É uma coisa absolutamente natural que Fazenda e Banco Central estejam de acordo na condução da política monetária desde a confirmação de Guido Mantega no ministério Dilma e a escolha de Alexandre Tombini para presidir o BC. Alguns analistas que trabalham no mercado financeiro ficam tristes com este fato e chegam a estranhar a ausência de desencontros como aqueles que caracterizaram o período precedente, quando o Copom conseguiu sustentar altas taxas de juro por períodos excessivamente longos, a despeito da oposição mal disfarçada do ministro da Fazenda.
Não deve haver subordinação do Banco Central à autoridade fazendária, mas sim uma cooperação inteligente para a execução da política fiscal de responsabilidade do ministério e a política monetária que é conduzida pelo banco. Depende do nível de coordenação entre as duas entidades o maior ou menor sucesso no cumprimento das metas de crescimento econômico, mantendo-se o controle da inflação, permitindo eventual correção no câmbio e demais setores sensíveis. A estranheza manifestada pelo setor financeiro apenas insinua que essa maior coordenação vai comprometer a autonomia do Banco Central, o que obviamente é pura "armação" tupiniquim. Basta olhar o mundo e constatar que as duas instituições trabalham normalmente na mesma direção: não se imagina o presidente do Federal Reserve contestando (pelo menos publicamente) as diretrizes da Secretaria do Tesouro americano, com quem tem que trabalhar unido para poder realizar a sua missão mais importante que é garantir a solidez do sistema bancário.
O nosso Banco Central tem feito com bastante sucesso esta primeira parte, mantendo o sistema bancário hígido como se viu durante a crise financeira mundial de 2007/2009. A segunda missão é controlar a inflação, mantendo-a nos limites da meta estabelecida pelo governo. Nesse momento de crescimento de tensões políticas e enfrentamento militar em regiões sensíveis como o Mediterrâneo, ainda no rescaldo da maior crise financeira desde o término da segunda grande guerra, o combate às tensões inflacionárias se tornou muito mais difícil e complicado para o Brasil.
Isso acontece não apenas em razão de pressões externas, mas pela própria mudança de estrutura da demanda em nosso mercado interno, produzida pelo sucesso da política de redistribuição de renda no governo Lula. Houve uma mudança profunda, com a ascenção dos grupos de menor renda que afetou a estrutura da demanda de bens e principalmente serviços, que não podem ser importados. Trata-se, na realidade, de uma benção, pois representa a melhoria do bem estar da sociedade brasileira.
O combate à inflação tem o aspecto doméstico, uma frente onde é preciso controlar a demanda global interna e nisso o Ministério da Fazenda exerce o papel mais importante ao reduzir os gastos do governo e tem o problema de enfrentar as tensões externas com o aumento dos preços das matérias-primas, tais como os alimentos e os minerais que exportamos. É necessário paciência, pois não é fácil eliminar atritos e trabalhar coordenadamente de forma a evitar o recurso fácil de aumentar a taxa de juros como vinha sendo feito, elevando extraordinariamente os custos sociais do desenvolvimento.
O autor, Antonio Delfim Netto, é professor emérito da FEA-USP, ex-ministro da Fazenda, da Agricultura e do Planejamento