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Salário digno para todos

Iolanda Toshie Ide
| Tempo de leitura: 2 min

Muitos discursos compuseram o processo de votação para determinar o valor do Salário Mínimo (SM) a vigorar neste ano de 2011. Muitos interesses estão envolvidos por trás de várias das falas tanto a favor quanto contra um SM de R$ 545,00.

Não há dúvida de que a corrosão do poder aquisitivo foi de tal monta que, se hoje se tentar considerar o que reza o artigo 7º da nossa Constituição tenhamos que admitir que seu valor deveria ser, conforme cálculo do DIEESE, de R$ 2.227,53. No entanto, os mesmos que promoveram o arrocho salarial que levou o SM a esse patamar tão baixo são os que acusam os outros pela corrosão. É preciso porém se perguntar se é possível sobreviver com 545 reais, mesmo sem cônjuge e sem filhos.

Há duas décadas mais de 70% da população chinesa ainda sobrevivia na zona rural. O regime de trabalho urbano era quase escravo. Temo que hoje com uma economia ocidentalizada, embora os salários sejam maiores, a desigualdade social seja maior. Não tendo dados para conferir, trata-se de cogitações apenas.

O SM do Brasil fica bem abaixo do do Chile, Argentina, Uruguai, Paraguai... Mas está acima do de Cuba, que oferece escolarização, saúde, lazer, cultura gratuitos e...médica pediatra em tempo integral nas creches.

Enfim para se comparar os salários nominais entre os vários países, é necessário que também se avalie os atendimentos estatais em saúde, educação, transporte, moradia, ... No Brasil, a despeito das mazelas, o SUS é um sistema de saúde que ainda funciona. Fosse como nos Estados Unidos metade da população estaria morta.

Não há dúvida de que nos últimos anos houve uma recuperação do SM e também das aposentadorias pelo INSS. A política que prevê reposição da inflação acrescida do aumento do PIB de dois anos anteriores também é um avanço mas, ainda muito relativo se considerarmos as perdas sucessivas principalmente nos maus tempos dos ajustes estruturais e "pacotes econômicos". Neste ano de 2011 há um agravante: o crescimento do PIB de dois anos atrás é exatamente o do estouro da crise.

Uma sugestão: salários do parlamento e do judiciário com percentuais de aumento iguais aos do salário mínimo, por enquanto. A seguir, as discrepâncias seriam paulatinamente corrigidas até que as desigualdades se tornem menos aviltantes. Não esquecer de taxar regiamente as grandes fortunas.

Pode "desequilibrar as contas", mas não nos esqueçamos que houve 300 bilhões para socorrer os que causaram uma séria crise (que ainda não acabou) para que continuem especulando e garantindo ganhos astronômicos aos ladrões: executivos, diretores, banqueiros, às custas da pobreza de uma multidão de brasileiros.

O Brasil é um país rico; desconcentrando renda pode proporcionar salário digno para todos e todas.


A autora, Iolanda Toshie Ide, é colaboradora de Opinião

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