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Parente pediu dinheiro. Dá para dizer não?

Luiz Beltramin
| Tempo de leitura: 7 min

"Amigos, amigos... negócios, à parte". Chavão, clichê, batido? Correto! Não é raro quem nunca passou por uma saia justa dessas. Um parente em confraternização familiar, um amigo de longa data ou um mero conhecido, lá de tantos anos atrás, do nada chega em você na rua e pede uns trocados para pagar o condomínio que está atrasado ou quitar um débito antigo, talvez até mesmo de outro empréstimo.

Encurralado pela situação, você não sabe o que dizer: não tem a quantia ou mesmo não quer despender de seu suado dinheirinho (não é pecado algum querer manter o que é seu e ganhou com tanto suor). Mas por amizade, consideração ou simplesmente pressão social (para não ser o mecenas da história), cede, mas sabe que, dificilmente, vai ver aquela "oncinha" voltar para onde saiu.

O mais importante, receitam estudiosos e especialistas em "saúde financeira" é: proteja-se, ou seja, se não der, não deu. Diga não, sem medo. "Na nossa cultura, quem nega fica com a fama de alguém que não ajuda", observa o educador financeiro Mauro Calil.

Claro que ninguém precisa ser radical e "mão de vaca" extremo, sem ajudar a quem precisa, principalmente gente próxima, diz o especialista. Entretanto, pondera, na maioria dos casos, despender de certa quantia em dinheiro nesse tipo de abordagem é uma via de mão única, ou seja: o dinheiro vai, mas não volta. "Encare como uma doação", aconselha.

Segundo o educador financeiro, é melhor encarar uma pequena perda do que perder uma amizade ou até mesmo arrumar encrenca: "no momento de cobrar a dívida, a pessoa vai inverter a situação e dizer que está sendo chamada de desonesta por você", ilustra Calil.

Sem medo de dizer não

Em caso de quantias maiores, não tenha o menor constrangimento em não ceder, não importa o tipo de apelo. "Se for por algum motivo nobre, disponha de outro tipo de auxílio. Se a pessoa pede para comprar algum remédio, por exemplo, ofereça o remédio, não dinheiro", complementa.

Se o empréstimo em espécie for inevitável, acentua o economista, não abra mão das garantias, independentemente para quem seja a colaboração. "Registre em cartório um termo de compromisso de dívida, exija garantias", orienta o especialista. "Tenha os mesmos cuidados que qualquer instituição financeira tomaria, mesmo que não envolva juros", detalha.

Seja envolvendo uns trocados ou vultuosas quantias, dinheiro emprestado para amigo ou parente, sempre acaba em desconforto para ambas ou, ao menos, alguma das partes. "Em conversa com um grande empresário paranaense, ele se queixou comigo de que, nessas situações, você perde dinheiro e amigos. Ele não consegue recuperar uma dívida de R$ 3 milhões, dinheiro emprestado a um amigo, que quer dar a casa para quitar o débito. O imóvel está avaliado em R$ 500 mil", exemplifica.

Uma boa tática para detectar o estereótipo do "cunhado folgado", aconselha Calil, é observar o estilo de vida de quem faz a abordagem, geralmente desconsertante. "Veja com que carro anda e como mora essa pessoa, que, muitas vezes, quer dirigir carrão, comer e beber em restaurante caro, mas não paga o condomínio e recorre a você para isso", descreve. "Se uma instituição financeira não dá crédito a essa pessoa. Por que você daria?", indaga.


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Livro ensina organização financeira

Para auxiliar justamente as pessoas a se organizarem financeiramente e, desta forma, ao menos diminuir o contingente de "cunhados inoportunos", o educador financeiro Mauro Calil escreveu o livro "A Receita do Bolo", com macetes para o leitor se organizar financeiramente e, assegura, acumular boas cifras na conta bancária.

Em "A Receita do Bolo" (73 páginas), ele traça desde os primeiros passos para quitar débitos e depois engordar a massa e obter sucesso, galgando até mesmo a riqueza, por meio de uma analogia entre economia e culinária.

"O dinheiro é a farinha, a temperatura são os juros e o tempo é o fermento", compara. Se sobra um dos elementos, faltam outros. Eles precisam ser regulados", completa o autor, que também ministra cursos sobre o tema.

Para ele, um indivíduo pode se organizar entre três e quatro meses. "A partir daí não tem mais volta. A pessoa traça um objetivo, uma meta. O pulo do gato é esse. Depois ela não volta a se desorganizar, se habitua a conduzir a própria vida e não em ser levada por ela. Isso só é bonito na música do Zeca Pagodinho", ilustra.

No blog Saberladino, há dicas interessantes de como dizer não sem magoar ou cortar relações com um membro da família. Em entrevista, a diretora da Pharos Consultoria, Dora Ramos, afirma que o ideal, nessas situações, é sair pela tangente, ou seja, ouvir os apelos de quem precisa de dinheiro, dizer que precisa pensar antes de dar a resposta. O ideal é jamais se comprometer no calor da emoção ou durante uma festa regada a bebida alcoólica.

Para quem é casado, diz, vale sempre pedir a opinião do parceiro. Não importa se o dinheiro emprestado é do marido ou da esposa, o fato é que existe um vínculo jurídico unindo o casal e, nesse caso, qualquer perda pode abalar a situação financeira de ambos.


Pagamento em dia

De qualquer modo, se você avaliou e acha que é possível emprestar, todos os consultores financeiros afirmam: pedir garantias é o primeiro passo para reduzir as chances de tomar prejuízos nos negócios com parentes e amigos. E mais: é preciso marcar data para recber o dinheiro emprestado, mesmo que em parcelas.

Outra dica é: faça a análise de crédito da pessoa da mesma maneira que os bancos e financeiras fazem. Se o histórico não é bom, não empreste. Se o indivíduo deve a todo mundo, não é a você que ele vai pagar.

Por fim, tome muito cuidado com as aparências. Nem sempre quem parece estar apenas passando por um mau momento merece crédito. Mauro Calil conta que conheceu o caso de um executivo que todos os anos pedia dinheiro emprestado a um amigo para pagar o IPVA de seus carros recém-comprados, entre eles um Pajero e um Fusion. "É o caso típico de pessoas mal-educadas financeiramente, que confundem crédito com renda e vivem acima de suas posses, aparentando algo que não são. E aí, você é o bobo que financia os sonhos de terceiros".

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Tempos do ?fio do bigode? passaram

Antigamente, costumava-se dizer que um negócio de extrema confiança entre as partes, mesmo sem qualquer documento assinado, era algo tratado "no fio do bigode". A troca do fio entre distintos cavalheiros em outros tempos tinha peso, às vezes, muito maior do que qualquer rubrica ou registro em cartório e significava plena garantia de cumprimento dos acordos. Do contrário, a honra, mais valiosa que dinheiro, estaria arranhada.

Contudo, em tempos de "topa tudo por dinheiro", certos predicados éticos parecem perder peso para alguns, daí a importância de precaver-se e, se necessário, negar mesmo. Tudo em nome da proteção da própria saúde financeira.

Mas nem sempre é assim, e a boa vontade em colaborar com o próximo prevalece. E, consequente e infelizmente, decepções também. Foi assim com o comerciante Márcio Uehara. Dono de uma loja de cosméticos na Capital, ele se compadeceu do drama de um funcionário de extrema confiança e topou ser fiador de um automóvel para o empregado.

Ele não contava que o carro não teria as prestações pagas e, pior, seria revendido pelo funcionário, que repassou o veículo para um parente no Estado do Rio de Janeiro. "Nunca seja fiador, por mais que conheça a pessoa", adverte. "Ela pode te ferrar", desabafa. "Esse funcionário era de muita confiança, me ajudava demais. Passava necessidades, almoçava e jantava na loja, eu não via problemas nisso e confiei pela convivência", argumenta o comerciante que, além da decepção pessoal, teve o nome negativado no Serviço de Proteção ao Crédito (SPC). "Estou com o nome sujo há mais ou menos um ano", disse, em entrevista ao JC, por telefone. "Sou comerciante, preciso do nome limpo", protesta. "Infelizmente, as pessoas não têm a mesma índole que a gente. O ser humano não deveria ser desse jeito", lamenta.

No caso, o funcionário em questão pediu ajuda para comprar um carro sem ao menos ter condição de ter comida em casa, já que fazia as refeições por conta e no estabelecimento comercial de Uehara. Esse é um dos pontos ressaltados pelo educador financeiro Mauro Calil. "A maioria pede favores financeiros por vaidade. Existe muita gente que vive de aparência ou então comete muitos equívocos, não consegue se organizar financeiramente, tem dificuldade em estabelecer prioridades", observa.

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