Regional

Marília criou Museu de Paleontologia com fósseis

Rita de Cássia Cornélio
| Tempo de leitura: 7 min

A Secretaria Municipal de Cultura e Turismo de Marília inaugurou em 2004 o Museu de Paleontologia, no Centro da cidade. Sob a coordenação do paleontólogo Willian Roberto Nava, o local está aberto à visitação, tanto para a comunidade como para as escolas e universidades.

"Trata-se do segundo museu do Interior Paulista com exposição permanente de fósseis de animais que viveram no período Cretáceo, entre 70 e 90 milhões de anos. Além das dezenas de escolas da cidade e da região, também já recebemos alunos de graduação do curso de geologia da Universidade Federal do Paraná e Universidade Federal do Rio de Janeiro".

Para o pesquisador, o museu contribui para o conhecimento científico nacional e internacional na área de paleontologia e está se tornando um dos grandes potenciais científicos da região, tendo em vista a raridade do material encontrado.

"O museu abre novas perspectivas no campo científico e também para o turismo local e regional com o incremento de atividades pedagógicas, visitas técnicas monitoradas, produção de material impresso e outros recursos que auxiliam na educação e na maior divulgação do espaço, até como forma de gerar e atrair novos recursos e investimentos. Tem como objetivo a busca e pesquisa dos fósseis, sua preservação, divulgação junto à comunidade local e regional, exposição do acervo de ossos principalmente de dinossauros, que são o grande chamariz para o público leigo e crianças, e as reconstituições em vida do Mariliasuchus e do Adamantinasuchus, para dar uma ideia de como eram esses pequenos crocodilos, que viviam entre os grandes Titanossauros."

No museu podem ser vistos diversos ossos de dinossauros (Titanossauro), restos de crocodilos, ovos fossilizados, peixes da Chapada do Araripe (CE), troncos de árvores fossilizados, restos de tartarugas, banners ilustrativos, fotografias de expedições realizadas nos campos de pesquisa da região e mapa de ocorrências fossilíferas dentro do Grupo Bauru, entre algumas atrações.


Descoberta recente

Esta semana, o periódico científico Science divulgou a descoberta do Tiarajudens eccentricus, um herbívoro que viveu há 260 milhões  no Brasil. O fóssil foi descoberto por pesquisadores da Universidade Federal do Rio Grande do Sul e da Universidade Federal do Piauí, em Tiaraju, interior do Rio Grande do Sul. A descoberta é um marco pois representa o mais antigo de uma estrutura dentária sofisticada, com molares, caninos e incisivos.

Apesar de comer apenas plantas, o fóssil tinha um par de dentes de sabre (um carnívoro ferrenho). Os cientistas consideraram três hipóteses para os caninos de 12 centímetros: manipulação dos alimentos antes de os abocanhar, defesa contra predadores ou uso em disputas com indivíduos da mesma espécie.

Os pesquisadores ficaram surpresos com a descoberta porque o animal reúne características inesperadas. Eles têm a impressão de ser a mistura de animais diferentes. Ele possui dentes incisivos similaresaos de um ruminante dentes molares que lembram de uma capivara.

Segundo o periódico, a descoberta traz as primeiras evidências da capacidade dos terapsídeos (grupo de aniamis do qual a Tiarajudens eccentricus faz parte e que deu origem aos mamíferos) de mastigar de forma eficiente os alimentos.


Pequeno réptil achado na região

Um pequeno réptil com características de crocodilo que viveu no período Cretáceo Superior é a Mariliasuchus amarali. Medindo até 1 metro de comprimento, possuía crânio e rosto altos, hábitos terrestres, e dieta alimentar bastante variada: herbívora, onívora, insetívora, carnívora e eventualmente necrófaga.

A presença de narinas externas terminais e órbitas laterais, indicam hábitos menos anfíbios, além de um número menor de dentes que as formas aquáticas.

Na região de Marília, seus fósseis muitas vezes são encontrados articulados, mostrando que quase não sofreram transporte, ou seja, o ambiente onde viviam deveria ser composto por rios de baixa energia, planícies e lagoas temporárias, que se originavam do acúmulo de águas de chuvas. Associados aos restos de Mariliasuchus são achados também ovos e coprólitos do mesmo réptil, escamas, dentes e restos ósseos de peixes, e restos de anfíbios.

Os estudos feitos com esses fósseis, e por analogia com espécimes encontrados no Maranhão e no Ceará, na Argentina e Uruguai, e também Nigéria, Malawi, Camarões e Ilha de Madagascar na África, permitiram concluir que de fato a América do Sul e a África estiveram unidas por um longo período, tempo esse em que a fauna pôde se desenvolver até quando começou a haver a separação dos continentes, fato que deve ter afetado muito a vida dos animais e das plantas, exigindo uma adaptação às mudanças de clima, de vegetação que devem ter provocado a extinção de muitas espécies, e a sobrevivência de outras, segundo o pesquisador Willian Naba.


Ovos fossilizados

Entre os fósseis mais importantes relacionados aos crocodilomorfos , estão ovos fossilizados e coprólitos do Mariliasuchus amarali.

"Esses ovos fósseis constituem o primeiro registro desse tipo de fóssil no Brasil. Tudo indica que os animais, vivendo em populações perto de lagoas, ali depositavam seus ovos, e muitos eram rapidamente soterrados por grandes cargas de sedimentos, passando assim para o registro fóssil", segundo Wiilian Navas.

De acordo com estudos já publicados sobre o Mariliasuchus e o Adamantinasuchus, apurou-se que esses animais além de um comportamento gregário e terrestre que lhes permitia caminhar longas distâncias em áreas com clima quente e seco, tinham um hábito alimentar bastante diversificado, podendo incluir em sua dieta desde carne até vegetais. "Isso é um dado bastante incomum para os crocodilos de hoje, que só vivem na água e possuem dieta carnívora.


Divulgação científica

Diversos fósseis encontram-se depositados para estudos em instituições como Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) Museu Nacional da UFRJ, Unirio, Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), Museu de Zoologia da USP, Unesp câmpus de Bauru, Museu de História Natural de Taubaté, e recentemente Universidade de Brasília (UnB), em parcerias técnico-científicas bastante promissoras. Alguns fósseis achados em Marília e região já foram citados em importantes periódicos de Paleontologia, como o American Museum Novitates e Gondwana Research em 2006, o Bulletin of Geosciences em 2009 e neste ano o boletim dos Anais da Academia Brasileira de Ciências.


Era dos Grandes Répteis

Foi na era Mesozóica mais conhecida como Era dos Grandes Répteis que os dinossauros surgiram em nosso planeta. Esta era durou de 248 milhões a 65 milhões de anos. Os répteis que chegavam a pesar toneladas alimentavam-se de carne, frutas, plantas e de insetos. Graças ao peso, tinham grande dificuldade de deslocamento.

Os estudos desenvolvidos por paleontólogos com diversos fósseis levaram a algumas conclusões. O velociraptor evoluiu para algumas espécies de aves que conhecemos hoje. Animais como o dragão de comodo e diversas espécies de lagartos também são parentes diretos de alguns tipos de dinossauros.


Dinossauros que viveram no Brasil

Principais espécie: espinossauro, abelissauro, carnossauro, celurossauro, estauricossauro, iguanodonte, titanossauro.

Espinossauro ou spinosaurus aegipticus: viveu na região do atual estado do Ceará há mais de 100 milhões de anos. Pesava em média 500 quilos e tinha cerca de três metros de comprimento.

Abelissauro ou abelisaurus comahuensis: dinossauro carnívoro com características físicas semelhantes ao do Tiranossauro rex. Viveu na região dos atuais estados de Minas Gerais e São Paulo e tinha cerca de seis metros de comprimento e quase cinco de altura.

Carnossauro: carnívoros que chegavam a medir aproximadamente sete metros de comprimento. Habitou a região dos atuais estados do Mato Grosso, Paraíba e Bahia.

Celurossauro: bípede e carnívoro. Muito veloz e viveu na região do Estado de São Paulo no período Jurássico. Chegava a ter três metros de comprimento, cauda longa e pescoço flexível.

Estauricossauro ou staurikossaurus pricei: carnívoro com cerca de dois metros de comprimento e 50 quilos. Habitou a região do Rio Grande do Sul.

Iguanodonte: muito grande, chegava a pesar cinco toneladas distribuídas em até 10 metros de comprimento e sete de altura. Viveu na região do estado da Paraíba.

Titanossauro ou titanosaurus indicus: considerado o maior dinossauro que viveu no Brasil. Habitou a região onde hoje estão o estado de São Paulo, Goiás, Minas Gerais e Mato Grosso.

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