "Assim, o tempo de produtividade foi bastante reduzido", afirmou Makuda.

O publicitário conta que, mesmo estando a 400 quilômetros do epicentro, o tremor foi sentido onde o ele e a esposa vivem. "Aqui em Oizumi caíram muros, casas mais antigas ficaram danificadas, os móveis dos prédios caíram todos chão. O fenômeno pode ter atingido aproximadamente 6 graus de magnitude na escala Richter", conclui.

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