Parque Nove de Julho
Tarde de sexta-feira, 18 de março. O carro da equipe de reportagem do Jornal da Cidade estaciona em frente à casa do casal Nivaldes Bordim e Josefa Mendes Bordim, localizada no Parque Nove de Julho, em uma rua de terra que, na ocasião, estava enlameada por conta da chuva.
Assim que o carro é desligado e o ronco do motor cessa, Josefa aparece no portão. Animada e com as chaves da casa nas mãos, nos convida a entrar.
A enfermeira Marlei Cristina Vieira, a médica Daniela Alarcon Monteiro Fernandes e a agente comunitária Rosimeire Rodrigues de Araújo, conhecida como Rose, integrantes de uma das equipes do Programa Saúde da Família (PSF), não conseguem conter o espanto.
"Olha só, é a dona Josefa! Não acredito que ela já está assim... veio até nos receber no portão", comemora Marlei, acrescentando que, até algum tempo atrás, a paciente nem se levantava da cama por conta dos problemas com artrite, osteoporose e reumatose.
Na garagem, mais surpresas: além de Josefa ter a saúde em ordem, também melhorou a autoestima. "Está perfumada, com batom... É assim que eu gosto", elogia Rose.
Josefa e Nivaldes começaram ser atendidos em casa pelo PSF há cerca de quatro anos, quando um dos agentes comunitários de saúde do bairro passou por sua residência.
Nivaldes é hipertenso e já sofreu enfarto. Por isso, seu quadro de saúde requer monitoramento constante. Antes de ser beneficiado pelo PSF, sempre que precisava de atendimento, tinha de disputar uma vaga no Posto Central de Saúde, distante cerca de 15 quilômetros de sua casa.
"Agora, quando preciso, ligo na Unidade de Saúde da Família, aqui pertinho de casa, e eles me orientam. Temos uma amizade muito legal. Médicos, enfermeiros e agentes estão sempre informados do que acontece conosco e vibram com nossas melhoras", explica Nivaldes.
Apesar de a médica e a enfermeira serem fundamentais na melhora do casal, é a agente comunitária de saúde quem colhe os frutos do trabalho. Frutos que vêm em forma de carinho e gratidão por parte dos moradores. Neste papel, Rose responde por 180 famílias do bairro, cerca de 710 pessoas.
"A Rose está sempre por aqui, é como se fosse da família", compara Josefa.
Para alcançar os resultados desejados, Rose faz a linha dura. Cobra atitudes e mudanças de seus pacientes, além de fiscalizar se eles estão fazendo tudo conforme o prescrito pela médica.
A saúde de Nivaldes e Josefa está bem. Daniela e Marlei realizaram os exames necessários e deram orientações relacionadas à alimentação e exercícios. Agora, é só esperar a próxima consulta, que já está agendada.
Pousada da Esperança 2
Tereza Campaneruti Capuraro, 61 anos, é moradora da Vila Pousada da Esperança 2 e sofre de pressão alta. Descobriu o problema por acaso, há quatro anos, quando foi atendida pela primeira vez por uma equipe do Programa Saúde da Família (PSF). Se não fosse assim, talvez nunca descobrisse a doença ou quem sabe, quando soubesse, seria tarde demais.
Desde então, Tereza é acompanhada pelos agentes, médicos e enfermeiros que atendem o bairro através do PSF. O monitoramento é feito em sua própria residência, já as consultas médicas são agendadas e Tereza precisa ir até o Posto de Saúde da Família. "Na unidade, temos uma estrutura melhor do que na casa do paciente. Além disso, é uma forma de fazê-la caminhar, exercitar-se", explica a médica Ana Paula Sola. O trabalho tem surtido efeito. "Já emagreci três quilos e vou perder ainda mais, porque vou começar a participar do grupo de caminhadas", conta Tereza, animada.
Na penúltima sexta-feira, dia 11, Ana Paula e o agente de saúde Éder Antônio Góes atenderam Tereza em casa. Conversaram com ela sobre aspectos do cotidiano, informaram-se a respeito de sua rotina e dos remédios que ela está tomando e mediram a pressão. Tudo ok.
Enquanto Tereza era atendida por Ana Paula e Éder, sua vizinha Silvia Helena de Souza aguardava ansiosa. Ela estava nervosa porque tinha brigado com a sobrinha e, além disso, há alguns dias, começou a sentir dores nos pés, o que a impediu de ir até a Unidade Básica de Saúde da Família.
"Vou aproveitar a consulta da Tereza e me consultar também. Não posso deixar os médicos escaparem, preciso de ajuda urgente. Além disso, meus remédios estão acabando, preciso de mais", queixava-se, preocupada.
Alguns minutos depois, já tranquilizada por Éder e Ana Paula, Silvia Helena foi examinada e encaminhada pela médica para um especialista em neurologia.
"É um alívio saber que está tudo certo. O atendimento em casa é muito bom porque não é preciso enfrentar fila em posto de saúde. Além disso, é possível criar uma relação de confiança com quem te atende e isso é muito importante", ressalta Tereza, que batizou as flores da roseira que fica em seu quintal como Valquíria e Cléia, nome das agentes comunitárias que acompanham sua saúde.
"Agora tenho de plantar um pé de cravo para homenagear o Éder", brinca.
Vila São Paulo
Tão importante quanto manter a saúde do corpo em ordem é manter a saúde bucal em ordem. Isto porque uma dor de dente ser tão ou mais dolorosa que uma gripe forte e uma infecção nas gengivas é capaz de fazer passar mal assim como a pressão alta.
Por conta disso, o Programa Saúde da Família (PSF) disponibiliza aos seus pacientes, além de médicos e enfermeiros, dentistas e auxiliares de consultório dentário.
Na Vila São Paulo, o trabalho de prevenção e tratamento da saúde bucal começou há cinco anos, com a intenção de complementar o atendimento básico do PSF, e já alcançou bons resultados.
"As crianças, por exemplo, estão conscientes de que é preciso escovar os dentes a cada refeição. Tem mãe que me conta que o filho escova os dentes a cada bala que come. Eu fico feliz", explica o Gustavo Nardi Nogueira, dentista do PSF há cinco anos.
O trabalho das equipes de saúde bucal visa atingir a maior parte da população dos nove bairros atendidos. Para isso que isso seja possível, além das visitas domiciliares realizadas duas vezes por semana e das consultas diárias na Unidade Básica de Saúde, as equipes realizam palestras nas sete escolas do bairro e promovem grupos de debate.
Na última terça-feira, dia 15, parte dos moradores da Vila São Paulo receberam a equipe comandada por Gustavo. Uma das casas visitadas foi a de Wanderlígia Aparecida de Oliveira, 49 anos. No local o dentista examinou a dona da casa, seus quatro netos, sua nora e sua filha.
"Acho importante a visita nas casas. Para falar a verdade, eu corro de dentista. Não sei porquê, mas tenho pavor. Se dependesse de eu ir até o consultório, meus dentes ficariam do jeito que está", confessa Wanderlígia, que descobriu ter diabetes por intermédio de uma consulta com o dentista. "Eu nem desconfiava que era diabética. Agora estou me tratando", afirma.
Para Gustavo, as famílias precisam ter um atendimento básico interligado para que seja possível identificar todos os problemas de saúde e tratá-los da melhor maneira possível.
"Não adianta nada eu tratar da boca se a pessoa tem diabetes e pressão alta. O atendimento à família deve ser completo e, por isso, é importante diagnosticar todos os problemas. Posso tentar extrair um dente, a paciente passar mal, e eu não saber o motivo", exemplifica.
A visita na casa de Wanderlígia durou pouco mais de 30 minutos. Além das avaliações bucais, Gustavo ensinou às crianças a maneira correta de escovar os dentes. Saldo: algumas cáries para eliminar dos dentes do pequeno Wellington de Oliveira, 7 anos, necessidade de tratamento da mordida cruzada da gestante Larissa de Oliveira, 14 anos, além de dentes para extrair da boca de Wanderlígia.
O troféu de dentes mais bem cuidados da casa ficou com Robert Willian da Silva, 7 anos. Ele ganhou elogio do dentista porque não tem nenhuma cárie e dentes muito bem escovados.
Santa Edwirges
"Se Maomé não vai à montanha, a montanha vai a Maomé". A máxima podia ser o lema do trabalho realizado pela equipe de saúde bucal do Programa Saúde da Família, que visita casas de nove bairros da periferia da cidade para conscientizar e tratar problemas bucais da população.
Diferente da saúde básica, em que os pacientes têm a iniciativa de recorrer aos postos em busca de atendimento, o tratamento bucal não tem tantos adeptos. De acordo com as dentistas Tharsila Spadotti Amaral Castro Volpe e Catherine Ferraz Vanin Sorace, que integram as equipes de saúde bucal da família da unidade do Parque Santa Edwirges, as pessoas ainda têm um pouco de receio em fazer o tratamento dentário.
"Os pacientes costumam nos procurar quando já estão sentindo dores e o quadro já está mais complicado. Por isso a importância de ir de casa em casa, convencendo os moradores", explica Catherine.
"Além disso, ao frequentar o domicílio da pessoa é possível criar um vínculo afetivo, que torna possível avaliar outras coisas como, por exemplo, se as condições de moradia estão de alguma forma interferindo na saúde. É um tratamento humanizado", define Tharsila.
As duas equipes de saúde bucal da família instaladas na Unidade de Saúde da Família do Parque Santa Edwirges atendem, além do bairro, parte do Parque Jaraguá, o Núcleo Fortunato Rocha Lima e o Parque Nove de Julho, o que totaliza uma média de 8 mil pessoas.
Para isso, contam com equipamentos móveis para atender aos pacientes que não têm condições de sair de casa, além de outros recursos, como os coloridos fantoches, que animam as palestras feitas nas escolas dos bairros.