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Aos 68 anos, morre ?João Dez e Meia?

Mariana Cerigatto
| Tempo de leitura: 5 min


Morreu ontem um dos "gourmets" da música e ícone do rádio em Bauru. Aos 68 anos, João Olckmey Albert Leite, conhecido como "João Dez e Meia", nome do programa de rádio que comandou por mais de 15 anos, sofria de diabetes. Ele lutou pela vida e para manter sua carreira na rádio 96 FM, mas a história deste aficcionado por jazz e MPB teve seu último capítulo ontem, por volta das 7h, após passar alguns dias internado no Hospital de Base (HB), conforme relato de familiares. O corpo está sendo velado no Terra Branca e o sepultamento está previsto para hoje, às 9h, no Cemitério da Saudade.

João foi vítima de uma septicemia, grave infecção no organismo que, provavelmente, foi causada e agravada pela diabetes, segundo informações de amigos e parentes. A notícia de sua morte surpreendeu a todos. "Além de um profissional marcante na 96 FM, ele era um amigo de todos. Vou lembrar dele com muito carinho", salientou Luiz Carlos Capelin, gerente da 96 FM.

A característica marcante de "João Dez e Meia" era o seu gosto refinado por música. Entre seus gêneros preferidos estavam o jazz, blues e a MPB. Pelo seu grande conhecimento, João passou a comandar e apresentar um programa que selecionava clássicos desses gêneros musicais aos ouvintes.

"A primeira edição do programa, veiculado às 22h30 aos domingos, surgiu em 1992, chamada de "João Dez e Meia", e fez um grande sucesso entre o público que gostava desses estilos musicais", contou Luiz. "De 1998 em diante, o programa mudou de horário, passando a ser transmitido nas manhãs de domingo. Assim, nós resolvemos mudar o nome também, de ?João Dez e Meia? para ?Jazz entre outros?".

Repertório


Luiz Capelin lembra que João tinha um repertório fascinante sobre variados gêneros musicais e o gosto por "música de qualidade" ajudou o programa se estender por quase duas décadas na rádio.

"Com a diabetes, ele ficou bastante debilitado, mas mesmo assim, nós passamos a ir até a casa dele para gravar os programas. Sempre vou me recordar dele como uma pessoa alegre, amiga, responsável e muita extrovertida", disse Luiz.

O amigo Marco Antonio Gião, de 68 anos, era companheiro de João "Dez e Meia", que passou a morar sozinho em Bauru após o falecimento de sua mãe. O amigo conta que João, nascido em Lupércio, Interior de São Paulo, mudou-se para Bauru na infância, mas não se casou e também não teve filhos. Antes de trabalhar com música, João atuou na área de vendas e foi nesta época que Marco o conheceu.

"Eu era um amigo dele de mais de 20 anos e de vários momentos. João era meu companheiro de cafés, conversas sobre música e viagens", recorda o amigo. "Infelizmente, ele ficou bastante enfraquecido com a diabetes. Mas sempre vou me lembrar dele como uma pessoa muito alegre, um bom amigo", frisou Marco.

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Personalidade forte e bom humor eram suas características marcantes


O ex-prefeito de Bauru, Antônio Tidei de Lima, em entrevista ao JC fez questão de destacar a personalidade de "João Dez e Meia". "Éramos amigos desde a juventude. O João era uma figura diferenciada. Ele tinha cultura numa época em que a juventude era focada na onda do rock, das festas e da badalação", comentou. "E eu me recordo dele sempre engraçado, feliz da vida".

Tidei conta que João chegou a se candidatar a vereador na década de 80 em Bauru. "Ele se candidatou num período em que a juventude ficou entusiasmada pelo levantamento da democracia. Tendo como referência os ideais democráticos daquele período, ele foi um entusiasta, achando que poderia contribuir nesse movimento em que os princípios democráticos se destacavam", alegou Tidei, que era deputado federal na época.

"Eu lamento a morte dele. João fazia um ótimo programa na rádio e eu era ouvinte assíduo", enfatizou.

O diretor do Grupo Cidade, Renato Zaiden, também recordou da personalidade de João.

"Uma pessoa muito querida, muito bem relacionada e sempre de bom humor. Participante de muitos Carnavais da cidade, João sempre era lembrado por seu grande conhecimento na área de música", disse.

"Fui em quem recebi de Luciana Gonçalvez a proposta de seu programa musical na rádio na década de 90 e aceitei. Posso dizer que foi uma excelente decisão, um programa com audiência qualificada, tanto em Bauru quanto na região", recorda Zaiden, salientando a personalidade marcante de João.

"Ele deixou seu legado na rádio e marcou a todos com sua amizade. João sempre levantava o astral das pessoas por onde passava. Tive o privilégio de receber o carinho e amizade dele durante nossa convivência e fico triste por sua partida", concluiu.


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?Museu de discos? em sua casa era a prova da paixão pela música


Conhecido por seu extenso repertório cultural, não há quem não conversasse com "João Dez e Meia" e não ficasse bem informado sobre gêneros mais nobres da música, como jazz e MPB, suas grandes paixões. Quem conta um pouco mais dessa intimidade com a área musical é Luciana Gonçalvez, 45 anos.

Também apaixonada por música, ela lembra que o conheceu através de seu esposo, Nelson Bergamini, de quem João é primo de segundo grau. "Conheci o João na década de 90, na então discoteca mais ?badalada? da cidade, a chamada ?Discoteca de Bauru?. Eu estava entusiasmada para conhecer o homem que mais entendia de música na cidade, visto que eu também sempre fui muito ligada à área e produção musical", recordou Luciana.

Foi então que ela se surpreendeu quando resolveu visitar João, que acabou sendo padrinho de seu casamento. "Ele tinha pilhas e pilhas de discos de vinil, um verdadeiro museu da música em sua casa. Ali tinham discos raros, coisa que até se perderam com o tempo. Eu fiquei impressionada com tamanha paixão e conhecimento e propus ao João que ele passasse a apresentar um programa de rádio. Na hora ele não levou a sério, mas eu levei a proposta à radio 96 FM", alegou.

A ideia, para a surpresa de Luciana e João, foi bem recebida pela emissora. "Na época, eu me lembro que o Renato Zaiden e o Luiz Capelin aceitaram a proposta e então ele entrou no ar, no dia 17 de maio de 1992", disse Luciana.

"Ele se tornou referência de bom gosto, foi um ícone da rádio bauruense. Eu me lembro muito bem do primeiro dia que João entrou com o programa no ar. Ele conseguiu transmitir toda a emoção, alegria e ansiedade do momento, sempre mandava recados aos ouvintes e desempenhou a veiculação desse programa com amor", afirmou.

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