Basta lembrar o histórico recente de ações e omissões da ONU para desconfiar das análises que defendem os bombardeios à Líbia. As forças de segurança agem, agora como antes, de acordo com os anseios geopolíticos das potências econômicas mundiais. A preocupação humanitária não foi capaz de mobilizá-las contra o genocídio em Ruanda, por exemplo. As dezenas de ditaduras "aliadas" jamais provocaram os valores democráticos da polícia mundial. As populações de países pobres em riquezas minerais continuam abandonadas à própria sorte, não importando a virulência de seus governos.
A abstenção brasileira na sessão que aprovou o ataque foi correta porque demonstrou que nossa diplomacia está ciente dessas contradições, negando-se a endossar discursos hipócritas e uma investida temerária de resultados incertos para o Brasil, para o povo líbio ou mesmo para o avanço dos Direitos Humanos no planeta. Depois das farsas criadas para invadir o Iraque ou o Afeganistão qualquer postura diferente seria submissa ou irresponsável.
Alguém de fato imagina que mísseis lançados a quilômetros de distância sobre áreas urbanas populosas conseguirão poupar inocentes? As conseqüências de uma guerra civil (massacres, destruição, êxodos) justificam a derrubada eventual de tiranos com fortunas protegidas em contas bancárias na Europa? Todos os apoiadores de Gaddafi (nacionalistas, por exemplo) devem ser dizimados? E se as forças rebeldes começarem a torturar e fuzilar idosos, mulheres e crianças? Serão bombardeadas também? Essas indagações espinhosas surgirão daqui a pouco, assim que as coisas saírem do controle. Os comentaristas alinhados a Washington podem ir preparando algumas respostas para evitar o vexame de outras ocasiões trágicas em que lhes faltaram prudência e verdadeiro espírito solidário.
O autor, Guilherme Scalzilli, é historiador e escritor, publicado no blog - http://guilhermescalzilli.blogspot.com