Ciências

Enxaguantes, bebidas e câncer: no rótulo!?


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Os fabricantes de enxaguantes bucais alcoólicos podem ser obrigados a colocar nas embalagens informações como: este produto pode causar câncer! A briga judicial promete. Os próximos alvos serão as bebidas alcoólicas. Imagine no rótulo ou lata da cerveja: beber pode provocar câncer! Ou fotos chocantes de pacientes.

A mucosa bucal pode ser comparada com um piso com espessura de 15 a 20 ladrilhos um sobre o outro e que correspondem às células epiteliais. Na pele temos ainda uma espessa camada de queratina, uma proteína bem resistente. A camada de queratina é fina no dorso da língua, palato e gengiva; nas outras partes nem tem queratina, as células ficam diretamente expostas ao meio bucal.

As informações que fazem o corpo funcionar estão em fichas ou receitas no núcleo das células. Estas fichas ou informações podem ser chamadas de genes e são escritas com moléculas comparáveis às letras que compõem as palavras. Os nossos 25 mil genes estão organizados em 23 pares de arquivos chamados cromossomos.

Produtos químicos, radiações como as solares e vírus no núcleo podem mudar as letras e palavras das informações ou genes que comandam a proliferação celular. Isto pode gerar células atípicas, rebeldes e sem controle proliferam desenfreadamente; surgem as neoplasias malignas ou cânceres. As mudanças nos genes são conhecidas como mutações. Temos como consertar ou matar as células atípicas, mas todo dia a vida toda, os mecanismos de defesa podem falhar! Outros agentes são carcinogênicos e modificam os genes na mucosa bucal como as centenas de substâncias do tabaco, álcool, conservantes, aromatizantes, corantes, adoçantes e herbicidas dos alimentos.

Os agentes carcinogênicos que induzem diretamente as mutações são iniciadores. Os que potencializam as mutações de outros agentes são promotores. O álcool chega a potencializar entre 15 a 50 vezes o efeito do tabaco como agente carcinogênico. É muita coisa! Alguém pode afirmar: - toma álcool quem quer, todo mundo sabe que faz mal! Infelizmente não é bem assim, pois realmente quem toma bebida alcoólica deve saber o que está fazendo, mas muitos produtos que se usa ou passa pela boca tem álcool e as pessoas não sabem. E os efeitos sobre as células são somatórios ao longo da vida: com a idade aumenta-se a probabilidade de gerar câncer.

O álcool é um ótimo solvente e veículo para muitas outras substâncias como perfumes, tinturas, cosméticos, xaropes, soluções fluoradas, alimentos e especialmente os enxaguantes bucais conhecidos como bochechos, colutórios ou antissépticos. Além de antimicrobiano, o álcool é barato e acessível, facilitando muitos processos industriais. Na composição dos produtos que entram em contato com a mucosa e pele, leia na embalagem se tem álcool.
Aplicar enxaguantes bucais 3 vezes ao dia para a mucosa representa ingerir bebida alcoólica 3 vezes ao dia, tal qual um etilista. O profissional que recomenda o uso de enxaguantes bucais avisa o paciente que o uso deve ser temporário após cirurgias, raspagens dentárias e outros procedimentos. Quando o paciente insiste em fazer enxagues bucais como parte de sua higiene diária - o que não é necessário - os profissionais geralmente recomendam enxaguantes não alcoólicos.

Quando pesquisamos o conteúdo alcoólico dos enxaguantes e comparamos com o de bebidas, ainda não havia no mercado a opção não alcoólica. Agora todas as marcas tem os dois tipos. Uma das marcas de enxaguantes bucais apresentou 75% de álcool, enquanto outras variaram de 29,9 - 23,4 ? 11,6 ? 4,2 ? 0,5 a 0,3%. Para efeito comparativo o whisky tem 42,03%, a vodka 36,8%, a cachaça 36,4%, o vinho 10,5% e a cerveja 4,59%. As pesquisas mostraram que as bebidas alcoólicas são carcinogênicas na mucosa bucal e potencializam as demais causas. As pesquisas não precisariam ser exatamente com enxaguantes bucais, pois o álcool das bebidas é o mesmo e elas são reconhecidamente carcinogênicas.

Foi difícil com o tabaco e o será para limitar os produtos alcoólicos. A Anvisa está sendo acionada pelo Ministério Público Federal em Guarulhos para que obrigue os fabricantes de enxaguantes nas embalagens informarem que o álcool pode causar câncer! Você tomaria bebida alcoólica com frases e fotos de alerta no rótulos?

Duas dicas para enxaguantes bucais: 1) use as formulações não alcoólicas e deixe as demais na prateleira; naturalmente as marcas com álcool sairão do mercado. 2) Se arder ou queimar não significa que o produto está atuando contra os microrganismos, apenas que está machucando os tecidos da boca! As bactérias não sentem dor!


Alberto Consolaro ? Professor Titular da USP e Colunista do Caderno Ciências do JC

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