Bairros

Só população acaba com o Aedes

Wanessa Ferrari
| Tempo de leitura: 6 min

De piscinas com água parada a copos d?água que guardam a dentadura durante noite, qualquer lugar serve como maternidade para a procriação da dengue. E, acredite, os agentes de controle de endemias já viram casos como estes e outros tantos mais.

Mas não é preciso trabalhar em uma equipe de combate à dengue nem na Secretaria Municipal de Saúde para identificar no cotidiano dos bairros quais as situações que oferecem risco à população e são um prato cheio para indesejável do Egito, tradução para o nome Aedes aegyptii, o mosquito da dengue.

No Núcleo Fortunato Rocha Lima, por exemplo, um dos bairros que registra o maior número de infectados pelo vírus, terrenos baldios, com água parada e cheios de lixo não são raridade. Pelo contrário, fazem parte do cotidiano dos moradores do local, que também convivem também com uma grande quantidade de depósitos de ferros-velhos e de materiais recicláveis.

Até a última quinta-feira, um mutirão iniciado no bairro no último dia 14 já havia coletado mais de 40 toneladas de materiais que podem servir de criadouro para a larva do vetor.

Na rua onde mora Nayara Carolina da Silva, 16 anos, dá para contar nos dedos as casas que não tiveram pelo menos um de seus moradores temporariamente de cama por conta da doença. Ela, por exemplo, foi uma das afetadas.

"No início de fevereiro tive uma febre muito alta. Achando que era gripe, tomei remédio e os sintomas pioraram. Por sorte, no dia seguinte, uma agente de saúde passou em casa e me encaminhou para um posto de saúde com urgência. Foi quando foi diagnosticada a dengue", lembra Nayara.

Além dela, a mãe e a sogra também foram vítimas do Aedes aegypti e as três ainda têm pesadelos com a doença.

"É horrível, só que já teve sabe o quanto a dor é insuportável. Fiquei muito preocupada com meu filho, que tem apenas 1 ano e 6 meses. Ele não suportaria a dor", desabafa Nayara.

Para evitar o contágio do pequeno Guilherme da Silva, Nayara passou uma temporada na casa de um parente, no Vale do Igapó. Na opinião dela, falta colaboração por parte da vizinhança, que insiste em jogar lixo em terrenos vazios e não se preocupa com água parada.

O sinal de alerta também já soou na Vila Nova Esperança, bairro que figura na lista dos mais afetados da cidade pela dengue. Lá o problema de terrenos baldios e com lixo também é comum.

Uma moradora do local, que se identificou apenas como Rosa, conta que passou cerca de dez dias oscilando entre vômitos intensos, febre alta e muitas dores no corpo.

"Eu não aguentava nem levantar da cama que já me sentia muito mal. É uma doença que não desejo nem para um cachorro", afirma.

No caso de Rosa, o primeiro sintoma a aparecer também foi a febre alta e a coriza. Por conta disso, ela procurou um posto de saúde. Porém, diferente do que se espera, a enfermeira disse a ela que o quadro era de gripe e orientou-a a tomar um determinado remédio.

"Parece que quanto mais eu tomava remédio, pior eu ficava. No momento, até aliviava um pouco, mas, pouco depois, os sintomas voltavam a aparecer com força total", recorda.

Percebendo a insistência da doença, Rosa procurou novamente um posto de saúde e, desta vez, foi encaminhada para o exame que constatou a doença. Em sua casa, além dela, o marido também foi picado pelo mosquito.


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Megaoperação da dengue já multou três

Desde que começou a megaoperação da dengue, no último dia 14, três pessoas já foram autuadas por se recusarem a receber os agentes para vistoria. Os dados são da Prefeitura de Bauru, que ainda informou que até a tarde da última quinta-feira as equipes que integram a megaoperação haviam recolhido 45,39 toneladas de material com vistoria em 7.103 imóveis.

Enquanto isso, o número de casos de dengue em Bauru não para de aumentar. Para tentar reverter o atual quadro, a cidade montou uma comissão designada para traçar ações estratégicas de combate ao Aedes aegypti, que definiu pela realização de uma megaoperação, iniciada no último dia 14.

O mutirão envolve as secretarias municipais de Saúde, Obras, e Meio Ambiente, Defesa Civil, Empresa Municipal de Desenvolvimento Urbano e Rural de Bauru (Emdurb), Superintendência do Controle de Endemias (Sucen) e Departamento de Água e Esgoto (DAE) e atua nos bairros onde estão concentrados 80% dos casos da patologia: Jardim Prudência, Nova Esperança, Vila Industrial, Núcleo Habitacional Vereador Edson Francisco da Silva e Parque Jaraguá.

O foco inicial dos agentes são as vistorias de imóveis e a retirada de possíveis focos de larvas do mosquito transmissor. Os coordenadores da operação orientam as famílias para que após as visitas dos agentes, o ideal é que os responsáveis pelos imóveis mantenham o trabalho realizado, de forma a colaborar efetivamente para o controle da doença. Mesmo porque, a idéia de que apenas o trabalho do poder público vai eliminar focos do Aedes e diminuir a incidência de dengue na cidade é completamente equivocada.


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Ossos do ofício

Se o combate à dengue fosse comparado à uma guerra, certamente, Fabiana Miedes da Silva Moreira, agente de controle de endemias, atuaria na linha de frente da batalha. Isto porque ela é uma das responsáveis por eliminar, pessoalmente, o inimigo número um da cidade: as larvas do mosquito Aedes Aegyptii.

Para cumprir sua missão, Fabiana acorda cedo, veste sua armadura composta por luvas descartáveis, chapéu para proteger do sol, tênis e uniforme de cor amarela.

Depois disso, vai com os colegas da equipe de controle de endemias até os bairros que registram o maior número de casos da dengue. Lá ela passa o dia, percorrendo residências e terrenos, identificando e coletando quaisquer objetos que possam acumular água e servir de maternidade para os indesejáveis bebês-dengue.

Há oito anos esta é a rotina de Fabiana, porém, como qualquer soldado que frequenta muitas batalhas, há um mês Fabiana foi atingida pelo inimigo.

"Fiquei nove dias de cama por causa da dengue. Quando percebi os primeiros sintomas não tive dúvidas, pensei: o danado do mosquito me pegou", conta.

Os sintomas que até então ela explicava para os moradores dos bairros onde visitava tornaram-se reais e bem mais doloridos do que pareciam ser. Moradora do Jardim Carolina, local onde tem poucos casos da doença, Fabiana tem certeza de que foi picada enquanto trabalhava no combata à doença.

"E é isso que eu fico mais brava. Por mais que a gente fale, por mais que a gente ensine, as pessoas não tem consciência. Daí a Secretaria Municipal de Saúde tem de mobilizar esforços para fazer um trabalho que é dever da população: manter a própria casa limpa", reclama.

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